Terrorismo e a nova normalidade em Berlim

Charlotte Potts (md)

Após atentado, sentimentos na capital alemã se dividem entre prudência e revolta. Mercados de Natal reabrem com policiamento reforçado, e populistas de direita protestam contra política de refugiados de Merkel.Os populistas de direita do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) convocaram uma vigília em frente à Chancelaria Federal, sede do governo alemão. Os últimos cartazes foram pintados sob o frio amargo. "Merkel tem que sair", dizia um deles. "Defend Berlin" (defenda Berlim), lia-se em outro. Ainda não se sabe ao certo quem está por trás do ataque contra o mercado de Natal da Breitscheidplatz, em Berlim. Mas para muitos que se reuniram nesta noite de quarta-feira (21/12), tudo parece muito claro: foi um refugiado. E por essa razão eles não só culpam pelo ataque a política de refugiados da chanceler federal, Angela Merkel, mas também ela pessoalmente. "O sangue das vítimas mancha as mãos dela", foi uma das frases gritadas pela multidão, enquanto muitos apontavam para a Chancelaria. Manfred Betz viajou do estado da Turíngia especialmente para participar da vigília. Ele empunhava uma bandeira da resistência a Hitler do período da Segunda Guerra, mas, ao mesmo tempo, usava a retórica nazista ao afirmar – com termos alemães peculiares à ideologia do Terceiro Reich – que veio protestar contra a assimilação de estrangeiros pelo povo alemão, se dizendo a favor de que todos os imigrantes sejam imediatamente expulsos da Alemanha e que as fronteiras sejam fechadas. "A senhora Merkel quer acabar com a Alemanha." Sombras sobre eleições de 2017 O ódio contra a chanceler federal está à solta não apenas na internet, mas também diante da Chancelaria, em Berlim. Para os militantes da AfD, Merkel nunca esteve sem alternativa., e ela se tornou um símbolo de tudo o que supostamente está errado na Alemanha. A vigília em frente à Chancelaria evidenciou a dinâmica política do ataque na segunda-feira. Berlim se junta agora à série mundial de atentados terroristas: Paris, Bruxelas, Istambul, Ancara, Nice, Orlando. Mais um acontecimento chocante ao final de um ano sombrio, que também vai lançar sombras sobre o ano de eleições 2017. Isso ficou claro nesta noite diante da Chancelaria. Enquanto partidos da coalizão de governo ainda tentavam demonstrar coesão no dia seguinte ao ataque, a AfD lembrava que diferenças ideológicas profundas dividem a Alemanha. "Foram cometidos erros políticos que têm que ser revertidos", afirmou o único orador da noite, um ex-pastor que diz ter se desvinculado da Igreja luterana em protesto contra a política de refugiados de Merkel. Ele colheu aplausos efusivos. No segundo dia após o ataque, os mercados de Natal da capital alemã reabriram, com exceção do que foi alvo de ataque, na Breitscheidplatz, que reabriu somente nesta quinta-feira. Na hora do almoço, o mercado de Natal na praça Gendarmenmarkt estava cheio de visitantes, embora eles não fossem tantos quanto era costume antes do atentado. "De manhã, às 11h, normalmente há filas aqui. Hoje não está sendo assim", constatou Steffi, vendedora de uma barraca de strudel próxima à entrada da feira. "É uma sensação meio esquisita estar aqui de volta, mas pelo menos a polícia está presente." Segurança opressora A poucos metros de distância, viam-se quatro policiais armados. Um segurava uma metralhadora, enquanto os outros carregavam pistolas. Ao todo, dez policiais vigiavam o Gendarmenmarkt, situados nas entradas e saídas e circulando entre as barracas. "É para aumentar a sensação de segurança entre a população", disse um deles. Para muitos visitantes, o aumento da segurança causa suspeita. "Deixa uma sensação de opressão", disse Maria Hofmann. Como muitos outros visitantes do mercado natalino, ela também esperava que um ataque viesse a acontecer na capital alemã. "Era apenas uma questão de tempo." Terrorismo parece ter se tornado a nova normalidade. O que pode acontecer quando alguém está no mercado natalino errado na hora errada é algo que os visitantes do evento no Gendarmenmarkt sabem muito bem, mas preferem não pensar muito nisso. Afinal, eles vieram para saborear um vinho quente, comer salsicha e apreciar a época pré-natalina – e não para falar de política.

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