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Opinião: Política e religião - uma disputa eterna

Michel Friedman

22/03/2018 14h01

Ao dizer que o islã não faz parte da Alemanha, o ministro do Interior alemão parece não ter entendido o seu papel, que também é defender a Constituição e a liberdade religiosa, opina Michel Friedman.Horst Seehofer não disse que o "islã político" não é parte da Alemanha. Ele tampouco disse que o "islamismo" não é parte da Alemanha. Suas palavras foram claras e inequívocas: "O islã não faz parte da Alemanha". E isso não é por acaso. O ministro do Interior sabe o que está fazendo. Ele quer isso. E isso é chamado de premeditação.

Milhões de alemães com fé islâmica vivem no país. E não somente por causa disso o islã é uma realidade na República Federal da Alemanha, mas também por princípio. Justamente o ministro do Interior, que também tem papel de proteger a Constituição, deveria conhecer o Artigo 4º da Lei Fundamental (Constituição).

Nela está definida a liberdade religiosa: todo ser humano pode acreditar naquilo que quiser. Toda religião é possível, toda fé concebível, desde que não viole a Lei Fundamental. Ter como político a presunção de negar a uma religião mundial sua existência como parte da realidade religiosa-social na Alemanha reflete uma compreensão muito duvidosa da liberdade religiosa.

Essa exclusão do islã não é histórica nem sociopoliticamente compreensível. Ninguém questiona que o cristianismo foi a religião dominante na Europa por muitos séculos. Mas esse Ocidente cristão, que muitos elogiam, nem sempre teve um senso religioso moderno. Muito pelo contrário: aqui também houve parcerias entre poderes religiosos e seculares. Guerras religiosas. Missões agressivas. Reflexos antijudaicos desde o princípio. Martinho Lutero, o reformador – um brutal antissemita.

Assim sendo, quando falamos da simbiose cristão-judaica, distanciando-se do islã, devemos pensar do que estamos realmente falando. Durante séculos, esta simbiose foi delimitadora, formadora de guetos, sangrenta, devastadora. O Holocausto mostrou quanto o até então desconhecido ódio mortal contra judeus era cultural e religiosamente enraizado na Europa, especialmente na Alemanha.

O islã é uma das três religiões monoteístas do mundo. Mas não se pode falar de "um" islã. Em muitos países, é uma religião estatal e, na maioria deles, que são ditaduras, há uma simbiose indescritível entre Estado e poder religioso – assim como por muito tempo na Europa. Este islamismo político, que primariamente subjuga os muçulmanos e – assim como o cristianismo por muito tempo – tem um propósito agressivo e de imperialismo religioso, precisa ser combatido com todas as forças.

Mas estigmatizar o islã em si não é tarefa de um ministro do Interior, que, também na função de ministro de Assuntos Religiosos, é ao mesmo tempo responsável por representar o respeito por todas as religiões.

No partido Alternativa para a Alemanha (AfD), o islã é uma palavra obscena. Uma metáfora na qual é embrulhado o ódio contra os "estranhos". Indiferentes, generalizando, os funcionários da AfD e seus simpatizantes – mas não apenas eles – manipulam os medos dos cidadãos ao apresentar o islã como o maior de todos os perigos. Eles citam sociedades paralelas nas quais a legislação alemã não é respeitada. Eles falam de desrespeito à igualdade de gênero, de intolerância em relação aos homossexuais.

É indiscutível que tudo isso, de fato, existe. Mas também muitos seguidores da AfD formam uma sociedade paralela: eles não respeitam o Artigo 1º da Lei Fundamental ("A dignidade do ser humano é inviolável"), na qual eles estigmatizam e insultam grupos inteiros. Sua islamofobia é quase o mesmo que o ódio contra os judeus.

E, sim, é verdade – também entre os muçulmanos na Europa se exprime a horrível feição do ódio contra judeus. Mas o ódio nazista aos judeus ainda é claramente visível em partes dos novos grupos de extremistas de direita. Nada deve ser contrabalanceado – uma coisa não melhora a outra. Apenas deixa claro que aqueles que falam em prol da AfD são em parte igualmente inimigos constitucionais e da humanidade como aqueles que os denunciam.

Em vez de se envolver no debate nacional de forma diferenciada e responsável, Seehofer põe mais lenha populista na velha fogueira. Distanciar-se da AfD é tão importante quanto se distanciar do islã político. Não assumir sua linguagem faz parte da responsabilidade de seu cargo. Nenhum político tem o direito de julgar se uma religião faz parte ou não de seu país.

Se religião – não importa qual – for usada como pretexto para cometer crimes ou violar a Lei Fundamental, cabe à polícia e à Justiça lidar com o caso. Pois nenhuma religião está acima da lei. Mas quaisquer outros temas em questões de fé não dizem respeito à política. Este também é o resultado da história europeia, que desde o iluminismo conhece a separação entre estado e religião.

Tudo isso é do conhecimento de Seehofer. E se, mesmo assim, ele se comportar de maneira diferente, então a crítica é apropriada. Isso não tem nada a ver com o fato de que na Alemanha não se pode dizer o que se pensa, como afirmam alguns. Neste país se pode dizer tudo. E Seehofer faz uso desta liberdade com bastante frequência. Isso é suportável.

Mas é preciso que Seehofer e seus seguidores aceitem a existência de outra opinião. Em todo o caso, penso que numa época em que populistas de direita estão sentados nos parlamentos, em que desinibição se tornou cotidiana e os ataques incendiários se tornaram habituais no discurso social, neste momento, os políticos dos partidos democráticos deveriam enviar um sinal distinto e claro: o de respeito.

Michel Friedman é advogado, autor, comentarista político e apresentador de televisão. Ele é também professor de direito imobiliário e de mídia na Universidade de Ciências Aplicadas de Frankfurt. Na DW, Friedman modera os talk shows "Conflict Zone" e "On a Word... com Michel Friedman".

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