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Cansados da Apple, 'seguidores' da maçã põem gadgets de outros fabricantes na lista de desejos

Kimihiro Hoshino/AP
Logo da Apple na Califórnia. Resultados da empresa são bons, mas algo mudou para uma parcela dos fãs Imagem: Kimihiro Hoshino/AP

Juliana Carpanez

Do UOL, em São Paulo

2012-11-30T06:01:00

30/11/2012 06h01

Muitos usuários de tecnologia estão #chatiados com a Apple, para usar uma expressão típica da internet. Eles citam a falta de inovação, a melhora dos produtos da concorrência e há também o cansaço com problemas pontuais, como as falhas no sistema operacional iOS 6 (veja as queixas abaixo). Independente do motivo, alguns fanboys (como são chamados esses devotos) deixaram de ver apenas a maçã à sua frente e começaram a olhar para os lados, considerando comprar produtos de outros fabricantes. A situação era impensável para essas mesmas pessoas há cerca de dois anos, quando o iPhone 4 e o iPad 2 apareciam como aparelhos de topo de linha.

Façamos aqui algumas ressalvas. A qualidade dos produtos da Apple não caiu e sua participação de mercado só aumenta – assim como acontece com os principais concorrentes. A empresa também não deixou de vender milhões de gadgets em todo o mundo ou de cobrar por seus eletrônicos preços considerados altos, se comparados a outros produtos da mesma categoria. Mas, para uma parcela dos seguidores da Apple (que, por si só, já são um nicho), alguma coisa mudou. E não estamos falando aqui da morte de Steve Jobs.

“Com os lançamentos dos últimos anos, as pessoas ficaram mal-acostumadas. A expectativa é muito alta em qualquer lançamento da Apple e, por isso, pode acontecer esse descontentamento, que faz o consumidor fiel buscar outras alternativas”, afirma Bruno Freitas, coordenador de pesquisas para dispositivos de consumo da consultoria IDC.  

O especialista diz que atualmente a corrida tecnológica é muito mais rápida, e as empresas adotam com agilidade os avanços feitos por seus concorrentes. Fica mais difícil, portanto, uma única companhia manter-se tão à frente das demais – cenário que teve como protagonistas os iPhones 3GS e 4, entre 2009 e 2010.

“Não acredito em fã incondicional de uma marca para sempre”, constata Ivair Rodrigues, diretor de pesquisa da consultoria IT Data, quando questionado sobre a mudança na atitude de alguns fanboys. Ele afirma que esse comportamento de nicho pode ser parte de um movimento natural do mercado. “As pessoas pesam a questão financeira, comparando as opções disponíveis no mercado. Se outras marcas oferecem um produto parecido por um preço menor, pode haver uma migração.”

Foi justamente essa comparação – impensável alguns modelos de iPhone atrás -- que fizeram os entrevistados abaixo, todos usuários de produtos da Apple. Conheça a história dessas pessoas para quem a companhia de Steve Jobs passou a ser apenas mais uma opção. Procurada pela equipe do UOL Tecnologia, a Apple disse não ter informações relacionadas à reportagem.

  • Arquivo Pessoal

    Alexandre ficou decepcionado com o sistema operacional iOS 6, que hoje roda em seu iPad

Alexandre Luiz Mendes Demétrio, 34, representante comercial
“Me decepcionei ao adquirir um iPad e atualizá-lo para o sistema operacional iOS 6. Inicialmente, a Apple Store parou de funcionar. Depois, percebi que a bateria está durando menos do que antes. Ao verificar os aplicativos, achei o custo de alguns muito elevado quando comparado ao do sistema concorrente. Além do iPad, tenho um smartphone Android e um iPod touch.

Antes, me considerava um grande fã da Apple. A tecnologia parecia ser mais avançada, os aplicativos eram mais caprichados, o design dos aparelhos era futurista. Mas, depois dessas decepções, acredito que o Android está em condições de igualdade com a Apple. A tecnologia avança de forma muito rápida, e a vantagem que a Apple tinha sobre os demais agora é pequena, pontual. Se eu tivesse de comprar um novo smartphone, faria uma boa pesquisa de preços e de fabricantes, pois as funcionalidades estão todas muito parecidas.”

Marcelo Rodrigues Vasconcelos, 34, engenheiro de produção
“Não me cansei da Apple, mas hoje em dia o mercado está disponibilizando ao consumidor produtos com qualidade semelhante e até mesmo superior. Se antes o iPhone imperava incontestavelmente sobre os demais, hoje esbarra em aparelhos que fazem frente às suas facilidades e tecnologias agregadas. A corrida tecnológica nunca esteve tão acirrada e quem ganha com isso é o consumidor, que terá maiores opções de escolha e oportunidades.

Há dois anos, certamente não teria esse pensamento, pois a predominância da Apple era absoluta. Mas, atualmente, vejo essa liderança seriamente ameaçada, mesmo após o último lançamento do iPhone 5. Creio que seja uma sensação generalizada, pois tenho conhecidos, amigos e familiares  que optaram pela compra e migração para celulares concorrentes após conhecê-los.

Troquei recentemente meu iPhone por um Galaxy SIII e, assim como as pessoas já citadas, surpreendi-me com esse modelo. O que determinará o aparelho correto para uma pessoa é seu perfil. Sempre haverá aqueles que preferem o iPhone a qualquer outro modelo, mas outros enxergarão o avanço tecnológico e novidades em aparelhos fantásticos.”

