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PF apura relação entre caças e filho de Lula

Luis Claudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula - UOL
Luis Claudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula Imagem: UOL

Em Brasília

23/01/2016 07h49

A Polícia Federal suspeita que os pagamentos a Luís Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula, estejam relacionados à suposta compra de medidas provisórias investigada pela Operação Zelotes, e também ao negócio dos caças suecos Gripen, da Saab, conduzido pela Força Aérea Brasileira e fechado pelo governo federal na primeira gestão Dilma Rousseff.

Em depoimento à Polícia Federal no inquérito que apura a suposta compra de MPs no governo federal, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou que tivesse ocorrido eventual "combinação" com empresários para viabilizar normas de interesse de montadoras de veículos em sua gestão. Disse ainda que, se tivesse ocorrido, isso seria "coisa de bandido".

Em dez páginas de declarações aos investigadores da Operação Zelotes, antecipadas ontem pelo estadão.com, o petista afirmou que não foi avisado pelo filho, o empresário Luís Cláudio Lula da Silva, de que ele havia sido contratado por R$ 2,5 milhões por um dos lobistas acusados de operar esquema de lobby e corrupção para favorecer o setor automobilístico.

No mesmo termo, a PF indicou que há suspeitas de que os repasses a Luís Cláudio podem também estar relacionados à compra de caças pela Aeronáutica.

Lula depôs à PF no dia 6 de janeiro, em Brasília, como informante, em inquérito que apura suspeitas de que os pagamentos a Luís Cláudio têm relação com a edição das MPs.

Os valores foram repassados entre 2014 e 2015 à LFT Marketing Esportivo, que pertence ao empresário, pela Marcondes e Mautoni Empreendimentos, que tem como sócios os lobistas de montadoras Mauro Marcondes Machado e sua mulher, Cristina Mautoni. Os dois estão presos.

Embora tenha afirmado que conhece o lobista desde a década de 1970, Lula contou que não houve "qualquer contato" do filho "quando da contratação" feita pela consultoria dele.

O ex-presidente sustentou que não tem qualquer tipo de relacionamento financeiro com a LFT e que nunca indicou ou foi demandado a indicar "potenciais clientes ao seu filho". Acrescentou ainda não saber dizer quando Mauro Marcondes e sua mulher conheceram Luís Cláudio.

Bandido

O ex-presidente foi questionado pela PF sobre arquivo encontrado no computador da empresa de Marcondes, no qual estavam registradas as seguintes informações sobre a MP 512/2010, sob suspeita de ter sido comprada.

"O declarante diz que "combinação", nesse sentido pejorativo, é ‘coisa de bandido’ e que não ocorreu", conforme trecho do depoimento à PF. O ex-presidente disse ter se reunido algumas vezes com o ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que levou o dirigente da Fiat na América Latina Cledorvino Belini.

Disse que foram esclarecidos os benefícios da instalação da fábrica da montadora em Pernambuco e, a partir daí, as discussões transcorreram em setores técnicos dos ministérios.

O ex-presidente assegurou que "nunca" recebeu "qualquer tipo de proposta indevida ou vantagem financeira para que propusesse alguma medida provisória e que ninguém teria coragem de lhe fazer uma proposta dessas".

Ele "fez questão de registrar", conforme transcrição da PF, que não recebia lobistas e que "tanto ele quanto seus parentes jamais exerceram lobby ou consultoria empresarial".

Sobre as conferências que faz no Brasil e no exterior, muitas pagas por empresas, alegou que são sempre em defesa do interesse nacional, e que tomou como "decisão de honra" não interferir na gestão do novo governo.

Caças

A PF suspeita de que os pagamentos ao filho do ex-presidente tenham relação não só com a edição das normas, mas também com a compra dos caças suecos Gripen, da Saab, pela Força Aérea Brasileira (FAB).

Questionado sobre se os repasses a Luís Cláudio Lula da Silva foram "alguma contraprestação por serviços prestados" pelo ex-presidente "à Saab para que essa viesse a vencer a concorrência para a compra dos caças", Lula respondeu que "nega veementemente e considera essa hipótese um absurdo, já que nunca teve atuação relacionada a esse assunto".

O delegado Marlon Cajado também quis saber se os valores pagos a Luís Cláudio seriam "em decorrência da elaboração de medidas provisórias por ele, enquanto presidente, ou para influenciar em ‘vetos’ ou ‘não vetos’ a emendas em medidas provisórias".

Lula afirmou que considera essa hipótese "outro absurdo, uma vez que as medidas provisórias seguiram todo o trâmite regular dentro do poder Executivo e foram aprovadas pelas duas casas do Congresso Nacional".

O lobista Mauro Marcondes também foi representante do grupo que controla a Saab. Documentos apreendidos pela PF, revelados pelo Estado, indicam que ele fez gestões junto ao governo federal pela compra dos caças.

Lula foi questionado sobre documentos apreendidos na Marcondes e Mautoni que faziam menção a tratativas com o ex-presidente e o Instituto Lula para favorecer a Saab.

Um deles citava uma "solicitação da empresa sueca para que o ex-presidente levasse seu apoio à contratação da Saab para a presidente Dilma". O ex-presidente disse que "nunca recebeu ou levou esse assunto ao conhecimento da presidente". E ressaltou que "nunca discutiu com Dilma" sobre a contratação dos jatos para a Aeronáutica.

Depoimento

O ex-presidente prestaria novo depoimento à Zelotes na segunda-feira, desta vez como testemunha arrolada por um dos réus do caso das MPs, o lobista Alexandre Paes dos Santos, o APS. Mas conseguiu ser dispensado ontem, após sua defesa apresentar uma petição ao juiz da 10ª Vara Federal em Brasília, Vallisney de Souza Oliveira.

Na peça, seus advogados argumentaram que o ex-presidente já havia prestado depoimento sobre o caso à PF, não tendo nada mais a acrescentar sobre o assunto. O advogado de APS foi consultado e aceitou cancelar a audiência com Lula, o que foi deferido pelo magistrado.

"Referido depoimento responde de maneira clara a questionamentos feitos pela autoridade policial", justificou a defesa de APS.

Nessa sexta, 22, a Justiça Federal começaria a ouvir 98 testemunhas de defesa do caso, mas a sessão foi adiada porque um dos 15 réus não havia sido intimado. Por lei, é necessário convocar todos a participar. Ninguém foi ouvido, mas houve bate-boca entre integrantes da defesa e da acusação. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.