Cérebro e mente

Técnica que avalia a fala prevê esquizofrenia com 80% de precisão

Fábio de Castro

  • iStock

    esquizofrenia, depressão

    esquizofrenia, depressão

O novo método de diagnóstico da esquizofrenia desenvolvido pelos cientistas do Instituto do Cérebro da UFRN se baseia na análise da fala dos pacientes. De acordo com a autora principal do artigo, a psiquiatra Natália Mota, a psicopatologia clássica já via na maneira de se expressar do esquizofrênico uma forma de distinguir a doença de outras, como do transtorno bipolar.

"Há muito tempo os sintomas da desordem do pensamento expressa na fala foram descritos como típicos da esquizofrenia. Não apenas o conteúdo do que a pessoa fala, mas a forma. O psiquiatra observa esses sintomas com base no que chama de 'descarrilamento do pensamento e frouxidão das ideias'", disse Natália à reportagem.

Segundo ela, no caso dos pacientes crônicos, o psiquiatra consegue perceber esses sintomas com relativa facilidade, a partir do histórico das crises e da expressão das ideias, que já apresenta clara falta de conectividade. Mas, em crianças e adolescentes que começam a ter sintomas, o clínico tem dificuldades para diferenciar a esquizofrenia da bipolaridade e de outros transtornos mentais.

"Percebemos que seria importante aplicar esse método de análise da fala logo início, a fim de poder rastrear quais pacientes poderiam desenvolver no futuro os sintomas mais difíceis de tratar, como a degradação cognitiva", afirmou.

Aplicação clínica

Natália, que está concluindo o doutorado em Neurociências no Instituto do Cérebro, acompanhou as crianças que chegavam para a primeira consulta em um Centro de Atenção Psicossocial Infantil em Natal.

Depois de fazer gravações de 30 segundos da fala das crianças - enquanto elas contavam um sonho da noite anterior, por exemplo -, os cientistas analisaram como as palavras se conectavam, utilizando para isso um software desenvolvido por eles e baseado na teoria dos grafos, um ramo da matemática que estuda as relações entre os elementos de um conjunto, de palavras, neste caso. O estudo também teve participação do físico Mauro Copelli, da Universidade Federal de Pernambuco.

Depois da transcrição da gravação, os cientistas carregavam o arquivo de texto no software, cujo algoritmo quantifica as características da conectividade entre as palavras.

Seis meses após o experimento, já com o diagnóstico das crianças definido clinicamente, foi possível observar as diferenças do discurso daquelas que apresentavam esquizofrenia e testar a eficácia do método. "O que observamos é que, já na primeira entrevista, as crianças que seis meses depois foram diagnosticadas com esquizofrenia falavam de uma forma bem menos conectada e menos complexa", disse Natália.

Ao combinar os três diferentes componentes matemáticos utilizados para obter as medidas de aleatoriedade da fala, os cientistas criaram um número único - o índice de fragmentação da fala -, que tornou o resultado ainda mais consistente. A técnica previu a esquizofrenia com mais de 80% de precisão.

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