Atravessando o samba

Sem fiscalização, adolescentes bebem livremente nos blocos de rua do Carnaval de SP

Carlos Minuano Colaboração para o UOL, em São Paulo
Diego Padgurschi /UOL

Impossível não se contagiar com o clima de folia que tomou conta de São Paulo com a expansão do Carnaval de rua. Mas não é preciso gastar muita sola de sapato para ver também que tem gente atravessando o samba. Por todo o circuito de blocos, menores de idade transitam livremente com bebidas alcoólicas.

Cenas de exageros e de jovens passando mal parecem cada vez mais comuns. A reportagem do UOL esteve em diferentes pontos da cidade durante o fim de semana e constatou que, tanto na venda quanto no consumo, o descontrole é um fato. Assim como a omissão das autoridades.

Nelson Antoine/UOL Nelson Antoine/UOL

De todas as idades

Na tarde de sábado, com uma garrafa colorida na mão, Luciana*, de 17 anos, conta que há três anos curte o Carnaval de rua de São Paulo. A bebida é uma Corote, mas não a cachaça barata (famosa pelo apelido de barrigudinha, por causa do formato da embalagem). A adolescente desfilava de boa com a nova versão da bebida, um coquetel à base de vodca, com sabor de pêssego.

"Já passei mal, mas hoje aprendi a beber", afirma a jovem. "Mas há uns três meses dei 'PT' (perda total) numa festa", entrega em seguida.

A amiga Renata, de 16 anos, diz que começou na folia também há três anos. "Já passei mal junto com ela", admite. Bebendo também uma Corote, mas de sabor blueberry, a menina conta que no Carnaval anterior outra colega da turma (menor de idade) bebeu tanto que teve coma alcoólico. "Acordou no hospital só no dia seguinte". As bebidas elas compraram por R$ 5 numa adega.

Não pediram documento, mas se pedissem não seria um problema, sempre tem algum amigo com mais de 18 anos para comprar para mimRenata, 16 anos

Álcool e drogas

A dupla de amigos Maicon e Wilson, ambos de 16 anos, também não enfrentou obstáculos para reunir um verdadeiro arsenal de biritas. "Isso é Ciroc", explica Maicon, exibindo um copo enorme quase cheio de uma bebida colorida. Wilson saca uma garrafa de uísque barato que escondia atrás do corpo. "E tem mais essa", disse apontando para uma garrafa de bebida energética, que segurava entre as pernas.

"É muito fácil comprar, a maioria nem pede documentos", garante Maicon. Ele e o amigo já estiveram em outros Carnavais e dizem nunca terem sido abordados pela polícia ou por alguma fiscalização. "Bom, por causa da bebida não, mas por drogas sim", confessa rindo em seguida.

Questionado sobre quais drogas fazem uso, Wilson responde: "Só maconha". Mas o amigo delata em seguida. "E pó".

Com uma garrafa de coquetel Corote na mão, Mariana, de 17 anos, diz que bebe pouco e que nunca teve problemas. "Minha mãe sempre me ensinou a não beber muito". Mas ela conta que os amigos nem sempre conseguem ter o mesmo controle. "No pré-Carnaval três colegas passaram mal, mas porque bebem tudo o que encontram pela frente". 

Bebedeira com a mãe

Em geral, a opção dos mais jovens é pelo que for acessível e barato. E observando o vai e vem da molecada neste Carnaval dá para afirmar que no item bebida o coquetel da Corote é o hit do momento, principalmente pelo preço baixo. Entre os vendedores ambulantes a nova versão da "barrigudinha" sai por R$ 5.

No fim da tarde de ontem, a reportagem do UOL circulou pela região central e encontrou na rua Augusta, perto da praça Roosevelt, Thaís, 32, que enfrentava dificuldade para segurar o filho Robson, de 17 anos.

O garoto estava amarrado ao seu braço por uma corda, mas mal conseguia ficar em pé de tão alcoolizado. A mãe, que também dava sinais de que tinha passado do limite, explica que usou o recurso para a segurança do adolescente. "É instinto materno, afinal, é a primeira vez que bebemos juntos."

No mesmo trecho da rua Augusta, um menino de 7 anos de idade corria carregando um carrinho de isopor vazio, com um colete da Prefeitura. "Vendi tudo", confirmou o garoto que disse estar desde as 11h no batente. "Ele está mentindo", interferiu uma mulher, que afirmou ser a mãe da criança. "Começamos às duas (14h), ele é meu filho, só está me ajudando".

*Os nomes usados na reportagem são fictícios.
 

