Zeitgeist: A Arábia Saudita e o financiamento do terrorismo

Alexandre Schossler

Reino já foi acusado de ser complacente com doações privadas a grupos extremistas sunitas e de não agir com rigor contra o terrorismo islâmico. Mas situação mudou depois do 11 de Setembro e de atentados no próprio país.Acusações de que a Arábia Saudita financia o terrorismo são antigas – só o fato de 15 dos 19 terroristas que executaram os atentados do 11 de Setembro serem sauditas já levantou muitas suspeitas na época. Essas acusações não miram necessariamente o governo saudita – muitas vezes fala-se de doações privadas de famílias poderosas ou se acusa o governo de fazer pouco para combater essas doações. Além disso, as acusações nem sempre implicam financiamento direto. Muitas vezes elas se referem ao apoio do reino ao wahhabismo, a corrente do islã sunita que é religião de Estado na Arábia Saudita e que guarda muitas semelhanças com a ideologia do "Estado Islâmico". Ao apoiar financeiramente a disseminação do wahhabismo, a um custo estimado de cem bilhões de dólares ao longo de décadas, o reino teria apoiado indiretamente também o terrorismo, afirmam os críticos. Declarações de altos funcionários do governo dos EUA, reveladas pelo Wikileaks, mostram que os Estados Unidos desconfiam de que dinheiro saudita tenha alimentando grupos terroristas. Numa delas, John Podesta, que foi chefe de campanha da democrata Hillary Clinton, que, por sua vez, foi secretária de Estado de 2009 a 2013, afirma: "Temos de usar nossos meios diplomáticos e os mais tradicionais de inteligência para fazer pressão sobre os governos do Catar e da Arábia Saudita, que estão fornecendo apoio financeiro e logístico clandestino ao Isis e outros grupos radicais sunitas na região". Isis é uma antiga designação para o "Estado Islâmico". Já um telegrama diplomático do Departamento de Estado, revelado em 2009 pelo Wikileaks, afirma que "doações na Arábia Saudita constituem a mais significativa fonte de financiamento de grupos terroristas sunitas no mundo". E há um terceiro documento no qual Hillary afirma, em 2013, que "os sauditas e outros estão enviando grandes quantidades de armas – e de forma bem indiscriminada – de forma alguma para pessoas que nós consideramos as mais moderadas". O governo saudita rejeita categoricamente que tenha enviado dinheiro ao "Estado Islâmico" e à Al Qaeda. De fato, o relatório da comissão americana que investigou o 11 de Setembro afirmou "não ter encontrado evidências de que o governo saudita, como instituição, ou altos funcionários sauditas individualmente tenham financiado a [Al Qaeda]." Também o centro de estudos Washington Institute afirmou, em 2014, que "não há evidência credível de que o governo saudita esteja apoiando financeiramente o Isis. Riad vê o grupo como uma organização terrorista que representa uma ameaça direta à segurança do reino". Porém, o relatório da comissão do 11 de Setembro afirma também que não exclui a possibilidade de que instituições doadoras "com significativo patrocínio do governo saudita" tenham desviado fundos para a Al Qaeda. E o Washington Institute afirma que "há apoio para o Isis dentro da Arábia Saudita, e o grupo mira cidadãos sauditas em campanhas de arrecadação". Bem mais provável, portanto, é que as declarações sobre o apoio saudita se refiram a doações privadas, feitas por pessoas importantes dentro da sociedade, e muitas delas podem ter conexões com a família real. Nas palavras do Washington Institute, "acredita-se que doadores sauditas e outros contribuintes privados sejam a fonte mais significativa de financiamento para os antecessores do Isis". Mas, se no passado o governo da Arábia Saudita foi complacente com essas doações, essa situação parece ter mudado depois do 11 de Setembro e de uma série de atentados do "Estado Islâmico" e da Al Qaeda no próprio país, em 2003. Desde então, o reino adotou uma linha bem mais rígida contra o terrorismo islâmico, por exemplo monitorando o sistema financeiro do país, e passou a colaborar ativamente com os Estados Unidos e a Europa. Só que os avanços não bastam, na opinião dos americanos. "Riad poderia fazer muito mais para limitar o financiamento privado", afirma o Washington Institute, para quem cidadãos sauditas continuam encontrando caminhos para financiar o extremismo islâmico. A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.

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