Opinião: Entrada da Turquia na UE sempre foi uma quimera

Zoran Arbutina

Referendo sobre ingresso turco na União Europeia, aventado por Erdogan, nada mais é do que reconhecimento de uma realidade política: nenhum dos lados quer mais essa opção, opina o jornalista Zoran Arbutina.O fenômeno é conhecido: poder finalmente botar para fora uma convicção há muito reprimida, dar nome aos bois, falar a verdade – isso alivia, liberta, pode gerar novas energias. Isso vale tanto para pessoas como para sociedades, tanto na esfera privada como na pública. Agora, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, numa de suas inúmeras tiradas contra a União Europeia (UE), anunciou que cogita organizar um referendo sobre o ingresso do país no bloco europeu. Claro que só depois do referendo constitucional de 26 de abril, com o qual ele pretende ampliar enormemente seus próprios poderes. A ameaça subliminar é mais do que evidente: a população turca poderia exigir que as negociações com a UE fossem canceladas. Com isso, a perspectiva europeia estaria definitivamente encerrada para a Turquia, e, com ela, a possibilidade de integrar na UE um país de 78 milhões de habitantes, um Produto Interno Bruto (PIB) de 735 bilhões de dólares e uma importância geoestratégica imensa. O projeto turco-europeu já dura meio século: já em 1959, a Turquia solicitava pela primeira vez o seu ingresso, e já em 1963 foi oferecida ao país a possibilidade de integrar a Comunidade Econômica Europeia, no chamado Acordo de Ancara. Há 12 anos que o ingresso na UE é formalmente negociado – às vezes com mais engajamento, às vezes com menos. Essas negociações, porém, nunca foram tocadas com grande entusiasmo pelos turcos e muito menos pelos europeus. Desde o começo, Ancara se mostrou reticente, temendo as reformas que um ingresso na UE necessariamente traria consigo. Do lado europeu, as reservas sempre foram grandes em relação ao país, que apresenta deficiências democráticas das mais variadas, no qual o Estado de Direito sempre foi um conceito bem elástico e que, além de tudo, é fortemente marcado pelo islamismo. Ao longo dos anos, os dois lados mais se encararam com desconfiança do que de fato negociaram, viram-se mais como adversários do que como parceiros. Entre a população, principalmente a europeia, nunca houve uma maioria a favor do ingresso da Turquia. A maioria das pessoas menciona sobretudo as grandes diferenças religiosas e culturais e é da opinião de que a Turquia simplesmente não faz parte da União Europeia. Depois das duras reações à recente tentativa de golpe de Estado, essa sensação se tornou uma convicção de Estocolmo até Atenas. Essa rejeição não é unilateral: também na Turquia, a perspectiva de ingressar na UE não é mais dominante. Há 12 anos, a situação era outra. Naquela época, uma clara maioria da população via a Europa como a promessa de dias melhores. Só que, no mais tardar desde os protestos no Parque Taksim Gezi, há quatro anos, Erdogan segue um curso antieuropeu muito claro, e seus apoiadores estão com ele. Diante desse cenário, não é de se admirar que o anúncio de Erdogan, no sábado, não tenha gerado grandes lamentos na União Europeia. Afinal, atrás desse anúncio, empacotado como ameaça, esconde-se uma constatação já feita por muitas pessoas, tanto na Turquia como na União Europeia: o projeto da entrada da Turquia na UE era, desde o início, uma quimera política. Para sua realização, falta o necessário apoio dos cidadãos, tanto na UE como na Turquia. Por isso, é apenas lógico e honesto simplesmente formular e dizer isso. Olhar a verdade nos olhos faz bem e alivia. E esse passo pode liberar novas energias, dar a cada um dos participantes um novo impulso: no caso da Turquia, para repensar e redefinir seu papel na região e sua relação com a UE. No caso da UE, para esclarecer sua relação com um ator importante nos aspectos geoestratégico, econômico e militar. Mas também para direcionar seus esforços de ampliação para onde eles são social e politicamente necessários, e onde a força de atração desencadeada por um ingresso na UE ainda pode iniciar e estimular reformas profundas: nos sempre efervescentes Bálcãs Ocidentais.

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