Entrevista: "Atiradores querem que vítimas paguem por seu sofrimento", diz psicólogo

Chase Winter

  • Christof Stache/AFP

    Flores e velas lembram vítimas do atentado no shopping Olympia, em Munique

    Flores e velas lembram vítimas do atentado no shopping Olympia, em Munique

Autor do livro encontrado no quarto do adolescente que matou nove em Munique afirma que a inveja pode ter desempenhado papel importante no massacre: "Eles veem pessoas felizes e querem se vingar de alguma forma."

Uma busca na casa de Ali David S., o jovem de 18 anos com nacionalidade iraniana e alemã que matou nove pessoas em Munique, encontrou a versão em alemão do livro Why Kids Kill: Inside the Minds of School Shooters (Por que crianças matam: Dentro das mentes de atiradores em escolas, em tradução livre),

O livro, de 2010, é do psicólogo americano Peter Langman. Em entrevista à DW, ele diz que, na Europa, muitos assassinos em massa copiam os massacres praticados nos EUA e que, entre outros motivos, a inveja pode ter desempenhado um papel importante na chacina de Munique.

Os atiradores olham ao seu redor e veem que todos estão felizes e com sucesso e há uma profunda inveja. Eles desejam fazer com que as pessoas paguem pelo sofrimento deles e querem se vingar de alguma forma Peter Langman

Langman é autor também de School Shooters: Understanding High School, College and Adult Pepetrators (Atiradores escolares: Entendendo agressores de escolas secundárias, universitários e adultos, em tradução livre).

DW: Como você enxerga o fato de o atirador ter um exemplar do seu livro?

Peter Langman: Não é surpreendente em alguns aspectos -- mas para mim, surpreende por se tratar do meu livro. Geralmente, atiradores escolares fazem muitas pesquisas, estudam na internet outros incidentes, encontram outros autores de massacres que admiram e leem sobre outros assassinos em massa.

Essa pesquisa pode ter vários propósitos. Talvez eles se sintam anormais ou desajustados. Ler sobre outras pessoas que tiveram os mesmos pensamentos pode lhes dar um sentimento de grupo em sua própria mente e eles podem então se sentir menos anormais. Talvez eles consigam uma aceitação social de que o estão fazendo não é tão ruim, de que outras pessoas já fizeram isso e deram razões para tal.

Você afirmou que há "um perfil" que se adapta a qualquer atirador, dividindo-o em três categorias: psicopata, psicótico e traumatizado. Com base no que sabemos, qual deles combinaria com o atirador de Munique?

Ainda não sabemos o suficiente para determinar a tipologia dele. Frequentemente, é preciso bastante tempo para que informações psicológicas venham à tona e, algumas vezes, não há dados suficientes para se tomar uma decisão.

Pelo que sabemos, ele não se parece com um atirador psicopata. Geralmente, trata-se de pessoas extremamente narcisistas, com boas habilidades sociais, podendo ser até mesmo charmosas e carismáticas. Tais pessoas são, muitas vezes, mais bem-sucedidas socialmente que o atirador de Munique. Não vejo tais traços, ele parecia ser mais tímido, extremamente inseguro e ansioso.

Vídeo mostra atirador em frente a McDonald's em Munique

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Investigadores informaram que o atirador de Munique gostava de jogos de tiro online em primeira pessoa, como é o caso de outros assassinos em massa. Essa constatação provocou debates sobre videogames violentos e seu papel em tiroteios. Jogar tais games é uma prática comum entre atiradores?

É uma questão complexa porque a maioria dos milhões de adolescentes que jogam tais videogames nunca mata ninguém. Não há, assim, uma correlação tão simples entre a prática de tais jogos e a realização de assassinatos em massa.

E sobre o papel do suicídio? Muitos desses ataques terminam com um suicídio...

Com base numa amostra de 48 atiradores mencionados no meu livro mais recente, por volta da metade pretendia morrer em seus ataques. Algumas pessoas tendem a pensar que atiradores em escolas e assassinos em massa são suicidas, mas esse é o caso somente em metade das vezes. Muitos desses atiradores são tanto suicidas quanto homicidas. Eles querem morrer, mas não sozinhos e de forma insignificante.

