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Caso George Floyd: as críticas de líderes religiosos após Trump posar para foto com a Bíblia

1º.jun.2020 - O presidente dos EUA, Donald Trump, posa com uma Bíblia em frente à Igreja Episcopal de St. John, em Washington - Brendan Smialowski/AFP
1º.jun.2020 - O presidente dos EUA, Donald Trump, posa com uma Bíblia em frente à Igreja Episcopal de St. John, em Washington Imagem: Brendan Smialowski/AFP

Lebo Diseko

Da BBC News

04/06/2020 16h39

Menos de 24 horas depois de o presidente americano, Donald Trump, ter posado para fotos em frente à Igreja Episcopal de São João com uma Bíblia na mão, mais de 20 líderes religiosos da região metropolitana da capital Washington foram ao mesmo local e criticaram a ação do mandatário dos Estados Unidos.

Para o reverendo George C. Gilbert Senior, Trump agiu de forma "imperdoável" ao usar a Bíblia de "muleta para promover sua agenda".

"É um momento grave da história dos Estados Unidos e eu sinto que o que Donald Trump, nosso presidente, fez é um escárnio", afirmou para uma multidão reunida no local.

"Estar em frente a uma igreja com a Bíblia na mão, sendo que ele nem frequenta a igreja com regularidade, é algo desonesto e enganoso."

'Multidões violentas'

Na segunda-feira, Trump ameaçou usar as Forças Armadas contra "multidões violentas" que, segundo ele, estão atrapalhando protestos pacíficos contra a morte do segurança George Floyd, que morreu durante uma abordagem policial.

Antes de discursar, o presidente fez uma breve caminhada até a Igreja Episcopal de São João, conhecida com a igreja dos presidentes, e empunhou a Bíblia em frente às câmeras. A igreja chegou a ser atingida pelo fogo durante os protestos de domingo passado.

Mas o reverendo GIlbert, e outros líderes religiosos que protestaram ao seu lado, vê o ato como uma "sessão de fotos, mas não é hora para ficar se exibindo".

Além do mais, pouco antes da visita de Trump ao local, a mídia local registrou que agentes de segurança usaram gás lacrimogêneo para dispersar a multidão que protestava pacificamente em frente à igreja a fim de liberar caminho para a passagem de Trump.

'Nação dividida'

Apesar das críticas feitas por Gilbert e seus colegas, a insatisfação com o presidente não é unânime entre líderes religiosos cristãos.

O pastor Mark Burns é um dos poucos líderes religiosos negros influentes que apoiam publicamente Trump. "Por que o presidente dos Estados Unidos, líder do mundo livre, não confiaria na palavra de Deus para reaproximar essa nação dividida?"

Segundo Burns, o presidente lembrou a nação de que "precisamos atualmente buscar rezar mais do que nunca".

A bispa episcopal de Washington, Mariann Budde, afirmou que soube da visita de Trump pela TV. Ela disse não ter recebido "nem uma ligação de cortesia, avisando que eles esvaziariam a área com gás lacrimogêneo para que eles pudessem usar nossa igreja de palco".

Para Michael Curry, bispo líder da Igreja Episcopal dos EUA, o presidente americano usou "a igreja e a Bíblia Sagrada com propósitos político-partidários".

Trump e a religião

O presidente americano não pertence a nenhuma congregação em particular, e raramente vai à missa. No entanto, ele costuma recorrer ao simbolismo e à linguagem religiosos para atrair eleitores cristãos.

Mais de 75% dos eleitores evangélicos brancos votaram em Trump na eleição de 2016, segundo o centro de pesquisa Pew. Em comparação, apenas 3% dos negros protestantes escolheram o republicano nas urnas.

A cena de Trump com a Bíblia em frente à igreja foi criticada também por proeminentes líderes cristãos ao redor do mundo.

Antonio Spadaro, padre jesuíta próximo do papa Francisco, escreveu no Twitter: "Aqueles que usam a Bíblia por seu poder mundano diante da tragédia tornam isso vaidade".

Na África do Sul, onde a religião já foi usada no passado como justificativa para a segregação racial no regime de apartheid, também houve críticas.

Para Thabo Makgoba, arcebispo da Cidade do Cabo, "usar a Bíblia para uma sessão de fotos realmente vai contra a essência do que há dentro da Bíblia, e isso nós sabemos muito bem no contexto sul-africano".

E acrescenta: "Eu nasci sob o apartheid e vivi sob o apartheid. São apenas alguns anos de minha vida sob democracia. É muito lamentável quando um político de qualquer país usa a igreja ou a Bíblia sob os holofotes para promover a si mesmo".

No Reino Unido, o bispo de Liverpool, Paul Bayes, postou no Twitter uma foto do presidente Trump segurando a Bíblia com a seguinte legenda: "É um bom livro. Trechos: 'Deus é amor', 'Ame seus inimigos', Que ele possa julgar seu povo com retidão e seus pobres com justiça. Que ele defenda a causa dos pobres do povo... #BlackLivesMatter (#VidasNegrasImportam)"