Com falta de recursos e corrupção, o SUS adoece

Thomas Milz

  • Thomas Milz

    Pacientes aguardam para ser atendidos no Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio

    Pacientes aguardam para ser atendidos no Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio

Foram especialistas do Sistema Único de Saúde que salvaram a vida de Jair Bolsonaro após o atentado. Mas o cotidiano de um projeto nacional tido como único é marcado por ineficiência, burocracia e corrupção. O paciente que, na quinta-feira passada (12), deu entrada na Santa Casa de Juiz de Fora recebeu dos médicos o alerta de urgência máxima para o atendimento. Exatos 15 minutos depois começou a operação de emergência que salvou a vida do candidato à Presidência Jair Bolsonaro, ferido com uma facada. O médico que o atendeu receberá R$ 367,06 do SUS pelo seu trabalho. O hospital, R$ 1.090,80.

O SUS garante um atendimento gratuito para todos e é extremamente importante num país onde a maioria da população não pode se dar o luxo de ter um plano de saúde privado. Governo federal, estados e municípios arcam com os custos.

"A ideia do SUS, que atinge toda a população, é muito boa", diz a médica radiologista Flávia Engel  Aduan. Mas, apesar de bom no conceito, o SUS sofre com a falta de recursos em muitas regiões, um reflexo do déficit orçamentário de estados e municípios.

Todas as quartas-feiras, a radiologista realiza biópsias no Hospital do Câncer 3, uma das quatro clínicas especializadas do Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro. Atrás das instalações, no bairro Vila Isabel, está o Morro dos Macacos. Quando chove, a água não canalizada que desce do morro entra no hospital, uma das unidades mais modernas do SUS graças a investimentos diretos do Ministério da Saúde.

Nos corredores do Hospital do Câncer 3, Kátia Aparecida está aliviada, pois finalmente a mãe dela será submetida a uma biopsia para identificação de câncer de mama. "Não podemos mais esperar", comenta. Em Santa Cruz, na periferia do Rio, onde ela mora, não há clínica da família. O pai dela, que tem câncer na próstata, espera há um ano por uma consulta com um urologista. Kátia já pagou R$ 2.700 do próprio bolso para exames em clínicas privadas. Mas, com os dois pais doentes, ela não pode mais trabalhar, e o dinheiro está escasso.

Tido como único no mundo, o SUS é um sistema tripartite. A base é formada pelas clínicas da família e pelos postos de saúde, que oferecem atendimento básico em bairros de cidades grandes e nos municípios menores. Os hospitais da assistência secundária tratam doenças comuns e realizam cirurgias menores. O terceiro nível é formado pelas clínicas especializadas, como o Inca.

"Bom, assim é na teoria. Mas na prática, não funciona assim", diz Flávia. O atendimento básico muitas vezes carece de ataduras, medicamentos e também de médicos, o que reflete a falta de dinheiro dos municípios. Por isso, muitos pacientes vão aos hospitais da assistência secundária, onde o atendimento de emergência é sobrecarregado com casos que não são de emergência. "Isso sobrecarrega o sistema secundário, e o sistema terciário vai na mesma onda. Vira um efeito cascata."

Na zona sul do Rio, as unidades do SUS estão sobrecarregadas com pacientes da periferia da cidade e do interior. "Em muitos municípios do estado do Rio, a política de saúde pública se limita à compra de ambulâncias. Pega uma ambulância e despeja o paciente no sistema da capital", diz Flávia.

O mesmo acontece em todo o Brasil. Como as unidades primárias não funcionam, pacientes costumam ser transportados de ambulância, por centenas de quilômetros, para capitais ou outras grandes cidades. Em clínicas especiais de Teresina, por exemplo, há pacientes de todo o Nordeste, e em Goiânia, de todo o Centro-Oeste. Como consequência dessa concentração, o governo acaba destinando mais recursos para esses locais, e as condições precárias nas unidades primárias não se alteram.

O programa Mais Médicos, iniciado em 2013, deveria preencher essa lacuna e enviar médicos para as regiões onde há carências de profissionais. Como havia poucos candidatos, a saída encontrada foi contratar médicos cubanos. "Não é só que os médicos brasileiros não querem ir. O problema é que lá não tem recursos nas clínicas, não tem medicação, não tem equipamento", afirma Flávia.

Ela trabalhou durante anos no Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Uerj. Nos dois anos finais, pagou do próprio bolso as agulhas necessárias para a biópsia. "Dinheiro até tinha, mas faltava gestão", comenta. A burocracia sobrecarregava os médicos que cuidavam da administração do hospital e os transformava em vítimas fáceis da corrupção. Hoje, o ex-secretário da Saúde do Rio Sérgio Côrtes é acusado de fraude em licitações.

Também as listas de espera dão margem à corrupção. Há algumas semanas, a imprensa carioca noticiou que o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, ofereceu cirurgias de catarata para pastores em até duas semanas. O tempo normal de espera é de vários anos.

O sistema central de distribuição de consultas tem problemas bem maiores. "Encaixar o paciente onde tem vaga é uma ideia linda, só que não funciona", afirma Flávia. E exemplifica: um cirurgião não necessariamente vai confiar no raio-x feito por um radiologista que ele não conhece num outro hospital. "Agora multiplica isso por milhões de pacientes. Acabou a troca de informações entre as unidades, as clínicas não se comunicam mais." O resultado é uma situação caótica.

Flávia decidiu abrir a própria clínica na zona sul do Rio, mas continua fazendo biópsias no Inca por se sentir ligada ao SUS. "Saúde é um direito de todos e um dever do Estado. É uma ideia genial e maravilhosa, e seria maravilhoso se funcionasse, principalmente esse tapete da assistência básica."

Bolsonaro, poucas horas depois de ser atendido de forma bem-sucedida pelo SUS, foi transferido para um dos hospitais privados mais caros de São Paulo.


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