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Foto de imigrante e filha mortos gera críticas contra Trump

Corpo do migrante salvadorenho Óscar Martínez Ramírez e sua filha foram encontrados no Rio Bravo em Matamoros, estado de Tamaulipas, fronteira entre México e Estados Unidos - Reuters
Corpo do migrante salvadorenho Óscar Martínez Ramírez e sua filha foram encontrados no Rio Bravo em Matamoros, estado de Tamaulipas, fronteira entre México e Estados Unidos Imagem: Reuters

26/06/2019 17h29

Uma fotografia comovente dos corpos sem vida de um salvadorenho e sua filha de menos de dois anos nas margens do Rio Bravo, onde se afogaram quando tentavam atravessar a fronteira entre os Estados Unidos e o México, desencadeou uma forte onda de críticas nesta quarta-feira (26) contra a política anti-imigração do presidente americano, Donald Trump.

"Trump é responsável por essas mortes", disse Beto O'Rourke, ex-congressista pelo estado de Texas pré-candidato do Partido Democrata para as eleições presidenciais de 2020.

"Quando sua administração se recusa a cumprir nossas leis - impedindo que os refugiados se apresentem para solicitar asilo em nossos pontos de entrada - faz com que as famílias atravessem entre os portos, o que gera mais sofrimento e morte",escreveu O'Rourke no Twitter.

Segundo o jornal mexicano La Jornada, os cadáveres da foto são de um solicitante de asilo salvadorenho, Óscar Alberto Martínez Ramírez, de 26 anos, e Valeria, sua filha de 1 ano e 11 meses.

Pai e filha se afogaram no domingo quando tentavam cruzar do México para o Texas através do rio Grande, informou o jornal.

"Eu a odeio"

Trump disse nesta quarta-feira que odiou ver a imagem dos imigrantes mortos, mas acrescentou que a oposição democrata era responsável por esta tragédia.

"Eu a odeio", disse o presidente sobre a foto. "O pai... Provavelmente era um cara fantástico", acrescentou, insistindo em que a oposição democrata é responsável pela morte de migrantes ilegais devido a sua recusa em apoiar sua política de imigração.

"Se tivéssemos as leis certas, que os democratas não nos permitem ter, essas pessoas não apareceriam, não tentariam (cruzar a fronteira)", concluiu

Para muitos, a imagem lembra uma foto de 2015 do corpo de um menino numa praia da Turquia, após morrer afogado no mar Mediterrâneo numa tentativa de chegar à Grécia.

"Estas famílias que procuram asilo muitas vezes fogem da violência extrema", denunciou a senadora pelo estado da Califórnia Kamala Harris, também pré-candidata democrata à presidência.

"E o que acontece quando eles chegam?", perguntou Harris no Twitter. "Trump diz 'voltem para onde vieram'. Isso é desumano. As crianças estão morrendo. Isto é uma mancha na nossa consciência moral", continuou.

Bernie Sanders, outro pré-candidato democrata na corrida presidencial, descreveu a imagem como "horrível".

"É apenas um exemplo doloroso de tantos outros que demonstram o desprezo imprudente pela humanidade que vem das políticas de Trump", disse Sanders.

Rashida Tlaib, democrata da Câmara de Representantes por Michigan e defensora da abertura de julgamento político contra Trump, também usou palavras duras contra o presidente e sua política linha dura com a imigração.

"Este monstro e sua administração sem alma tem que prestar contas", escreveu Tlaib no Twitter.

O jornal The New York Times publicou a foto na capa e dedicou um editorial a ela.

"Os Estados Unidos necessitam de uma política de imigração que combine segurança na fronteira, justiça e humanidade", defendeu o jornal.

"Ninguém com consciência pode olhar para a foto de um requerente de asilo e sua filha de 23 meses mortos às margens do rio Grande e aceitar o status quo", completou.

Papa triste pelas mortes

Entre os que lamentaram a foto estava o papa Francisco.

"O papa está profundamente triste pelas mortes, e reza por eles e por todos os migrantes que perderam suas vidas enquanto fogem da guerra e da miséria", disse Alessandro Gisotti, porta-voz del Vaticano.

Joaquin Castro, membro democrata da Câmara de Representantes pelo Texas, comparou a foto com a menino sírio morto na praia da Turquia.

"É muito difícil ver essa fotografia", declarou Castro ao The New York Times. "É a nossa versão da fotografia síria (...) É isso o que significa".

O senador democrata por Nova York, Chuck Schummer, mostrou a foto nesta quarta durante um discurso no Senado.

"Como pode o presidente Trump ver esta imagem e não entender que se trata de seres humanos que fogem da violência e da perseguição?", perguntou.

"Podemos fazer algo sobre isso se o presidente parar de jogar o jogo político da culpa, a culpa, a culpa", disse.

A foto foi divulgada em meio a denúncias pelas condições como os Estados Unidos mantem as crianças imigrantes detidas após uma visita de um grupo de advogados e médicos a um centro da Patrulha da Fronteira em Clint, Texas.

"As crianças em Clint nos disseram que não têm acesso regular a chuveiros ou roupas limpas, alguns dizem que não foram autorizados a tomar banho durante semanas e que não têm acesso regular ao sabão", disse Clara Long, investigadora da ONG Human Rights Watch que acompanhou a equipe.

Na segunda-feira, as autoridades levaram de Clint para outros centros cerca de 250 crianças, mas um funcionário de Alfândega e Proteção de Fronteiras informou na terça-feira que cerca de 100 já estavam lá novamente.

Perguntado na terça-feira sobre as condições nos centros de detenção, Trump afirmou que estava "muito preocupado".

Os oficiais da Patrulha de Fronteira dizem que estão sobrecarregados pelo número de migrantes que querem entrar nos Estados Unidos.

A chegada de ilegais na fronteira sul dos Estados Unidos aumentou nos últimos meses. Apenas em maio foram registradas 144 mil detenções.

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