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"Sem alternativa", Janaina Paschoal mantém relação ambígua com bolsonarismo

Janaina Paschoal, deputada estadual, durante participação no Roda Viva - Reprodução/TV Cultura
Janaina Paschoal, deputada estadual, durante participação no Roda Viva Imagem: Reprodução/TV Cultura

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

05/11/2019 02h14

Ao centro do programa Roda Viva nesta segunda (4), pouco se via na deputada Janaina Paschoal (PSL) a advogada que defendeu arduamente o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e proferia discursos calorosos para os que sustentavam a queda da então presidente. A verve antipetista continua, mas ela não se furta a criticar o bolsonarismo — principalmente a ala mais radical — e parte do que o circunda.

A despeito de não se dizer bolsonarista, classifica-se como apoiadora do presidente e afirma "gostar de sua pessoa". Quando questionada sobre as suspeitas de corrupção que assolam o PSL, em especial as candidaturas laranjas, afirma que todos os partidos devem ter problemas semelhantes.

A ambiguidade de sua relação com o bolsonarismo é visível nas pautas que defende. De um lado, afirma que não vê com bons olhos a privatização de presídios e que não acha que se deva transportar a lógica empresarial para saúde, educação e segurança pública. Em outro momento, diz que não se pode escrever em um material de educação sexual que ninguém nasce mulher ou homem "porque é mentira."

Ao ser questionada se tem orgulho da direita que ascendeu junto à ela no PSL, a deputada faz uma pergunta retórica: "Não é um pensamento que confia com o meu, sou bem mais moderada, mas que alternativa eu tinha?", e arrematou: "Agora, ou ele [Bolsonaro] melhora, ou nós teremos que construir uma alternativa."

Durante o intervalo entre um bloco e outro, na esteira de uma pergunta que interpelava sua posição caso Bolsonaro decida sair do partido, pergunta a um dos entrevistadores: "Se sair, eu vou pra onde?". Em sua última entrevista, veiculada na TV Record, o presidente afirmou que há 80% de chance de deixar o PSL e, neste caso, 90% de possibilidades de criar um novo partido para chamar de seu. "Ele tem essa mania de colocar números...falar em 80% e nada é a mesma coisa", afirmou Janaina aos entrevistadores.

"Ou Bolsonaro melhora ou teremos de construir alternativa", diz Janaina

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Nas respostas, a deputada estadual mais votada da história parece se escorar mais no antipetismo do que em uma defesa do bolsonarismo. "Eu não queria o PT, e vi no Bolsonaro a principal força para bater de frente com o PT", disse. Antes, em meio à discussão sobe a saída do PSL, afirmou que "estar em um partido ou outro não faz diferença", no que pode ser interpretado como contradição ou mero afago à sigla que faz parte.

PSDB e MDB, argumenta a deputada, também caíram na mesma esteira de corrupção que o PT. Questionada pelo UOL se o PSL não teria adentrado a mesma vala comum, diz que "em termos de valores e amplitude, não dá para comparar", mas que "nada justifica" a corrupção. "Ainda que seja um caso pequeno, tem que ser apurado", afirma Janaina.

A lógica do "morde e assopra" também se faz presente quando a jurista fala sobre a possibilidade de impeachment de Bolsonaro ou em relação aos arroubos autoritários dos seus filhos. Segundos após afirmar que há risco do presidente não terminar seu mandato (não pela prática de crimes, mas pelas pessoas que o circulam e o aconselham), tece elogios aos ministros e à aprovação da reforma da Previdência. Pouco depois, reitera a defesa de afastamento do ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio "para preservar o governo."

"Ele [Bolsonaro] ainda tem muita gente no povo que apoia, gosta dele, eu mesma gosto dele, mas as pessoas se cansam. Têm situações que ele cria conflitos onde flagrantemente não precisa. Então, você une uma pessoa que cria esses conflitos. Na verdade, não é só ele coitado, mas a família. Vai gerando animosidades", disse a deputada.

Na primeira pergunta que respondeu no programa desta segunda, reafirmou que acha "descabida" a fala de Eduardo Bolsonaro (PSL) sobre o AI-5, mas que a frase é "passível de se conviver em uma verdadeira democracia."

À reportagem, a deputada diz que Bolsonaro e seus filhos têm de fazer uma "reflexão sobre aonde este acirramento vai levar". "É possível viver tão isoladamente? (...) Chegaram lá no topo do poder, é necessário haver ajustes. Por exemplo, as manifestações do presidente com relação aos países vizinhos, você pode gostar, pode não gostar, mas existe uma forma de você conviver com os países vizinhos. Então eles [Bolsonaro e seus filhos] não são mais deputados, o presidente é o presidente e eles são os filhos do presidente, e precisam se comportar como filhos e só", diz.

Antipetismo e Alesp

A resposta relacionada ao "novo AI-5" suscitado por Eduardo trouxe consigo a primeira de muitas críticas ao PT — partido que classifica como "autoritário" — à esquerda em geral e aos jornalistas, denominados por Janaina como "formadores de opinião".

"Vejo uma fala tão ruim quanto a dos políticos esquerdistas que dizem que a Venezuela não é uma ditadura sanguinária, como efetivamente é", diz. Em outro momento, afirmou que os formadores de opinião "sustentam o PT".

Também criticou, quando provocada, a cobertura que a imprensa faz da Assembleia Legislativa de São Paulo. Cita que deveria haver mais "profundidade" quando se trata dos projetos que circulam no parlamento estadual. Um dos entrevistadores argumenta que os projetos de Janaina, como o que previa o direito às gestantes optarem pelo parto cesariano na saúde pública, tiveram ampla cobertura. "E quando eu não estiver mais lá?", respondeu.

No mais recente embate que travou na assembleia, onde foi contrária a um projeto que permite o governo do estado contratar um empréstimo para investir na recuperação do rio Tietê. Aprovado no último dia 15, o projeto rachou a Alesp em duas partes sem espectros ideológicos definidos. "Até parte da esquerda votou contra", disse uma entrevistadora em conversa com Janaina durante um dos intervalos. "Eu sou de esquerda, então?", complementou, arrancando risos de quem estava no estúdio.

Janaina Paschoal acredita em risco de Bolsonaro não concluir mandato

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