Sob temor de crise, Itália se prepara para nova eleição

Pleito convocado para março ameaça abrir período de limbo político na terceira maior economia da Europa. Hoje, não há qualquer perspectiva de que, das urnas, saia um governo estável: um teste para Roma e para Bruxelas.O presidente da Itália, Sergio Mattarella, dissolveu nesta quinta-feira (28/12) o Parlamento, com o objetivo de abrir caminho para eleições gerais que ameaçam abrir um período de instabilidade política na terceira maior economia da União Europeia.

Parte da incerteza se dá pelo fato de a eleição, marcada para 4 de março, ser a primeira realizada desde a reforma eleitoral, aprovada em outubro. Segundo o novo sistema, que beneficia coalizões, o pleito não deverá ter um vencedor claro.

"Não vamos fazer drama sobre o risco de instabilidade: estamos bastante vacinados contra isso", disse o atual premiê, Paolo Gentiloni, em referência às constantes trocas de governo na Itália – foram mais de 60 desde o fim da Segunda Guerra.

Populismo e incerteza

O movimento anti-estabilishment 5-Estrelas (M5S) está à frente nas pesquisas de opinião, com cerca de 28% das intenções de voto, seguido pelo governante Partido Democrático (PD), de Gentiloni, que tem 23%.

Mas a maioria das cadeiras no Parlamento deve ir para a aliança feita pelo partido Força Itália, de Silvio Berlusconi, dono de 16% das intenções de voto, e as legendas populistas de direita e eurocéticas Liga Norte (13%) e Irmãos da Itália (5%).

O panorama deve ser um teste não apenas para a política italiana mas também para a União Europeia, que viu no último ano, em meio à crise migratória, a ascensão de partidos nacionalistas e populistas de direita em alguns de seus Estados-membros.

Em tradicional entrevista coletiva de fim de ano, o primeiro-ministro apelou aos políticos que não espalhem medo e façam promessas surreais durante a campanha, que deve ser centrada na dívida estatal italiana e na questão migratória.

"Acho que é de interesse de nosso país ter uma campanha eleitoral que limite ao máximo possível a difusão de medo e ilusão – são esses os riscos que temos diante de nós", afirmou Gentiloni.

Novo sistema

O novo sistema eleitoral, uma mistura de representação proporcional e voto nominal, deve beneficiar partidos que formam coalizões antes da eleição, algo que o Movimento 5-Estrelas sempre descartou.

Na Itália, haverá a partir de agora um sistema misto: um terço dos parlamentares será eleito em colégios majoritários com apenas um candidato por partido ou coalizão em cada distrito, sendo eleito o mais votado; o restante será escolhido de forma proporcional, através de listas fechadas.

Quem opôs mais resistência a este sistema foi o Movimento 5-Estrelas, que considera que ele foi idealizado por essas legendas para beneficiar as coalizões e prejudicar suas aspirações - o partido sempre assegurou que vai disputar as eleições sozinho.

O M5S também protestou contra o método escolhido pelo governo para aprovar o sistema eleitoral através de votos de confiança, para eliminar o debate parlamentar dos artigos e os possíveis franco-atiradores, os parlamentares que votam em segredo contra as diretrizes do seu próprio partido.

O novo sistema eleitoral prevê que 36% das cadeiras da Câmara dos Deputados e do Senado serão atribuídas com um sistema majoritário baseado em circunscrições de indicação única, e 64%, de forma proporcional.

Entre outras coisas estabelece um limite eleitoral de 3% dos votos para que os partidos possam entrar nas câmaras e de 10% em caso de estarem agrupados em coalizões.

A dissolução do Parlamento marca, dias antes de seu fim oficial, o encerramento de uma das legislaturas mais confusas das últimas décadas na Itália, que teve três governos distintos - Enrico Letta, Matteo Renzi e Gentiloni - e termina como começou: confusa e envolta em incerteza.

O temor é de que o resultado de março possa gerar um limbo político, com nenhum partido ou aliança chegando à marca 40% dos votos, algo que, num "cenário italiano", analistas veem como uma margem razoável para governar com tranquilidade.

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