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Imunidade e coronavírus: é possível pegar covid-19 mais de uma vez? Esta e outras questões ainda sem resposta

James Gallagher - BBC News

29/04/2020 08h32

Sistema imunológico está no centro de algumas das questões mais importantes sobre o coronavírus.

Podemos pegar o coronavírus mais de uma vez? Por que algumas pessoas ficam mais doentes do que outras? Uma vacina vai funcionar? Os passaportes de imunidade poderiam permitir alguns de nós voltar ao trabalho? Como vamos lidar com esse vírus a longo prazo?

O sistema imunológico está no centro de algumas das questões mais importantes sobre o coronavírus.

O problema é que sabemos ainda muito pouco sobre a relação entre os dois.

Como ficamos imunes ao coronavírus?

Nosso sistema imunológico é a defesa natural do nosso corpo contra infecções e se divide em duas partes.

A primeira está sempre pronta para entrar em ação assim que qualquer invasor estrangeiro é detectado. É conhecida como resposta imune inata e inclui a liberação de substâncias químicas que causam inflamação e glóbulos brancos que podem destruir as células infectadas.

Mas esse sistema não é específico para o coronavírus. Ele não aprenderá como nem nos dará imunidade ao vírus.

Em vez disso, precisamos da chamada resposta imune adaptativa. Trata-se de células que produzem anticorpos direcionados que podem aderir ao vírus para interromper sua multiplicação e células T que podem atacar apenas as células infectadas pelo vírus, denominadas resposta celular.

Isso leva tempo, estudos sugerem que demora cerca de 10 dias para que o corpo comece a produzir anticorpos que possam atingir o coronavírus — e os pacientes mais doentes desenvolvem uma resposta imunológica mais forte.

Se a resposta imune adaptativa for poderosa o suficiente, poderá deixar uma memória duradoura da infecção que nos protegerá no futuro.

Não se sabe se pessoas que têm apenas sintomas leves, ou nenhum, desenvolverão uma resposta imune adaptativa suficiente.

Quanto tempo dura a imunidade?

A memória do sistema imunológico é semelhante à nossa — lembra claramente de algumas infecções, mas esquece de outras.

O sarampo é altamente memorizável — o contato com essa doença proporciona imunidade ao longo da vida (mediante a versão enfraquecida da vacina). No entanto, existem muitas outras doenças que são bastante "esquecíveis". As crianças podem contrair o VSR (vírus sincicial respiratório) várias vezes no mesmo inverno.

O novo coronavírus, chamado Sars-CoV-2, não existe há tempo suficiente para sabermos quanto tempo dura a imunidade, mas existem outros seis coronavírus humanos que podem dar uma pista.

Quatro produzem os sintomas do resfriado comum e a imunidade é de curta duração. Estudos mostraram que alguns pacientes podem ser reinfectados em um ano.

Mas o resfriado comum é geralmente leve. Existem mais dois coronavírus problemáticos — os que causam a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers) — nos quais os anticorpos foram detectados alguns anos depois.

"A questão não é se você fica imune, é por quanto tempo você está imune", diz Paul Hunter, professor de medicina da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, à BBC.

"Quase certamente não vai durar a vida toda", acrescenta.

"Com base nos estudos de anticorpos em Sars, é possível que a imunidade dure apenas de um a dois anos, embora isso ainda não seja conhecido com certeza".

No entanto, mesmo se você não estiver completamente imune, é possível que uma segunda infecção não seja tão grave.

Uma pessoa pode pegar a covid-19 duas vezes?

Há relatos de pessoas que parecem ter tido múltiplas infecções por coronavírus em um curto espaço de tempo.

Alguns argumentam que elas foram infectadas mais de uma vez. Outros, que o vírus entra em modo furtivo no corpo antes de ser reativado.

No entanto, o consenso científico é que o problema tem a ver com os testes. Talvez esses pacientes tenham sido informados incorretamente que estavam livres do vírus.

Ninguém foi deliberadamente reinfectado com o vírus para testar a imunidade, mas sim um par de macacos rhesus.

Eles foram infectados duas vezes, uma vez para criar uma resposta imune e uma segunda vez três semanas depois. Esses experimentos muito limitados mostraram que eles não desenvolveram sintomas novamente após uma reinfecção tão rápida.

Se tenho anticorpos, estou imune?

Isso não é garantido e é por isso que a Organização Mundial da Saúde demonstra preocupação com os países que usam passaportes de imunidade como uma maneira de evitar o confinamento.

A ideia por trás dos passaportes de imunidade é que, se você tiver diagnóstico positivo no teste de anticorpos, poderá voltar ao trabalho. Isso seria particularmente valioso para funcionários de asilos para idosos ou de hospitais que entram em contato com pessoas em risco de desenvolver sintomas graves.

Mas enquanto alguns anticorpos vão ser encontrados em quase todos os pacientes, nem todos se comportam da mesma forma. Anticorpos neutralizantes são os que aderem ao coronavírus e são capazes de impedi-lo de infectar outras células. Um estudo com 175 pacientes que se recuperam da covid-19 na China mostrou que 30% apresentavam níveis muito baixos desses anticorpos neutralizantes.

É por isso que a Organização Mundial da Saúde diz que "a imunidade celular (a outra parte da resposta adaptativa) também pode ser crítica para a recuperação".

Outra questão é que, embora você possa estar protegido por seus anticorpos, isso não significa que você ainda não será um retransmissor do vírus.

Por que a imunidade é importante?

É importante por razões óbvias de saúde e se você vai contrair a covid-19 várias vezes e com que frequência.

A imunidade também afetará o quão mortífero é o vírus. Se as pessoas mantiverem alguma proteção, mesmo não tão efetiva, isso tornará a doença menos perigosa.

Compreender a imunidade pode ajudar a flexibilizar o confinamento, se soubermos de fato quem não corre o risco de pegar ou espalhar o vírus.

Se for muito difícil produzir imunidade a longo prazo, isso poderá dificultar o desenvolvimento de uma vacina. Ou pode mudar a forma como a vacina precisa ser usada — ela será aplicada uma única vez na vida ou uma vez por ano, assim como a vacina contra a gripe?

E a duração da imunidade, seja por infecção ou imunização, nos dirá qual a probabilidade de conseguirmos impedir a propagação do vírus.

Todas essas são perguntas importantes às quais ainda não temos respostas.