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Por encomenda! Relíquia é roubada de zona de guerra e vendida no Facebook

Amr Al-Azm/The New York Times
Busto roubado da cidade de Palmira, na Síria, e colocado à venda no Facebook Imagem: Amr Al-Azm/The New York Times

Karen Zraick

2019-05-12T04:00:00

12/05/2019 04h00

Tesouros antigos saqueados de zonas de conflito no Oriente Médio estão sendo colocados à venda no Facebook, segundo pesquisadores, incluindo itens que podem ter sido roubados por militantes do Estado Islâmico.

Os grupos no Facebook que anunciam a venda dos itens cresceram rapidamente durante a Primavera Árabe e as guerras que se seguiram, o que criou oportunidades sem precedentes para traficantes de antiguidades, afirmou Amr Al-Azm, professor de história e antropologia do Oriente Médio na Universidade Shawnee State em Ohio e que já trabalhou com antiguidades na Síria. Ele monitorou o comércio por anos junto com seus colegas no Projeto Athar, palavra árabe que significa antiguidades.

Ao mesmo tempo, disse Al-Azm, as redes sociais reduziram as barreiras para a entrada desses produtos no mercado. Agora existem pelo menos 90 grupos no Facebook, a maioria em árabe, ligados ao comércio ilegal de antiguidades do Oriente Médio, com dezenas de milhares de membros, segundo o professor.

Eles costumam postar itens ou consultas no grupo e, em seguida, levam a discussão para chats ou para o WhatsApp, dificultando o rastreamento. Alguns usuários fazem circular pedidos para certos tipos de itens, incentivando os traficantes a consegui-los, em um cenário que Al-Azm chamou de "saque sob encomenda".

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Outros postam instruções detalhadas para possíveis futuros saqueadores sobre como localizar sítios arqueológicos e desenterrar tesouros.

Os itens à venda incluem um busto supostamente retirado da antiga cidade de Palmyra, que foi ocupada durante alguns períodos por militantes do Estado Islâmico e sofreu pesados saques e danos.

Outros artefatos à venda vêm do Iraque, Iêmen, Egito, Tunísia e Líbia. A maioria dos itens não vem de museus ou coleções, onde teriam sido catalogados, disse Al-Azm.

Eles estão sendo saqueados diretamente do chão. Eles nunca foram vistos. A única evidência que temos de sua existência é se alguém postar uma foto deles
Amr Al-Azm, professor de história e antropologia do Oriente Médio na Universidade Shawnee State em Ohio

Al-Azm e Katie A. Paul, diretores do Projeto Athar, escreveram no World Politics Review no ano passado que os "saques sob encomenda" mostraram que os traficantes estavam "direcionando material com um nível inédito de precisão, uma prática que o Facebook torna incrivelmente fácil".

Depois que a BBC publicou um artigo sobre o trabalho de Al-Azm e seus colegas na semana passada, o Facebook afirmou ter removido 49 grupos ligados ao tráfico de antiguidades.

Al-Azm afirmou que 90 grupos ainda estavam em funcionando. Mas o mais importante, argumentou ele, é que o Facebook não deve simplesmente apagar as páginas, que agora constituem uma evidência crucial tanto para as forças de segurança quanto para os especialistas em antiguidades.

Em um comunicado divulgado na terça-feira, a empresa disse que "continua investindo em pessoas e tecnologia para manter esse tipo de atividade fora do Facebook e encorajar outros a relatar qualquer coisa que suspeitem que viole nossos Padrões da Comunidade para que possamos agir rapidamente".

Um porta-voz afirmou que a equipe de policiamento da empresa contava com 30 mil membros e que havia introduzido novas ferramentas para detectar e remover conteúdo que viola a lei ou suas políticas usando inteligência artificial, aprendizado de máquina e visão computacional.

O tráfico de antiguidades é ilegal na maior parte do Oriente Médio, e negociar com relíquias roubadas é ilegal sob a lei internacional. Mas pode ser difícil processar esses casos na Justiça.