  • Arquivo Pessoal

    César cansou das restrições dos aparelhos da Apple e se diz satisfeito com seu novo Android

César Krentzenstein Borman, 20, analista de TI
“A restrição da Apple com os aparelhos atrapalha, principalmente os usuários que trabalham com TI [tecnologia da informação]. Diversos aplicativos que eram necessários para o meu trabalho com rede eram vetados pela App Store e estavam disponíveis para Android. O jailbreak [desbloqueio] resolve a maioria das questões, mas acaba causando lentidão no celular e consumo extra de energia. Se tenho um smartphone, quero o desempenho máximo do aparelho, e o desbloqueio acaba sacrificando parte disso.

A Apple sempre foi minha primeira opção antes de comprar um produto: foi assim com meu iPod touch e meu iPhone 4. Mas acabei vendendo o smartphone antes do lançamento do iPhone 5 e comprei um Samsung Galaxy S III. Em duas horas consultando aplicativos, resolvi todos os problemas que tinha com a Apple.

A Apple tenta ‘prender’ seu usuário, de um modo que seus aparelhos sejam intuitivos e simples de manusear. E funciona, se o objetivo for esse. Porém, isso não é opcional. A restrição acaba prendendo também o usuário avançado, que quer um smartphone para executar diversas tarefas do dia a dia, além de querer resolver funções mais complicadas e problemas esporádicos.”

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    Emanuel diz que a Apple parou de inovar

Emanuel Benício de Almeida Cajueiro, 28, doutorando em Engenharia Industrial
"Abri meus olhos a partir do momento em que a Apple parou de evoluir, lançando produtos similares aos da versão anterior -- inclusive com mesmo design, mas que possuíam apenas uma ligeira melhoria em hardware e software. A Apple parou de inovar e, por isso, o  iPhone 5 e  o novo iPad possuem basicamente o mesmo design das versões anteriores. Percebi que existem inúmeras empresas que fabricam produtos de excelente qualidade, com muita inovação e por um valor mais justo.

Os fanboys da Apple estão cansados disso [falta de inovação] e não aceitarão ser enganados por muito tempo. Troquei meu iPhone pelo Samsung Galaxy SIII e optei por comprar o tablet Galaxy Note 10.1 em vez de um iPad. Muitos dos meus amigos que usavam iPhone, ou que perceberam não ser possível fazer algo usando o iPad, também optaram pela concorrência.

Destaco a falta de criatividade da empresa para desenvolver soluções inteligentes, que deveriam integrar software e hardware de modo a facilitar a vida do usuário. Isso sem a necessidade de gastos adicionais na aquisição de acessórios ou aplicativos.

Uso meu smartphone, por exemplo, para gravar minhas aulas em alta definição e assisti-las na TV sem a necessidade de fios. Gosto de plugar o smartphone e o tablet no computador e transferir arquivos de um para o outro, sem precisar de softwares adicionais. Em determinadas ocasiões, carrego mais de um cartão de memória para poder trocá-los rapidamente sem deixar de registrar nenhum momento. Com o iPhone, nada disso seria possível. Os aparelhos eletrônicos foram feitos para nos servir, não o contrário.”

  • Arquivo Pessoal

    Whinston comprou seu primeiro iPhone em 2007; hoje ele usa mais seus aparelhos com Android

Whinston Alessandro Goldone Saura Rodrigues, 33 anos, micro-empresário de TI e criador do blog Gordo Geek
“Eu gostava muito da Apple, mas meu amor maior era por tecnologia e inovação. Por um período, a Apple foi sinônimo disso e, na minha opinião, vem se preocupando mais com o business [negócios] do que com a tecnologia. Nem de longe ela está errada: como empresa, ela tem que gerar o máximo de lucro possível a seus acionistas e isso vem dando um resultado extremamente positivo. Mas, como fã de tecnologia, fico decepcionado com a empresa, suas limitações técnicas e falta de liberdades.

Uso Apple desde 2007, quando comprei o primeiro iPhone. De lá pra cá, comprei todos os lançamentos da empresa na linha iPhone e iPad. Tenho computadores desktop e notebook da empresa, além de iPods, Apple TV, roteadores sem fio da marca, etc. Além disso, encarei uma madrugada na fila de lançamento do iPad na Apple Store da 5ª avenida, em Nova York. Já visitei a sede da empresa em Cupertino (foto) algumas vezes, onde tem uma loja onde se pode comprar produtos exclusivos, como camisetas, canecas, canetas, etc.

Há cerca de um ano, comprei um smartphone Android para conhecer, bem como uma tablet. De uns seis meses pra cá, uso os aparelhos com Android mais do que com os aparelhos da Apple, que ainda mantenho para poder testar funções e aplicativos para o blog.

Parece que ela foi conquistando novos fãs e perdendo alguns antigos. Acredito que a Apple não vai deixar de ser a principal empresa de tecnologia a curto e médio prazo: ela apenas mudou o foco, de geeks [fãs de tecnologia], para pessoas comuns. Isso frustrou os clientes mais geeks como eu.”

Você concorda com esses consumidores? Discorda? Deixe seu comentário abaixo. 

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