Onde Trump é recebido de braços abertos na Europa

Teri Schultz (av)

Discurso em Varsóvia teve boa ressonância - às custas de alfinetadas na UE e na Rússia. Uma jogada estratégica: na Polônia, onde cresce a "direita alternativa", suas ideias encontram o apoio que não terão no G20.Se Donald Trump escolheu Varsóvia para sua primeira visita importante na Europa por partir do princípio que não haveria manifestantes nas ruas, então a capital da Polônia não o desapontou. Enquanto em Hamburgo já eclodiam os protestos, antecipando a chegada do presidente dos Estados Unidos para a cúpula do G20, o único sinal mais veemente de insatisfação com a aparição de Trump em Varsóvia foi a mensagem do Greenpeace num edifício, lamentando a retirada americana do Acordo de Paris sobre o Clima. O líder republicano tampouco decepcionou os poloneses. Num discurso elogiando o país por tudo, de seu "espírito de triunfo" contra anos de opressão até o fato de estar empregando em defesa os 2% do PIB acordados, ele se deleitou na adoração da multidão e a refletiu de volta. "No povo polonês, vemos a alma da Europa", disse aos presentes, parte dos quais havia sido transportada até a Praça Krasinski em ônibus do governo. Admiração Zbigniew Lewicki, professor do Instituto Polonês de Relações Internacionais, está entre os admiradores, não só do pronunciamento, mas daquilo que ele percebeu como uma apresentação emocional de anedotas, como a sobre a defesa dos bairros de Varsóvia pelos moradores, durante a ocupação nazista. "Ele mencionou aspectos específicos, ele mencionou nomes de ruas, ele mencionou pessoas, gente relacionada ao fato. Um presidente americano vir a Varsóvia e apresentar conhecimento detalhado sobre aquilo que nos é caro – isso é tão importante para nós." Alguns observadores também destacaram a menção positiva à Europa, em comparação com comentários anteriores de Trump. "Uma Europa forte é uma bênção para o Ocidente e para o mundo", disse o político republicano. Numa conferência paralela à cúpula da Iniciativa dos Três Mares, a que Trump esteve presente, o ministro da Eslováquia para Assuntos Estrangeiros e da União Europeia, Ivan Korcok, comentou que só essa frase já "fez um bom dia para a comunidade transatlântica". "Há mais clareza, agora", e esta servirá para fortalecer a segurança e defesa europeias, disse. Alfinetadas na UE Erik Brattberg, do think tank Carnegie Endowment for International Peace, em Washington, acredita que o texto de Varsóvia será lembrado principalmente pela menção ao comprometimento com a defesa coletiva dos países membros da Otan, contida no Artigo 5º Tratado do Atlântico Norte. "Esta foi a primeira vez que Trump disse essas palavras num discurso de peso. É provável que seus consultores tenham feito controle de dano, depois do desastroso discurso dele no quartel-general da Otan. O resultado sugere que os assessores de segurança nacional do presidente tiveram a palavra final na confecção do discurso." Para outros analistas, o pronunciamento criou mais divisões do que pontes. Tyson Barker, diretor de programação do Instituto Aspen de Berlim, lembrou que em nenhum momento o chefe de Estado americano mencionou a União Europeia, enquanto "suas observações sobre 'o avanço contínuo da burocracia' foram uma acusação clara à UE". Também sua condenação "daqueles que acreditam que o Ocidente se tornou grande graças a 'papelada e regulamentos' foi uma estocada em Bruxelas", afirmou Barker. Além disso, a defesa da "civilização ocidental" e de seus valores, que fez a multidão exultar, significa para ele algo muito diferente – "família, Deus, identidade nacional, heróis nacionais" – do que para os europeus. Estes, acredita Barker, enumerariam antes qualidades como "pluralismo, direitos das minorias, governança limpa, instituições independentes e cooperação internacional". Hamburgo é outra história Hannah Thoburn, pesquisadora associada do Hudson Institute, concorda que certos temas do pronunciamento, que soam pouco problemáticos para um observador externo, contêm armadilhas políticas subjacentes na Europa. Para grande consternação da UE, "foi um discurso muito centrado nos mesmos temas da 'direita alternativa' que tem promovido o partido governista polonês, o Lei e Justiça". "Embora não o tenha dito, o presidente Trump obviamente concorda com a decisão da Polônia e da Hungria de não aceitar refugiados da Síria, uma decisão pela qual a UE as está processando." Na opinião de Thoburn, tirando-se o apoio ao Artigo 5º da Otan e a crítica a Moscou por interferir na Ucrânia e na Síria, as palavras do americano "provavelmente não serão bem aceitas por líderes da Europa Ocidental como [o presidente da França, Emmanuel] Macron e [a chanceler federal alemã, Angela] Merkel, com os quais ele conversará no G20." Também cabe ver como o presidente russo, Vladimir Putin, reagirá ao apoio moral de Trump a Varsóvia, sua crítica à intervenção do Kremlin na Ucrânia e à defesa de que se aumentem as exportações de gás líquido dos Estados Unidos, como meio de promover uma maior independência em relação à Rússia. Fazer boa figura na Polônia é uma coisa: em Hamburgo Donald Trump tem pela frente uma multidão bem mais ríspida.

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