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Leila A. Amineddoleh, uma advogada especializada em arte e patrimônio cultural de Nova York, disse que determinar a procedência de itens saqueados pode ser um trabalho árduo e que representa um obstáculo para advogados e acadêmicos.

Al-Azm contou que a pesquisa de sua equipe indicou que os grupos do Facebook são administrados por uma rede internacional de traficantes que atendem a revendedores, incluindo os do Ocidente. As vendas são geralmente realizadas pessoalmente em dinheiro nos países vizinhos, disse ele, apesar dos esforços na Turquia e em outros países para combater o contrabando de antiguidades.

Ele criticou o Facebook por não atender aos avisos sobre as vendas de antiguidades já em 2014, quando poderia ter sido possível excluir os grupos para interromper, ou pelo menos retardar, seu crescimento.

À medida que o Estado Islâmico se expandia, o grupo terrorista sistematicamente saqueava e destruía, usando máquinas pesadas para escavar sítios antigos que mal haviam sido escavados antes da guerra. O grupo permitiu que moradores e outros saqueadores retirassem seus patrimônios, impondo um imposto de 20% sobre seus ganhos.

Algumas pessoas locais e especialistas em patrimônio cultural se esforçaram para documentar e salvar as antiguidades, incluindo os esforços para protegê-las fisicamente e para criar modelos e mapas em 3D. Apesar de seus esforços, as perdas foram catastróficas.

Imagens de satélite mostram locais de valor inestimável, como Mari e Dura-Europos no leste da Síria, marcados por buracos de escavações de saqueadores. No Museu de Mosul, no Iraque, os militantes se filmaram levando marretas e brocas para monumentos que consideravam idólatras, em atos desenhados para o máximo valor de propaganda enquanto o mundo observava com horror.

Outras facções e pessoas também lucraram com saques. Na verdade, o mercado estava tão saturado que os preços caíram drasticamente por volta de 2016, disse Al-Azm.

Na mesma época, enquanto combatentes do Estado Islâmico se dispersavam diante das perdas territoriais, eles levaram sua nova experiência em saques para seus países, incluindo Egito, Tunísia e Líbia, e para outras partes da Síria, como a província de Idlib, acrescentou.

"Esta é uma questão de oferta e demanda", afirmou Al-Azm, repetindo que qualquer demanda dá incentivos aos saqueadores, possivelmente financiando grupos terroristas no processo.

Em vez de simplesmente deletar as páginas, para Al-Azm, o Facebook deveria criar uma estratégia mais abrangente para parar as vendas, enquanto permite que os investigadores preservem fotos e registros enviados para os grupos.

Afinal de contas, uma foto apressadamente postada pode ser o único registro de um objeto saqueado que está à disposição dos policiais ou acadêmicos. A simples exclusão da página destruiria "uma enorme quantidade de evidências" que será necessária para identificar, rastrear e recuperar tesouros saqueados pelos próximos anos.

Argumentos semelhantes foram feitos quando sites, como o YouTube, excluíram vídeos que mostravam atrocidades cometidas durante a guerra na Síria que poderiam ser usadas em processos de crimes de guerra.

O Facebook também tem enfrentado dúvidas sobre seu papel como plataforma para outros tipos de vendas ilícitas, incluindo armas, marfim e muito mais. Em geral, a empresa responde fechando páginas ou grupos em resposta a denúncias de atividades ilegais.

Alguns dos itens ilícitos vendidos sem prova de seu histórico de propriedade, é claro, podem ser falsos. Mas, dado o volume de atividade nos grupos de antiguidades e a abundante evidência de pilhagem em locais famosos, acredita-se que pelo menos alguns deles são genuínos.

A onda de itens atingindo o mercado provavelmente continuará por anos. Alguns traficantes se sustentam por longos períodos em antiguidades saqueadas, esperando que a atenção acabe e às vezes falsificando documentos sobre as origens dos itens antes de oferecê-los à venda.