Análise: A aposta arriscada dos socialistas na Espanha

Santiago Sáez, de Madri (av)

Líder incontestado da esquerda espanhola há quase quatro décadas, PSOE se arrisca ao abrir caminho para mais um governo Rajoy. Apoio indireto a conservadores enfraquece partido, já ameaçado pela ascensão do Podemos.Após dez meses de impasse político, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) finalmente cedeu, permitindo, com a abstenção de votar, que Mariano Rajoy assuma a chefia de governo pela segunda vez. Com a iniciativa sem precedentes, a legenda apoia indiretamente um governo conservador – e afasta, sobretudo, o risco de um mau desempenho socialista no caso de uma eventual terceira eleição. O encontro do PSOE deste domingo (23/10), em Madri, foi mais breve e mais amigável do que aquele em que, num clima emocionalmente carregado, o então secretário-geral Pedro Sánchez foi demitido, três semanas atrás. Mesmo assim, o voto pró-Rajoy acentuou os profundos rachas dentro do partido. A proposta de rejeitar a reeleição do presidente do governo (primeiro-ministro), apresentada pela federação socialista basca, teve o apoio de mais de 40% dos 235 votantes. A oposição mais veemente partiu do PSC, o aliado catalão do PSOE, tecnicamente uma legenda independente. Segundo seu líder, Miquel Iceta, o grupo vai decidir nesta terça-feira se acata o posicionamento oficial do PSOE ou se votará contra Rajoy. Deputados isolados, como Susana Sumelzo, já anunciaram que se oporão ao premiê, independente da decisão partidária. Socialistas entre dois fogos Com sua iniciativa, o PSOE conseguiu evitar os resultados provavelmente desastrosos de uma nova rodada eleitoral. No entanto, a sigla ainda não está totalmente fora de perigo. O jornalista político e comentarista Antonio Maestre calcula que o Partido Popular (PP), de Rajoy, seguirá usando a possibilidade de eleições antecipadas como elemento de pressão para obter apoio a reformas impopulares, colocando o PSOE numa posição "muito difícil". O orçamento nacional, que encabeça a lista de tarefas de Rajoy, poderá ser a primeira dessas resoluções a necessitar do respaldo socialista. Incluindo cortes nos serviços sociais, o projeto de lei testará a capacidade dos socialistas de liderar a oposição e, ao mesmo tempo, manter a intenção de superar o cabo de guerra político em Madri. O vice-presidente da consultora Teneo Intelligence, Antonio Barroso, prevê negociações orçamentárias acirradas, uma vez que o PSOE não pode aparentar colaboração excessiva com Rajoy. "Os socialistas estão agora competindo com o Podemos pelo posto de principal legenda de esquerda", afirma o analista especializado na zona do euro, que não espera que o premiê vá cumprir integralmente seu novo mandato: "Governos de minoria não costumam esgotar seu tempo no cargo." Chance para Podemos Com o impasse político suspenso, os socialistas têm que enfrentar a legenda antiausteridade Podemos, que obteve 71 assentos no último pleito legislativo. Apesar de ser o líder incontestado da esquerda espanhola desde 1978 e de ocupar 85 postos no Parlamento, o PSOE tem pela frente um concorrente sério, pois a decisão de permitir um gabinete liderado pelo conservador Rajoy poderá colocar o Podemos em vantagem. Íñigo Errejón, do conselho de coordenação do Podemos, tuitou que a abstenção dos socialistas resultará num "governo fraco e de vida breve", e que seu partido será uma "alternativa" ao PSOE para o eleitorado. O jornalista Maestre confirma que esta "é uma boa chance para o Podemos". "Será fácil eles pintarem o PSOE como cúmplice de Rajoy, reavivando a narrativa segundo a qual ambos os partidos formam os dois lados do status quo." Crises internas, a posição enfraquecida e a competição por parte do Podemos sugerem um futuro acidentado para o PSOE. No entanto, ressalva Antonio Maestre, o grupo permanece forte, não enfrentando risco imediato de se tornar irrelevante, como ocorreu com o partido social-democrata grego Pasok. Segundo o comentarista político, nas zonas rurais o Podemos não constituiu concorrência perigosa para os socialistas, cuja influência se mantém grande nas regiões menos populosas da Espanha, em especial no sul. Por outro lado, tanto Maestre como Barroso ressaltam que o racha da esquerda descarta o PSOE como alternativa séria de governo no médio prazo. Incógnita catalã Após a reunião deste domingo, a líder da federação socialista andaluza, Susana Díaz, declarou esperar que o PSC vote de acordo com a resolução do PSOE. Na prática, o líder recém-reeleito do grupo catalão, Miquel Iceta, deixou a escolha a cargo da base partidária. A expectativa é que o voto catalão nesta terça-feira seja contra a abstenção. Iceta se disse "horrorizado" de fornecer argumentos aos que defendem a independência catalã em relação à Espanha. Afinal, o modelo territorial espanhol é, justamente, o cerne da crise socialista. Pedro Sánchez se opunha à aproximação aos partidos nacionalistas da Catalunha, cujo apoio era essencial para um eventual gabinete sob liderança do PSOE. Essa resistência suscitou reação por parte das federações meridionais, majoritariamente rurais e conservadoras, que têm se manifestado radicalmente contra toda concessão ao movimento catalão pró-independência, e mesmo qualquer tipo de negociação. Na opinião de Antonio Maestre, os socialistas arriscam perder relevância nas regiões em que há movimentos nacionalistas. "A posição sobre o debate territorial, inequívoca em outros partidos, não está definida no PSOE. Se as facções conservadoras vencerem, o PSC seguirá os passos do PP, tornando-se irrelevante na Catalunha e no País Basco." Por outro lado, avalia o comentarista , enquanto o partido de Mariano Rajoy tem potencial para conquistar popularidade em outras regiões, capitalizando a posição centralista, "o PSOE perderia eleitores, mesmo assim".

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