A cena musical erótica por trás de picada mortal de cobra na Indonésia

No mês passado, uma cantora indonésia morreu após ser picada por uma cobra-real que usava em sua performance – notícia que correu o mundo. A repórter da BBC Rebecca Henschke viajou para o vilarejo da cantora, Java Ocidental, para entender o mundo cada vez mais erótico da música dangdut e a pressão sobre as cantoras para que elas se sobressaiam em meio à multidão:

Em um banco de bambu fora de sua casa em Karawang, Encum lembra de quando viu sua filha, Irma Bule, se apresentando.

"Foi vergonhoso vê-la no palco dançando daquele jeito", conta.

Ela sabia que a filha era cantora de dangdut, mas não tinha noção de que suas performances envolviam cobras.

Vídeos chocantes exibidos em todo o mundo no ano passado mostram Irma acidentalmente pisando em uma cobra-real enquanto dança.

Em seguida, as imagens mostram o animal subindo em sua perna. Pessoas puxam a cobra, e a cantora continua a se apresentar por mais 45 minutos.

Irma só foi retirada do palco quando começou a vomitar. Quando Encum chegou ao hospital, a filha já estava morta.

"Sempre quis que ela virasse professora, mas ela sempre quis cantar. Ninguém a forçou – estava fazendo o que gostava", diz a mãe, enquanto seca as lágrimas com seu lenço de cabeça.

"Sinto muita falta dela. Ela era uma boa mãe, boa mulher, boa filha."

Ela quer saber por que ninguém levou sua filha para o hospital imediatamente após a picada.

Indústria milionária

O dangdut combina influências de músicas indianas, árabes e malaias em uma dança acelerada, e é muito popular na Indonésia há décadas. As cantoras são conhecidas pela dança sensual que agregam a suas performances.

Irma se apresentava com cobras havia oito anos e com cobras-reais havia dois.

"A cobra a matou, mas ela não subiu no palco sozinha", diz seu tio Maman, que esteve na delegacia acompanhando o caso.

"Alguém deu as cobras para ela e disseram que eram seguras. Seja por negligência ou se foi planejado, ela morreu."

A polícia está investigando o que aconteceu. Diversas pessoas foram interrogadas, mas ninguém foi indiciado.

Os organizadores do evento negaram irregularidades. Eles disseram à BBC que apenas contrataram os músicos e o fornecedor das cobras, que foi questionado pelos policiais. A reportagem não conseguiu localizá-lo.

Dançando por gorjetas

Muitas estrelas do dangdut começaram suas carreiras em vilarejos de plantações de arroz como Karawang, onde Nani Sanjaya está se apresentando em um casamento, ou seja, para um público de diversas idades.

À medida que a noite cai, ela e outras cantoras trocam o figurino: é hora de usar trajes mais ousados.

Homens sobrem ao palco para dançar com elas. Colocam dinheiro nas mãos, cabelo e roupas das artistas enquanto elas se movem ao redor deles.

As cantoras ganham um cachê por meio de seus agentes, mas a maior parte de sua renda vem dessas gorjetas.

Nani, que era amiga de Irma, diz que as cantoras ganham "mais dinheiro e gorjetas caso se apresentem com cobras, se são as estrelas do show".

"Há pressão para agradar e se destacar, todos sonhamos em virar estrelas", diz ela.

'Não éramos nada'

Dangdut é uma indústria multimilionária. Para aqueles que conseguem crescer, é possível ter uma carreira na TV.

Em um estúdio da TV nacional na capital, Jacarta, a mais nova sensação, o Duo Serigala, se apresenta com algumas das maiores estrelas do gênero.

A dupla, Pamela e Ovi, conseguiu se destacar com uma dança sensual que ficou conhecida como "dança do drible", além de uma conta sexy no Instagram.

"Foi um longo caminho, trabalhamos duro para chegar até aqui, começamos do zero", diz Pamela Safitri. "Não éramos ninguém. Infelizmente, nossas famílias eram muito pobres, mas agora, devagar, o dinheiro que estamos ganhando por cantar dá para ajudá-los."

As duas ficaram chocadas com a morte de Irma Bule e dizem que se solidarizam com a história.

"Irma Bule estava fazendo a mesma coisa que a gente fazia, trabalhando duro como nós trabalhamos para entreter as pessoas", diz Ovi Sovianti. "Ela usava cobras para melhorar seus shows. Sentimos muito por sua família."

Rei do Dangdut

Rhoma Iramaé o rei indiscutível do Dangdut desde os anos 1970.

Mas o cantor e político – ele agora tem seu próprio partido, não oficial – é claro sobre seu desgosto pelo que vê como uma crescente onda de performances eróticas das cantoras mulheres.

"Uma dança educada, e não erótica – esse é o verdadeiro dangdut", diz ele em Jacarta.

Mas apesar da oposição de alguns grupos conservadores muçulmanos, Iramaé afirma que não há nada no Islã que proíba o dangdut.

"O Islã é muito pluralista. O Islã é pacífico. Ame a Indonésia, o dangdut, o mundo", diz, rindo. "O dangdut é a Indonésia, é o espírito da Indonésia."

"As cantoras costumam morrer picadas por cobras?", pergunto.

"É a primeira vez que ouvi falar disso", responde ele. "Cobras não são nem um pouco essenciais para o dangdut. Em todos os meus anos no palco, nunca vi uma cobra."

Ele diz que a comunidade de artistas do dangdut é próxima e que eles têm um fundo para cantores que morrem ou ficam doentes. A família de Irma afirma que recebeu dinheiro do grupo.
 

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