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Uma a cada três crianças sofre de desnutrição ou sobrepeso no planeta

Getty Images
Imagem: Getty Images

Em Paris

15/10/2019 08h44

Uma a cada três crianças com menos de cinco anos está desnutrida ou sofre de sobrepeso no mundo, o que pode acarretar problemas de saúde durante toda a vida, adverte um relatório do UNICEF publicado hoje.

Ao menos 227 milhões de crianças estão afetadas por estes problemas alimentares, das 676 milhões que habitavam o planeta em 2018, calcula o Fundo da ONU para a Infância (UNICEF), no maior relatório sobre o assunto dos últimos 20 anos.

O relatório revela ainda que 340 milhões de crianças sofrem de carências alimentares.

A globalização dos hábitos alimentares, a persistência da pobreza e a mudança climática estão fazendo com que um número crescente de países acumule esta "tripla carga" de desnutrição, sobrepeso e carências, destaca o relatório.

"Muitos países na América Latina, leste da Ásia e do Pacífico acreditavam ter relegado a desnutrição ao passado, mas agora descobriram que têm um problema novo muito importante", disse à AFP Victor Aguayo, chefe do programa de nutrição da agência.

Aguayo citou como exemplo o México, onde "ainda há uma grande proporção de crianças desnutridas e, ao mesmo tempo, uma grande pandemia de sobrepeso e obesidade infantil, considerada uma emergência nacional pelo governo".

"A maneira como entendemos e reagimos à desnutrição precisa mudar: não se trata apenas de dar às crianças comida suficiente. Antes de tudo, é preciso lhes dar uma boa alimentação", destacou Henrietta Fore, diretora do UNICEF, em um comunicado que acompanha o relatório.

A desnutrição segue sendo o principal problema, ao afetar as crianças quatro vezes mais que o sobrepeso.

O número de crianças que não recebe suficiente comida para suas necessidades nutricionais retrocedeu 40% entre 1990 e 2005, mas prevalece como um grande problema em muitos países, especialmente na África subsaariana e no sul da Ásia.

"Fome escondida"

No total, 149 milhões de crianças no planeta têm atraso no crescimento devido à desnutrição crônica e 50 milhões são magros em relação à sua estatura, devido à desnutrição aguda ou a um problema de absorção de nutrientes.

O UNICEF assinala que cerca de 340 milhões de crianças sofrem de uma "fome escondida", recebendo o número de calorias suficientes mas não o de minerais e vitaminas indispensáveis para seu desenvolvimento, como ferro, iodo, vitamina A e C, devido principalmente à falta de frutas, verduras e produtos de origem animal.

Estas carências podem ter consequências físicas e intelectuais severas (sistema imunológico deficiente, problemas de vista ou de audição).

Este fenômeno começa muito cedo, com uma amamentação insuficiente e uma diversificação alimentar baseada em produtos impróprios, e se agrava com a "crescente acessibilidade a alimentos ricos em calorias mas pobres em nutrientes", como o macarrão instantâneo.

Obesidade nos países pobres

Paralelamente, o sobrepeso e a obesidade se desenvolvem rapidamente, com 40 milhões de crianças pequenas afetadas, inclusive nos países pobres.

Enquanto este problema era praticamente inexistente nos países com baixa renda em 1990 (3% deles tinham mais de 10% de crianças com sobrepeso), agora três quartos destes Estados enfrentam esta questão.

"Antes se acreditava que (...) o sobrepeso e a obesidade eram a má nutrição dos ricos, mas agora já não é o caso"; segundo Aguayo, médico especialista em saúde pública.

"As diferentes formas de má nutrição coexistem cada vez mais em um mesmo país (...) e até em um mesmo lar", com a mãe com sobrepeso e o filho desnutrido, por exemplo.

Também pode ocorrer com um "mesmo indivíduo, ao longo de diferentes idades", já que a má nutrição infantil é um fator de risco de sobrepeso e obesidade na idade adulta.

Esta situação está estreitamente relacionada à pobreza: afeta mais os países pobres e as populações em situação precária nos países ricos, destaca o relatório.

Diante desta situação, o UNICEF convoca os governos a promover os alimentos necessários para uma dieta equilibrada e a agir para que seja acessível economicamente.

Também defende a regulamentação da publicidade do leite infantil em pó e dos refrigerantes, assim como a aplicação de etiquetas com informação nutricional nos alimentos "facilmente compreensíveis", para ajudar os consumidores a escolher produtos mais saudáveis.

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