Daniel Lisboa/UOL Daniel Lisboa/UOL

O silêncio da prefeitura

A reportagem do UOL passou por dois postos de atendimento médico, um na praça Roosevelt e outro na Praça da República, região central, para verificar ocorrências de atendimentos a menores por abuso de álcool, mas ambos se recusaram a fornecer informações. A prefeitura divulgou ontem que "as equipes de saúde contratadas realizaram no sábado 404 atendimentos", mas sem distinção de faixa etária.

Uma das unidades móveis, que prestava atendimento na região central da cidade na tarde de ontem, informou ter prestado por volta de dez atendimentos a adolescentes por excesso de bebida alcoólica. Por meio de sua assessoria de imprensa, a Prefeitura de São Paulo declarou que os 10 mil ambulantes cadastrados no Carnaval de rua da cidade deste ano "receberam orientações intensivas em relação à fiscalização de venda de bebidas para menores de idade".

A nota fala ainda em 1.781 apreensões de produtos em situação irregular durante o pré-Carnaval, sem informar quais produtos são esses e por que foram apreendidos. Consultada, a Secretária de Segurança Pública também não divulgou até o fechamento desta reportagem números de ocorrências sobre venda de bebidas alcoólicas para menores de idade ou de problemas registrados por excesso de bebida. O órgão também não respondeu se alguma estratégia de fiscalização reforçada seria aplicada durante o Carnaval em virtude dos problemas registrados no fim de semana anterior.

Fiscalização falha

A venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos é crime, ressalta Iberê de Castro Diaso, juiz da Infância e Juventude, membro da Corregedoria do Tribunal de Justiça de São Paulo. "A pena é de quatro anos de prisão". E a lei vale, segundo ele, tanto para o comerciante como para quem fizer chegar esse produto na mão do adolescente. "Fornecer de graça também não pode", acrescenta.

A fiscalização da venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos é uma atribuição do Conselho Tutelar, mas pode ser feita por qualquer pessoa, observa o juiz do TJ. "É claro que a Polícia Militar e prefeitura também devem zelar pelo cumprimento da lei, mas é importante que toda a sociedade esteja comprometida com essa questão."

Entretanto, não é esse o caso. De acordo com o juiz, o número de processos por esse crime  - de venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos - que chegam ao judiciário é muito baixo, quase inexistente.

O crescimento do Carnaval não é acompanhado por um aumento da fiscalização na mesma proporção.

Iberê de Castro Diaso, juiz da Infância e Juventude, membro da Corregedoria do Tribunal de Justiça de São Paulo

Nelson Antoine/UOL  Nelson Antoine/UOL

Receita do caos

"O modelo atual do Carnaval de rua em São Paulo é a receita do caos", define a pesquisadora e professora do departamento de medicina preventiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Zila Sanchez. O crescimento dos blocos de rua acaba aumentando e facilitando para menores de idade o acesso a bebidas alcoólicas, observa a especialista que estuda o problema há 20 anos. "O adolescente vai fazer uso quanto mais fácil for obter a bebida."

Segundo ela, a facilidade de acesso, que se intensifica atualmente com os blocos de rua, não existia há poucos anos. "Só era possível beber em alguma balada fechada, onde necessariamente tinha que apresentar documento". Do ponto de vista da saúde pública a situação é grave, salienta a pesquisadora. "A grande discussão neste momento deve ser sobre esse aumento da acessibilidade sem nenhuma medida de controle para impedir ou reduzir o consumo de álcool pelos adolescentes".

E os impactos para a saúde dos jovens são muitos, alerta Zila. "Quanto mais cedo ele começar a beber, maior a chance dele se tornar dependente na idade adulta". O álcool decorrente da ingestão precoce traz no futuro um combo de problemas, prossegue a pesquisadora. "Está associado a diversos tipos de câncer, por exemplo."

Mas ainda na adolescência os problemas associados ao abuso de álcool não são poucos, lembra Zila. Vão dos mais óbvios, como se expor a comportamentos sexuais de risco, até os menos visíveis de imediato, caso, por exemplo, dos prejuízos neurocognitivos. "Compromete muito o desenvolvimento, nesta fase da vida sistemas nervosos estão ainda em formação, por isso é afetado de maneira mais intensa do que se comparado a um adulto."

O abuso do álcool pelos adolescentes reflete o comportamento dos adultos. Se os adultos exageram na bebida no Carnaval, por que adolescentes fariam diferente?

Sandra Schivoletto, coordenadora do ambulatório de Adolescentes e Drogas do IPq (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo)

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