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Um lar, o melhor tratamento para os sem-teto com problemas psicológicos na Califórnia

18/03/2019 18h53

Los Angeles, 18 Mar 2019 (AFP) - Rocky teve muita dificuldade em assimilar que era uma sem-teto, quando, há três anos, se viu pela primeira vez na rua, morta de medo, sem um centavo e se sentindo rejeitada pelo resto do mundo.

Imediatamente caiu em uma grave depressão, um transtorno mental muito comum entre as pessoas que vivem nesta situação traumática, e tirando energia de onde pôde montou sua barraca em um parque do condado de Los Angeles, que registra o maior número de pessoas sem-teto nos Estados Unidos.

São quase 53.000, das quais pouco mais de um quarto (12.748) sofrem de alguma doença mental, desde esquizofrenia, bipolaridade ou psicose até uma depressão severa como a de Rocky.

"Não está sendo fácil, nunca antes fui sem-teto", disse Rocky, de 59 anos.

Rocky, o nome que adotou na rua, se deita com uma lanterna que acende diante de qualquer barulho, e disse que tem uma arma de fogo, em uma tentativa de espantar qualquer intenção de roubá-la ou atacá-la durante a noite.

"Viver nas ruas é uma situação de muito estresse que pode exacerbar uma condição mental ou os sintomas de uma doença", disse à AFP Benjamin Henwood, trabalhador clínico social e pesquisador da Universidade do Sul da Califórnia (USC).

A Califórnia é a quinta economia do mundo, mas tem o índice de pobreza mais alto dos Estados Unidos quando se leva em conta o custo de vida.

Não há um canto de Los Angeles que não tenha comunidades de mendigos. Desde a turística Calçada da Fama até o centro da cidade, passando por praças, parques e autopistas.

Muitos costumam gritar ou falar sozinhos, o que, segundo especialistas, pode ser sintoma de alguma doença mental ou efeito de drogas pesadas, como metanfetaminas, que os fazem alucinar e ter esse comportamento errático.

- "Energia para sobreviver" -Especialistas coincidem em que o primeiro passo para tratar um doente mental em situação de rua envolve que tenha um lugar fixo para viver.

"O acesso a uma moradia deve ser a base da recuperação e não a conclusão", destacou Tod Lipka, diretor executivo da Step Up, uma ONG especializada em buscar um lar para mendigos com transtornos mentais. "É quase impossível se recuperar se você usa toda a sua energia para sobreviver".

Outras organizações como a LA Family Housing, que atende a área onde vive Rocky, também se encarregam de buscar apartamentos para pessoas sem teto nesta região, com um custo de vida altíssimo.

"Necessitamos construir mais casas permanentes para uso social, e precisamos delas agora", disse Eric Montoya, o coordenador da LA Family Housing encarregado do caso de Rocky. "Quanto mais tempo os deixarmos na rua, será mais difícil fazer a transição para a moradia".

Tanto o condado como a cidade de Los Angeles aprovaram medidas para acessar bilhões de dólares para construir moradias sociais, que até agora não foram concluídas, e melhorar os serviços de um sistema hoje sobrecarregado.

Rocky teve aprovada uma moradia há seis meses através de outra ONG, que também lhe conseguiu um terapeuta.

"Estava muito deprimida, querendo voltar a consumir drogas, sentia que havia chegado no fundo do poço", conta Rocky, que está sóbria há 30 anos.

Ela sonha com um futuro onde tenha acesso às coisas básicas que perdeu.

"Quero poder trancar a porta, ter água corrente e quente. (...) E enfim me sentirei segura e a salvo quando for dormir", diz.

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