Cidade que se uniu com vitórias ajudará time a se reerguer, diz torcedor

Uma cidade de pouco mais de 200 mil habitantes que ganhou repercussão nacional por causa do sucesso recente de um, até então, discreto clube de futebol.

Chapecó é considerada a capital do Oeste Catarinense e da agroindústria brasileira, mas foi a Chapecoense, time que surgiu há apenas 43 anos, que projetou a região para o país inteiro.

Antes da ascensão da equipe, ocorrida na última década, outros clubes do Sul do país dominavam a preferência dos torcedores da cidade - divididos principalmente entre gremistas e colorados.

Mas a partir de 2009, quando a Chapecoense passou a disputar a Série D, quarta e última divisão do Campeonato Brasileiro, a relação dos moradores da região com o futebol se transformou completamente, contou à BBC Brasil Audrei Piccini, jornalista local e torcedor do time desde criança.

"A cidade respira a Chapecoense hoje em dia. O clube mudou a rotina dos moradores aqui, criou um clima difícil de descrever", diz.

"Antes, a cidade era dividida entre torcedores do Grêmio e do Internacional, até pela proximidade com o Sul e com Porto Alegre. Mas hoje isso não acontece mais, todo mundo virou torcedor da Chapecoense."

Nesta terça-feira, porém, a cidade amanheceu de luto após a tragédia que matou pelo menos 76 pessoas, segundo a Polícia do Departamento (equivalente aos nossos Estados) colombiano de Antióquia, com o avião que seguia para Medellín, onde o clube disputaria uma inédita final da Copa Sul-Americana.

Os moradores, que estavam ansiosos para protagonizar o momento ápice do clube, disputando um título internacional contra o atual campeão da Libertadores, agora estão em choque com a notícia da morte da grande maioria dos 22 jogadores que viajavam, do técnico e de boa parte da diretoria responsável pelo auge do clube nos últimos anos.

"A cidade está sentindo muito tudo isso e vai sentir mais, porque tem uma ligação muito forte com o clube, com os jogadores. A ficha ainda não caiu. Isso vai ser lembrado para o resto da vida", disse Piccini, que acompanhou toda a trajetória de evolução do time desde a disputa da Série D até o acesso à primeira divisão do Campeonato Brasileiro, no fim de 2013, e a disputa da Sul-Americana.

Para o jornalista e torcedor, mais do que tristeza, a tragédia despertará um sentimento de solidariedade.

"Tenho certeza de que a cidade vai dar força para o clube se reconstruir, dar a volta por cima", diz.

"Tem que começar tudo do zero agora, porque todas as pessoas que faziam parte desse trabalho se foram. E o time era importante não só para quem é daqui, mas para a região toda do Oeste Catarinense. Mas as pessoas aqui são muito solidárias e acho que elas vão se unir ao clube para fazê-lo ressurgir nesse momento."

Xodó

Até poucos anos atrás, a Chapecoense nem sequer disputava competições nacionais.

A rotina dos que se atreviam a ser torcedores fiéis do clube se resumia a acompanhar a equipe apenas por quatro meses ou menos no início do ano na disputa do Campeonato Catarinense.

Até havia algumas alegrias ali, como em 2007, quando o time foi campeão estadual pela terceira vez, após 11 anos de jejum.

Mas no restante do ano, a maioria dos fãs de futebol da cidade acompanhava outros times de maior impacto nacional, como o Grêmio e Internacional.

A história começou a mudar em 2009, quando a Chapecoense passou a disputar a Série D e logo foi ascendendo nas competições nacionais - subiu para a Série C (terceira divisão) naquele mesmo ano, depois para a Série B (segunda divisão) e finalmente para a elite do futebol brasileiro, que disputa desde 2014.

"Quando a Chapecoense começou a disputar a Série D, todo mundo começou a cobrar dos gremistas, dos colorados, que não era mais para ir ao estádio com outra camisa, que era para ir com a da Chapecoense. Alterou muito a rotina das pessoas que moram aqui", conta Piccini.

Rodrigo Goulart, jornalista do jornal Diário do Iguaçu, que cobre a Chapecoense há 15 anos, conta que o momento do acesso do time para a Série C foi o grande ponto de virada na relação dos torcedores com o clube - e o momento mais marcante do time, que daí em diante não parou mais de surpreender nas competições nacionais e até internacionais.

"O primeiro acesso nacional foi o momento mais marcante. Em 2009, a primeira edição da Série D, a Chapecoense já na primeira chance subiu para Série C. Naquele jogo do acesso caiu granizo em Chapecó, o estádio estava cheio, ele não era tão grande na época, mas tinha lá 5 mil pessoas torcendo embaixo de granizo", conta.

"O gramado ficou branco, choveu pedra, os torcedores tentavam se proteger do jeito que dava, jogadores foram para o banco de reservas para se proteger. A Chapecoense perdeu de 1 a 0 para o Araguaia do Mato Grosso, mas conseguiu o acesso porque tinha vencido por 2 a 1 fora de casa. Eles esperaram 10 minutos para voltar o jogo por causa do granizo. A comemoração foi no barro, porque continuou chovendo, mas a festa foi enorme."

Daí em diante, foi praticamente "só alegria" para o torcedor da Chapecoense.

Se normalmente clubes de cidades menores costumam penar para permanecer na elite do futebol brasileiro, a equipe de Chapecó não saiu mais da Série A desde o acesso, em 2014.

Em 2015, o time passou a encantar até mesmo torcedores de fora de Santa Catarina ao chegar nas quartas de final da Sul-Americana, quando acabou perdendo para o tradicional River Plate, da Argentina.

Neste ano, voltou a surpreender ao eliminar times tradicionais do continente, como os argentinos Independiente - nos pênaltis, nas oitavas de final -, e o San Lorenzo, campeão da Libertadores em 2014 e conhecido como "time do Papa Francisco", chegando a uma final inédita.

Com esse sucesso recente do clube carinhosamente apelidado de Chape, torcedores do país inteiro "adotaram" a torcida pela equipe na final da Sul-Americana contra o Atlético Nacional, da Colômbia.

Após a tragédia, as manifestações em homenagem ao time vieram de todo o Brasil.

"É bem complicado, porque além do clube, tem a história dos jogadores, da diretoria, todo mundo gosta muito dessa diretoria que trilhou toda essa trajetória de sucesso. Quando você imagina que todo mundo estava lá, todo mundo morreu, é uma situação muito triste. A gente foca no trabalho, na cobertura, não se dá conta do que está acontecendo", contou Piccini.

"O clube transformou a rotina da cidade. Teve um impacto enorme para todo mundo e agora será preciso ajudar a reerguer essa história."

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