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Os três fatores que apontam quando Brasil chegará ao pico da epidemia de covid-19

Os três fatores que apontam quando Brasil chegará ao pico da epidemia de covid-19 - Getty Images
Os três fatores que apontam quando Brasil chegará ao pico da epidemia de covid-19 Imagem: Getty Images

Rafael Barifouse

Da BBC News Brasil em São Paulo

10/06/2020 04h47

Mais de três meses após 1º caso, não há indícios de que 'o pior já passou'; saiba quais são os índices-chave que cientistas acompanham para saber quando isso vai acontecer.

O primeiro caso de covid-19 no Brasil foi confirmado em 26 de fevereiro, e as medidas de isolamento social começaram ser adotadas em meados de março.

Passados quase três meses, nada indica que já passamos do pico da pandemia. Na verdade, recordes de casos e mortes em um único dia foram registrados na última semana.

Como vamos saber quando a pandemia chegou ao seu auge por aqui? Ou melhor ainda: que o pior finalmente já passou?

Antes, é importante entender que falar em um único pico no Brasil, um país de tamanho continental, é como falar em um único pico para toda a Europa.

"Não existe uma epidemia única no Brasil. Temos uma pandemia composta por diversas epidemias locais, com padrões diferentes", diz Márcio Sommer Bittencourt, médico do centro de pesquisa clínica e epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP).

Isso significa que devemos olhar a evolução do coronavírus em cada Estado — ou mesmo em diferentes regiões dentro de um mesmo Estado —, ainda que seja inevitável falar também em uma média para o país.

Os cientistas também ressaltam que é mais fácil identificar o auge de uma pandemia quando já passamos dela e vemos que houve uma redução consistente de alguns índices-chave, como os três listados abaixo.

O número de novos casos e mortes por dia

O primeiro deles são as estatísticas oficiais de novos casos e mortes registrados por dia. Enquanto esses números estiverem crescendo, não dá para dizer que passamos do pico.

E a queda não pode ser pontual. Deve se manter por pelo menos duas semanas, período de incubação do novo coronavírus e tempo que os epidemiologistas consideram suficiente para saber que não foi só uma oscilação.

Isso ainda não aconteceu no Brasil, diz Domingos Alves, professor da Faculdade Medicina da USP em Ribeirão Preto e colaborador do portal Covid-19, que monitora a pandemia no país.

"Não observamos ainda em nenhum Estado uma queda sustentada desses números."

Alves explica que a pandemia estava mais concentrada nas capitais do Brasil até o meio de maio e, desde então, passou a avançar no interior.

Isso faz com que a tendência geral do país seja de piora neste momento, diz o pesquisador.

"Os números de novos casos e mortes não estão só aumentando. Esse crescimento também está acelerando. Nessa toada, o pico só deve ocorrer entre o meio e o final de agosto."

A taxa de reprodução do vírus

Um segundo índice usado por epidemiologistas para saber o rumo de uma pandemia é a taxa de reprodução de um vírus, também conhecida como Rt.

O nome parece complicado, mas o conceito é simples: ela indica quantas pessoas em média são infectadas por alguém que já está contaminado pelo novo coronavírus, o Sars-CoV-2.

"O Rt indica o quanto a doença está desacelerando ou acelerando", diz Bittencourt.

Quando este índice estiver caindo e se aproximando de 1, mais próximo estamos do pico da epidemia. E só podemos dizer que passamos dele quando o índice fica abaixo de 1 por um período consistente.

"Todos os cálculos continuam indicando que o Rt no Brasil continua acima de 1", diz o epidemiologista Antonio Moura da Silva, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

O monitoramento feito por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) indica que a taxa está em queda desde o final de abril.

Mas os dados mais atuais apontam que ela ainda fica acima de 1 em quase todos os Estados, com exceção do Amazonas (0,96), Pernambuco (0,95) e Rio Grande do Norte (0,93).

Para pensar em uma reabertura, o ideal é ao menos ter a taxa controlada próximo de 1 ou "confortavelmente" abaixo de 0,8, diz Renato Coutinho, professor da Universidade Federal do ABC e integrante do Observatório Covid-19, um grupo de pesquisadores que faz análises sobre a pandemia.

"Quando fizeram isso em Wuhan, na China, estava em 0,3. E, na Alemanha, em 0,75."

Os casos de síndrome respiratória aguda grave

No Brasil, onde são feitos poucos testes de covid-19 em comparação com outros países, outro índice ganhou importância no acompanhamento da evolução da pandemia.

Os casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) são notificados oficialmente pelos hospitais no Brasil desde a pandemia de H1N1 em 2009.

O H1N1 afeta a respiração assim como o novo coronavírus. Quando uma pessoa procura ajuda médica, isso é registrado pelo Infogripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Esse dado não é afetado pelos problemas ligados à baixa testagem, como a subnotificação de covid-19, porque a síndrome respiratória só depende de exames clínicos para ser diagnosticada.

"Podemos olhar esse dado como um bom termômetro do que está acontecendo na pandemia", diz Marcelo Gomes, coordenador do Infogripe.

Até agora, em 2020, foram notificados 159 mil casos de sdrag, quatro vezes mais do que em 2019. Desse total, 63 mil testaram positivo para algum vírus, e, em 98% deles, o resultado foi o novo coronavírus.

O Infogripe aponta ainda que as epidemias em diferentes partes do país também estão em momentos diferentes.

Os sinais são de estabilização no Sudeste e de queda no Norte e Nordeste. Mas a epidemia está crescendo no Sul e no Centro-Oeste.

No geral, o sistema da Fiocruz indica que a tendência geral no país é de estabilização das novas notificações de sdrag, ainda que em um patamar muito acima do normal.

"Mas ainda não podemos fincar uma bandeira e dizer que chegamos ao pico, porque esse processo depende muito do que vamos fazer agora", afirma Gomes.

A flexibilização recente das medidas de distanciamento social vai facilitar o contágio enquanto o vírus ainda estiver circulando amplamente.

"E aí, o que poderia ser um pico, pode deixar de ser. Mas, se mantivermos essas medidas, o que é uma estabilização agora pode se transformar em uma queda", diz Gomes.

"Tudo vai depender das nossas escolhas individuais e das políticas públicas."