Programa tenta aproximação com usuários de crack em 6 pontos de São Paulo

Daniel Mello

Da Agência Brasil, em São Paulo

  • Marcello Casals Jr/Agência Brasil

Gabriele Costa vive há seis anos em meio aos usuários de crack em uma área próxima à Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), zona oeste paulistana. Apesar do tempo que está envolvida com a droga, ela chega a deixar o vício de lado para jogar vôlei. "Quando tem essas brincadeiras até esqueço de fumar pedra", disse. As atividades esportivas fazem parte das ações de redução de danos implementadas desde a chegada de um trailer da prefeitura no local.

Ao todo foram distribuídos no final de outubro de 2015 seis equipamentos semelhantes pela cidade com o intuito de levar o atendimento aos usuários de droga para além da área na região central, que ficou conhecida como Cracolândia. São pontos que, mesmo tendo menor concentração de grupos que fumam crack do que na região da Luz, necessitam, na avaliação da prefeitura de uma intervenção específica do poder público. A permanência das equipes de assistência social e saúde nesses locais visa ajudar na formação de vínculos e facilitar as abordagens.

A SMADS (Secretaria Municipal de Assistência de Desenvolvimento Social) identificou que a maioria dos atendidos nesses locais já havia sido encaminhada sem sucesso aos serviços públicos. Segundo o órgão, os resultados tem sido melhores com a metodologia da aproximação gradual. "O atendimento mais próximo do usuário durante todo o dia feito pelos orientadores do SEAS [Serviço Especializado de Abordagem Social] tem possibilitado uma adesão maior nos serviços/encaminhamentos ofertados", ressaltou a secretaria em resposta aos questionamentos da Agência Brasil.

Documentação e atividades lúdicas

Sem nenhuma mancha ou amassado, a certidão de nascimento de Stefani Nazari confirmava que a jovem havia nascido em 1994, mesmo que a falta de alguns dentes lhe desse uma aparência envelhecida. "Falta só o meu RG [carteira de identidade] e a carteira de trabalho", disse exibindo o documento que havia acabado de receber. Stefani gosta de passar o tempo jogando damas e dominó nas mesas de plástico colocadas em frente ao trailer instalado na região do Ceagesp. "Passo o dia inteiro com eles", enfatizou.

Em meio a uma das partidas de dominó, um conhecido de Stefani parou para mostrar uma pedra de crack recém-adquirida. Ela olhou sem interesse e continuou o jogo. Grávida, ela nega que seja usuária de drogas, assim como diz que não largou os estudos, mesmo tendo concluído apenas o ensino fundamental. "Meu único vício é o cigarro", diz com convicção. Sobre o serviço de assistência social, fala com empolgação. "Eles são as pessoas que te dão atenção de verdade", comenta.

A amiga, Gabriele, compartilha da opinião. "São bem educados. Sentam do lado da gente, não estão nem aí se a gente está sujo. Não ficam de frescura", ressalta. Sobre as atividades, que incluem até um sarau uma vez por semana, Gabriele também elogia. "É gostoso, a gente se distrai".

O equipamento contemplou as demandas dos moradores reunidos no Fórum Social da Vila Leopoldina. "É preciso adequar o desenvolvimento do bairro a essa vulnerabilidade do território", destaca a coordenadora do fórum, Alexandra Swerts. Em parceria com os agentes municipais de saúde, a organização de moradores mapeou cerca de 400 moradores de rua no bairro, sendo 100 usuários crônicos de drogas e álcool.

O grupo espera os resultados do trabalho. "Está numa fase inicial de criação de vínculos nas abordagens", disse Alexandra. O fórum tem, segundo ela, se esforçado para que as ações de saúde e assistência social sejam integradas com o trabalho da GCM (Guarda Civil Metropolitana). "A gente fez melhorar a abordagem da GCM para não perder o trabalho [social]".

Peculiaridades regionais

As ações segundo a Secretaria Municipal de Assistência de Desenvolvimento Social, são adaptadas às especificidades de cada região. Na Cidade Tiradentes, extremo leste da capital, o órgão identificou que a maior parte dos usuários são moradores da região não aceitos pelas famílias. Em M'Boi Mirim, na zona sul, os grupos fumam crack dentro de um cemitério.

Em Santana, na zona norte, à luz do dia não há nenhuma concentração de usuários visível. "De vez em quando a gente vê alguns usuários, mas não é que nem essas cracolândias por aí", ressalta Nevas Amaral, que é dono de uma loja de artigos religiosos próxima a onde foi instalado o trailer.

Naquela manhã, o zelador Vinicius de Assis procurou o equipamento na expectativa de conseguir um encaminhamento para o Centro de Atenção Psicossocial para se tratar do alcoolismo. "Já morei debaixo de viaduto", conta o rapaz, que tem 36 anos e bebe desde os 16. Com dificuldades para raciocinar devido a embriaguez, ele puxa um cordão com um molho de chaves amarrado ao pescoço para comprovar que trabalha cuidando de uma pensão.

Mais falante, o amigo com quem dividia uma garrafa de cachaça, Edgar Loss, diz que vem ao local principalmente para bater papo. "Venho conversar com eles, porque não tenho ninguém com quem conversar", diz o homem que vive há dez anos nas ruas. "Escreve que estou precisando de um emprego", diz para o repórter após contar que passou vários anos preso. Diz que já trabalhou como azulejista e mora há pouco mais de dois meses na praça onde está instalado o atendimento da prefeitura. "No albergue não fico: É muita briga, muito crack", justifica.

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