Opinião: Fidel Castro, de fracasso político a mito universal

Amir Valle

  • Reprodução/ONU

Com sua morte, aquele que é visto por muitos como o "último revolucionário do século 20" entra num espaço místico de idolatria e demonização, reservado a figuras como Lenin e Mao, opina o jornalista cubano Amir Valle.

Fidel Castro mal fechou os olhos e já teve início a guerra entre os que difamavam e os que o idolatravam, como se ambos os lados tivessem compreendido que, a partir do descanso de suas cinzas no cemitério da Santa Ifigênia de Santiago de Cuba, começaria o desapego de seu mito.

Quem considerava Fidel um pioneiro na luta contra o imperialismo mundial infla as razões pelas quais ele merece a eternidade dos heróis, esquecendo seus enormes erros e suas estratégias maléficas. E aqueles que o colocam na categoria do maior sátrapa tropical, no nível de genocidas como Hitler, Stalin ou Pol Pot, concentram-se em todos os seus fracassos políticos, econômicos ou sociais, esquecendo suas luzes e alguns de seus maiores êxitos.

Mais uma vez, como tem acontecido desde o triunfo da Revolução Cubana em 1959, o mundo olha para a realidade cubana em seus tons mais controversos: branco e preto.

Mundo afora a piada mais comentada diz que "Fidel odiava tanto o capitalismo que decidiu morrer numa Black Friday para enlutar a data". Na ilha caribenha, outra piada muito repetida diz: "Fidel, mesmo morto, nos obriga a fazer fila", em referência às longas filas de cubanos que passaram diante de um altar com uma foto e as medalhas do líder da Revolução, muitos deles sem saber que os verdadeiros restos mortais estavam em outro prédio, dispostos exclusivamente para mandatários estrangeiros e outras personalidades cubanas e do exterior.

Com sua morte, para além das muitas promessas a seu povo não cumpridas, Fidel também fracassou ante um projeto mais humano: o da longevidade. Isso porque, décadas atrás, ele concordou entrar no "Clube dos 140 anos", uma ideia de seu médico pessoal, Eugenio Selman, que pretendia mostrar que levando uma vida saudável, com cuidados médicos de alto nível e uma alimentação adequada, qualquer pessoa poderia alcançar a longevidade dos grandes homens da Bíblia.

Embora seja verdade que, segundo a ciência, isso é possível, é inegável que Fidel foi o último dos personagens históricos que já assinaram a adesão a esse clube exclusivo. O ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez, outro membro ilustre da fraternidade, morreu prematuramente em 2013. E, em 2015, morreu o próprio doutor Selman, criador do clube.

O tom que o governo de Havana deu ao funeral do "Comandante" impõe uma pergunta: o que vem depois de Fidel? Curiosamente, sua morte coincide com dois problemas que a velha esquadra castrista precisa resolver com urgência.

Por um lado, há a perda de credibilidade política perante a população, porque os cubanos consideram que Raúl Castro dilapidou um tempo precioso sem dar um curso na ilha para as concessões unilaterais de Obama. E agora temem que o governo volte a se entrincheirar ante a possibilidade de eventual retrocesso nas relações bilaterais entre Havana e Washington, segundo recentes declarações do presidente eleito dos EUA, Donald Trump.

Por outro lado, o povo desconfia da honestidade e da capacidade política daqueles que devem substituir Raúl em 2018, os neocastristas. Estes são vistos como indivíduos sem ideologia, cujo único deus é o dinheiro, e que, portanto, podem estar interessado em implementar um capitalismo selvagem, temido por todos os cubanos.

Assim, é lógico que agora se peça à população para assinar o juramento de sempre defender o conceito de revolução de Fidel. Porque ao utilizar o mito para tentar aplacar o fracasso do projeto político da Revolução, a nova esquadra castrista cria uma base ideológica que pode explorar para dar continuidade ao "legado do comandante".

Também incomoda que tentem igualar a figura de Fidel ao mais amado herói cubano: José Martí. Alguns porta-vozes oficiais já estão falando que a grandeza e o legado de Fidel são maiores e, portanto, não consideram estranho que suas cinzas descansem ao lado dos restos de Martí em Santiago de Cuba, e não no panteão familiar dos Castros em Birán ou com os outros combatentes da Revolução na Serra Maestra.

A imensidão intelectual e política de Martí já superou a prova do tempo. Fidel começa agora essa que talvez seja sua última batalha. As sombras de outro líder idolatrado, Lenin, vieram a ser descobertas quase 70 após sua morte. O mesmo ocorreu com Mao, Stalin, Che Guevara.

Sobreviverá o mito de um estrategista fracassado? É uma questão que a prudência impede responder. Em todo caso, ao menos a população de Santiago verá o turismo crescer a partir de hoje: assim como a múmia de Lenin no Kremlin, certamente muitos turistas de todo o mundo vão querer visitar o novo ponto turístico na cidade.

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