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Esclareça mitos sobre a fibromialgia, síndrome que causa dores e desânimo

Rosana Faria de Freitas

Do UOL, em São Paulo

25/11/2013 07h00

Fadiga, indisposição, distúrbios do sono e, principalmente, dor. Estas são as principais manifestações da fibromialgia, uma forma de reumatismo – pois envolve músculos, tendões e ligamentos – associada à forte sensibilidade frente a um estímulo doloroso. Nesta síndrome a dor é a própria doença, e não o alarme de algo a ser descoberto. E, com incômodo constante em diversas partes do corpo, é difícil manter a qualidade de vida.

“Sentindo dor sem um motivo aparente, o indivíduo sofre também com mudanças de humor, como irritabilidade e ansiedade”, destaca Cláudio Correa, coordenador do Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional do Hospital Nove de Julho (SP) e presidente do Instituto Simbidor (SP).

“Além das alterações emocionais, são muito comuns a indisposição e a falta de energia”, completa Suely Roizenblatt, especialista em reumatologia e professora adjunta da disciplina de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que desenvolve estudo sobre a fibromialgia desde 1990.

O paciente ainda pode ser acometido por sonolência, sensação de edema nas mãos, dor de cabeça, síndrome do cólon irritável (diarreia crônica) e outros distúrbios gastrointestinais, síndrome de Raynaud (alteração temporária na coloração da pele) e bruxismo (ato de apertar e ranger os dentes durante a noite).

Mulheres

A fibromialgia é prevalente em mulheres - em uma proporção de dez para cada homem com o problema -, especialmente na faixa etária entre 36 e 60 anos. Estudos com crianças, adolescentes e grupos especiais são escassos e pouco conclusivos.

No Brasil, o número de diagnósticos vem crescendo. Em 2004, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a fibromialgia afetava cerca de 2% da população e era motivo de aproximadamente 15% a 20% das consultas em ambulatórios de reumatologia. Hoje, acredita-se que acometa até 10% da população, de acordo com a Associação Brasileira de Fibromiálgicos (Abrafibro). A maioria dos casos (cerca de 80%) é de mulheres acima dos 25 anos.

Mesmo com o tratamento adequado, a cura nem sempre é garantida. “Muito embora a fibromialgia seja conhecida e estudada há muitos anos, ainda não se chegou a uma conclusão sobre sua origem. Por isso, não há um caminho a percorrer ou mesmo garantia quando o propósito é a cura. O grande desafio, no momento, é fazer com que a adesão ao tratamento aconteça”, analisa Correa.

Alarme defeituoso

Quem apresenta o distúrbio tem maior suscetibilidade à dor e uma falha na modulação da mesma: quando ela é desencadeada, fica difícil inibi-la. “É como um alarme defeituoso, que dispara por qualquer razão e não para de soar”, destaca Moisés Cohen, professor e chefe do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Unifesp, diretor do Instituto Cohen de Ortopedia, Reabilitação e Medicina do Esporte (SP).

O organismo é afetado por inteiro. “Trata-se de uma condição sistêmica – acomete todo o corpo – e crônica, que evolui com períodos de exacerbação e remissão. Nesse sentido, o tratamento deve ser o mais abrangente possível”, completa Alexandre Walter de Campos, neurocirurgião responsável pelo Ambulatório de Dor do Hospital São Camilo (SP).

Em pesquisa feita em 2002 pela "Arthritis & Rheumatism", revista oficial do Colégio Americano de Reumatologia, com 20 mulheres diagnosticadas com o mal e dez sem a doença, estudiosos detectaram alterações no cérebro daquelas com fibromialgia. O processo de análise incluiu uma tomografia computadorizada.

Foi possível, então, observar que as que sofriam da doença apresentavam modificações no fluxo sanguíneo na região cerebral conhecida por mensurar a intensidade da dor. “E tais alterações se mostraram proporcionais à gravidade da disfunção”, atesta o cirurgião vascular Wilson Rondó, especializado em medicina preventiva molecular e terapias antioxidantes pelo The Robert W. Bradford Institute (EUA).

Tratamentos

O tratamento envolve três pilares fundamentais, segundo Campos: medicamentos, em geral moduladores de humor que atuam em vias nervosas e alteram a concentração de alguns neurotransmissores; acompanhamento psicológico e eventualmente psiquiátrico, para ajudar em quadros ansiosos ou depressivos e dar suporte às limitações impostas que comprometem a qualidade de vida; e reabilitação e o condicionamento físico, necessários para reduzir a hipersensibilidade dolorosa musculoesquelética.

O exercício físico, aliás, é muito recomendado. “Ele atua de forma direta na dor e nos sintomas oriundos da patologia, como ansiedade e depressão”, considera Robson Donato de Souza, personal trainer da Academia Competition “Salvo quem apresenta alguma contraindicação, todos os pacientes se beneficiarão ao praticar de forma regular.”

A psicoterapia e o acompanhamento psiquiátrico também entram em cena se o indivíduo apresentar instabilidade emocional e quadros depressivos. “Na maioria das vezes, o portador não se sente física e emocionalmente saudável”, diz o neurocirurgião Cláudio Correa. Isso acontece, em parte, porque os fibromiálgicos normalmente são desacreditados por não apresentarem sinais físicos evidentes e tampouco exames laboratoriais e de imagem que comprovem sua disfunção.

E há outras formas de terapia que podem se somar às tradicionais, como a hipnose dinâmica, a acupuntura e a eletroterapia, que emprega a estimulação elétrica com o objetivo de aliviar os desconfortos, o emprego de antioxidantes e dietas especializadas. “Em relação à hipnose, ela desvia a atenção do problema para que o cérebro não o perceba ou o interprete de maneira diferente”, explica o psiquiatra Leonard Verea, especializado em medicina psicossomática e hipnose dinâmica.

Wilson Rondó recomenda, por sua vez, um programa que inclua alimentação individualizada. “Muitos pacientes têm alergia alimentar. Passando a comer de acordo com seu tipo metabólico, é possível promover uma considerável melhora no quadro.”