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Cefalônia guarda memória de um crime nazista na Grécia

Florian Schmitz (av)

24/09/2018 14h14

Em setembro de 1943, a Wehrmacht matou cerca de 5.200 soldados da Itália na ilha grega. Evento sangrento representou guinada nas relações ítalo-gregas.A ilha grega de Cefalônia, no Mar Jônico, é um paraíso de férias para muitos turistas, inclusive alemães. Praias paradisíacas e água azul-turquesa atraem milhares de viajantes a cada ano. A arquitetura recorda que, do século 13 ao 18, o local pertenceu a Veneza. Até hoje ele é um mistura de influências italianas e gregas – mas as duas culturas também estão conectadas pelo trauma.

Longe das praias turísticas, numa colina da capital, Argostoli, um memorial recorda um episódio sangrento da história da ilha. Em setembro de 1943, na Segunda Guerra Mundial, em seguida à ruptura entre a Alemanha nazista e a Itália fascista, a Wehrmacht massacrou cerca de 5.200 soldados da divisão italiana Acqui, num dos piores crimes de guerra da Europa meridional.

Clotilde Perrotta é a presidente da associação cultural ítalo-grega Mediterraneo, na ilha. "De início, estávamos principalmente interessados em exposições e concertos", diz a italiana nascida em Cefalônia. Mas aí passou-se a focar a história, em particular o massacre de 1943. "Desde então, temos um pequeno museu. E em 2003 até tivemos uma conferência com convidados e pesquisadores da Grécia, Itália e Alemanha."



De ocupação a solidariedade e resistência

Após a ocupação da Grécia, em 1941, primeiro pela Itália fascista e depois pela Wehrmacht alemã, a Cefalônia e outras ilhas jônicas ficaram sob administração militar italiana. Quando, em 8 de setembro de 1943, chegaram as notícias de que a Itália se rendera aos Aliados, rompeu-se a aliança entre Hitler e Mussolini.

Os soldados nazistas já estacionados em Cefalônia receberam reforços e assumiram o controle da ilha. O comandante Antonio Gandin, um ardente admirador de Hitler, viu aí uma oportunidade de, em vez de capitular, se unir às tropas alemãs.



O militar submeteu a ideia a voto entre seus homens, mas a decisão foi de combater os nazistas. Seguiram-se batalhas pesadas contra a Wehrmacht, em que um total de 1.300 italianos morreu, contra apenas uns 40 soldados alemães. A partir de 21 de setembro, o Exército nazista passou a fuzilar os italianos que já haviam se rendido, sem julgamento nem misericórdia. Três dias mais tarde, 5.200 soldados haviam sido executados desse modo.

Para os habitantes gregos de Cefalônia, os anos sob ocupação italiana haviam sido relativamente pacíficos, longe do sofrimento da população grega no continente, que passava fome e era assassinada às centenas e milhares pela Wehrmacht. Isso mudou com a invasão alemã.

"Ao ver como os alemães tinham massacrado a sangue frio os soldados italianos, as pessoas ficaram horrorizadas", explica Perrotta. Inimigos se transformaram em aliados, com os gregos escondendo os militares para salvá-los da morte. Até hoje, a relação ítalo-grega é muito menos complicada do que a entre a Grécia e a Alemanha.

Censurado para turistas alemães

A tradutora alemã Doris Wille mora em Cefalônia há quase 30 anos. Há muito o massacre a acompanha, em seu trabalho e no contato com os moradores. No entanto ela ficou sabendo do episódio histórico por acaso.

"Eu já vivia aqui há alguns anos quando ouvi falar do massacre pela primeira vez, no fim dos anos 1990. Eu estava traduzindo um guia turístico sobre a ilha e vi que a versão italiana tinha um capítulo a respeito, que simplesmente não existia na versão alemã. Quando perguntei à autora [grega] sobre o assunto, ela respondeu que não se podia esperar que os turistas alemães fossem capazes de lidar com ele. Por isso, ela o deixara de fora."



Muito mudou, desde então. Sobretudo o filme O capitão Corelli, de 2001, que trata dos anos da ocupação e do massacre, divulgou esse período para um público mais amplo. Muitos dos figurantes mais idosos haviam presenciado os fatos pessoalmente, alguns participaram da resistência.

O tempo uniu gregos e italianos, afirma Wille. Amizades se formaram, algumas das quais se mantêm até hoje. "Conheço uma testemunha da época que até hoje recebe visitas dos filhos de um sobrevivente." No entanto ela acha que um aspecto é negligenciado ao se tratar do massacre.

"O que se costuma esquecer, no tocante à horrível magnitude desse crime de guerra, é que também houve grande sofrimento entre a população grega. Nos 12 meses seguintes, de ocupação alemã, aldeias foram incendiadas e habitantes, executados."

Nos últimos anos houve um incremento das publicações sobre o tema, enfatiza a autora. Mas a Alemanha ainda tem muito a fazer para compreender os anos de ocupação na Grécia.

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