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1 mês

Refugiados de Lesbos esperam que o papa 'leve sua voz para o mundo'

04/12/2021 16h08

Mitilene, Grécia, 4 dez 2021 (AFP) - Cerca de vinte refugiados receberam uma autorização excepcional para deixar o campo de Mavrovouni neste sábado(4) e aguardar na varanda da única igreja católica de Lesbos pela chegada do papa Francisco, que desembarcará na ilha no domingo.

Christian Tango, congolês de 31 anos, "espera que o papa leve a voz" dos refugiados "a todo o mundo", disse à AFP pouco antes de entrar na capela de Nossa Senhora da Assunção, construída em 1843 por monges franciscanos franceses.

Como seus companheiros de campo, Tango só pode sair uma vez por semana, mas no domingo ele espera poder falar com o papa.

"O papa conhece muito bem a realidade dos refugiados, melhor do que os políticos e líderes europeus", disse este migrante, que perdeu sua esposa e uma filha de 8 anos durante a perigosa jornada que os levou para a Grécia.

Para a visita do papa a Lesbos, a segunda em cinco anos, as autoridades enviaram 850 policiais para a ilha, restringiram o acesso ao campo (inclusive para jornalistas) e substituíram 93 barracas por contêineres equipados com eletricidade.

Na ilha grega, ponto emblemático da crise migratória de 2015, os refugiados católicos estão eufóricos.

"Amanhã será o dia mais bonito da minha vida, não pensei que um dia teria a oportunidade de ver o papa com os meus próprios olhos", explica Berthe N'Goyo, que será uma das dez pessoas escolhidas para cantar para o papa.

- "Mais humanidade" -Em Atenas, neste sábado, o pontífice criticou "a comunidade europeia dilacerada pelo egoísmo nacionalista".

"Espero que o papa leve a nossa voz a todo o mundo e, especificamente, aos países europeus que devem acolher os refugiados com mais humanidade", afirma Christian Tango.

Enice Kiaku, que está em Lesbos há dois anos, quer que o papa a leve consigo.

"As condições são muito difíceis no campo, estou sozinha com os meus filhos", lamenta esta congolesa que "perdeu a esperança de ver" sua situação melhorar.

Durante sua visita anterior a Lesbos, em abril de 2016, Francisco voltou ao Vaticano com doze refugiados sírios.

- "Crise sistêmica" -As chegadas de migrantes às ilhas gregas têm diminuído ao longo dos anos, de 173.450 em 2016 para 3.653 em 2021, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

O campo saturado e insalubre de Moria, o maior da Europa, pegou fogo em setembro de 2020 e foi substituído por uma estrutura construída rapidamente em um antigo campo de tiro do exército grego.

Durante sua visita ao novo campo, "o papa vai encontrar uma situação diferente da de 2016", explica Clotilde Scolamierto, chefe de missão da ONG Intersos.

"Não estamos mais no mesmo estado de emergência, mas enfrentando uma crise sistêmica perpétua, na qual os refugiados continuam precisando de ajuda (...) trancados em campos bem guardados", explica.

Sua organização, junto com outras 35, enviou uma carta ao papa para denunciar a instalação de campos de "acesso fechado e controlado", como os das ilhas de Samos, Leros e Kos.

Eles também pedem ao papa que intervenha para impedir as supostas expulsões de migrantes para a Turquia.

Clotilde Scolamiero viu "uma degradação da saúde mental dos moradores do acampamento".

"A maioria deles vê o asilo ser negado e entra em depressão porque estão literalmente bloqueados na ilha sem saber que futuro os espera", diz.

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