Zeitgeist: Quem é Fethullah Gülen, o arquirrival de Erdogan?

Alexandre Schossler

Fundador e líder espiritual de um movimento que foca principalmente na educação, teólogo é uma das pessoas mais influentes da Turquia e já foi aliado de Erdogan. Críticos o acusam de liderar uma seita. Confira na coluna.

A tentativa de golpe de Estado na Turquia, em 15 de julho de 2016, colocou em evidência o teólogo islâmico Fethullah Gülen, acusado pelo presidente Recep Tayyip Erdogan de estar por trás do movimento, uma acusação que o religioso nega com veemência.

Gülen, de 75 anos, é o teólogo islâmico mais influente da Turquia e o fundador e líder espiritual do movimento Hizmet (serviço), que abriu centenas de escolas no país e também no exterior, com milhões de seguidores em mais de cem países. Desde 1999, ele vive em exílio autoimposto na Pensilvânia, nos Estados Unidos.

O teólogo virou alvo da ira de Erdogan em 2013, quando promotores - supostamente ligados a ele - iniciaram investigações sobre corrupção contra ministros do governo Erdogan e pessoas ligadas ao primeiro-ministro. Este acusou Gülen de estar por trás das investigações.

Até então, Erdogan e Gülen eram aliados. Os dois se encaixam na tradição islâmica-religiosa da Turquia, em oposição ao secularismo representado pelos militares, e buscam, de maneiras distintas, dar um caráter mais religioso e menos secular à sociedade turca.

O principal caminho escolhido por Gülen para isso foi a educação de fundo religioso, que beneficiou muitas pessoas pobres, dando a elas a oportunidade de ascensão social. Muitos seguidores de Gülen alcançaram posições importantes dentro da sociedade turca, principalmente no setor de educação, na polícia e no judiciário.

Quando chegou ao poder, o partido islâmico-conservador AKP, de Erdogan, não via a ascensão social dos seguidores de Gülen como um problema. Ao contrário, eles forneciam um contraponto à velha elite, os chamados kemalistas, ou seguidores seculares de Mustafa Kemal Atatürk, o fundador do moderno Estado turco, e eram assim bem-vindos.

Defensores de Gülen afirmam que ele prega uma versão moderada, tolerante e moderna do islã, que favorece o diálogo interreligioso e a democracia. Eles lembram uma frase muito citada dele: "Construam escolas e não mesquitas". O teólogo também critica abertamente o terrorismo islâmico.

Já os críticos - principalmente setores de esquerda e seculares - acusam-no de uma interpretação conservadora do islã. Para eles, o movimento se apresenta como tolerante, aberto ao diálogo e voltado para a educação, mas os objetivos religiosos e ideológicos de seus líderes não estão claros.

Outros críticos, principalmente ligados ao AKP, afirmam que os seguidores de Gülen criaram um "Estado dentro do Estado", devido à grande influência de que desfrutam e por supostamente se auxiliarem mutuamente, como se fossem membros de uma seita.

Outros afirmam que o trabalho do Hizmet no setor de educação prepara o caminho para a islamização da sociedade turca, como uma espécie de revolução silenciosa. Além da educação, o movimento tem forte presença na mídia local.

Analistas afirmam que Erdogan e Gülen têm visões de mundo semelhantes, o que também explica porque foram aliados durante muito tempo. Assim, a atual divergência entre os dois não é programática, mas uma simples disputa por poder e influência na sociedade turca.

Gülen e sua organização foram declarados terroristas na Turquia, que pede, aos Estados Unidos, a extradição do teólogo.

A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.

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