Eles desejam fazer com que as pessoas paguem pelo sofrimento deles e querem se vingar de alguma forma. Algumas vezes, eles também anseiam a fama e o reconhecimento que acompanham esse tipo de ação, de forma que não morram sozinhos -- desconhecidos e insignificantes. Eles tentam dar algum tipo de significado maior a suas vidas e a melhor forma de fazê-lo é, infelizmente, por meio da violência.

Você falou que atiradores fazem pesquisas sobre ataques. Tais incidentes são menos comuns na Europa do que nos EUA. Você vê aí algum tipo de efeito mimético atravessando o Atlântico?

Eu penso, definitivamente, dessa maneira. Olhando para os casos de Robert Steinhauser (um jovem de 19 anos que matou 16 pessoas e feriu sete num ataque em 2002 numa escola de Erfurt, Alemanha) ou de Tim Kretschmer (um adolescente de 17 anos que matou 15 e feriu nove num ataque escolar em 2009 em Winnenden, Alemanha), eles estavam muito cientes dos tiroteios nos EUA, especialmente o de Columbine. [Investigadores disseram que o atirador de Munique acessou o site do ataque em Winnenden].

Você classifica ataques em quatro tipos: com alvos aleatórios, alvos individuais, grupos-alvo e mistos. Como você classificaria o ataque em Munique?

Parece ser aleatório, já que o atirador não aparentava perseguir nenhum indivíduo específico.

Alguns, no entanto, indicaram que ele estava atirando especificamente em jovens. Não sei se a maioria das vítimas era formada por adolescentes porque eram esses que, por acaso, se encontravam nas proximidades ou se ele estava selecionando esses jovens entre a multidão.

Mesmo que as vítimas tenham sido escolhidas de forma aleatória, considerando o fato de ele não as conhecer, é possível que o atirador tenha ido atrás de pessoas na mesma faixa etária. Se esse for o caso, então existem algumas formas de interpretar o fato. Aparentemente, ele se sentia intimidado e foi intimidado por seus semelhantes, mas ele não estava perseguindo os meninos que o haviam espancado.

Ele pode ter tido uma raiva generalizada contra o seu grupo de semelhantes. Outra possibilidade que recebe menor atenção é a ideia de inveja. Muitas vezes, atiradores se sentem anormais, estão deprimidos, não são bem-sucedidos socialmente. Eles olham ao seu redor e veem que todos estão felizes e com sucesso e há uma profunda inveja. Isso pode evoluir para o ódio, porque isso não parece justo, então tais atiradores perseguem as pessoas de quem têm mais inveja.

Promotores alemães disseram que o atirador fez uma extensa pesquisa sobre o radical de extrema-direita Anders Breivik, que matou 77 pessoas na Noruega, exatamente cinco anos antes do ataque de sexta-feira em Munique. O que você acha disso?

Eu não sei como tratar relatos em que o atirador expressaria alguma retórica xenófoba, não sei se tais relatos são verdadeiros porque seus pais são imigrantes iranianos. Na esteira de um ataque como esse, há muita desinformação.

A missão de Breivik era expulsar os muçulmanos da Europa e salvar a civilização europeia branca. Então, eu não sei por que o atirador de Munique se sentiria atraído por isso, dado que sua família vem do Irã -- eu também não sei se ele era muçulmano. Para o atirador, seria muito estranho encontrar um ídolo em Breivik, a não ser que ele admirasse a capacidade do norueguês de matar muitas pessoas e não tivesse nenhum interesse na ideologia política disso.

Como se podem evitar tais ataques?

Sabemos bastante sobre os sinais de alerta. É uma questão de educar o público para que eles reconheçam tais indicativos e saibam o que fazer ao vê-los. Muitas vezes, há um longo rastro de indícios: as pessoas falam sobre o que planejam executar; algumas vezes, eles advertem os amigos para que fiquem longe e não se machuquem; ocasionalmente, eles convidam amigos para que participem de ataques; eles fazem ameaças a pessoas que pretendem matar; eles podem fazer postagens na internet; de vez em quando, eles entregam trabalhos escolares onde expressam o seu desejo de matar alguém.

Às vezes, os sinais de advertência são muito óbvios, mas as pessoas não os reconhecem ou não querem levá-los a sério. Ou têm medo de denunciá-los por várias razões. Certamente, há uma série de ataques frustrados desconhecidos, porque não recebem a atenção da mídia se não acontecerem.

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