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Opinião: Por que os brasileiros escolheram Bolsonaro

Hildegard Stausberg

30/10/2018 16h11

Para a jornalista Hildegard Stausberg, eleitores de Bolsonaro não são necessariamente racistas, misóginos ou fãs da ditadura. Eles estão fartos da corrupção e do PT e enviaram advertência à classe política e econômica.O Brasil tem um novo presidente, confirmado com ampla maioria de 55% no segundo turno eleitoral. A maior parte dos comentaristas internacionais, porém, não dá atenção a esse fato – eles se superam na repetição dos descalabros pronunciados por Jair Bolsonaro nos últimos anos.

De fato, entre essas frases há coisas muito, muito indigestas. Mas nada disso impediu a maioria dos eleitores brasileiros de votar nele. Então serão todos eles racistas, misóginos, homófobos ou fãs da ditadura?

E o que dizer da economia brasileira e mesmo dos mercados internacionais: lá foi unanimemente positiva a reação ao resultado das urnas no quinto maior país do mundo, que ocupa o nono lugar entre as economias nacionais, com um PIB de 2,1 trilhões de dólares. As bolsas subiram até 5%, o real alcançou sua cotação mais alta desde maio – sendo que nas semanas anteriores crescera cerca de 10% em relação ao dólar, já na expectativa de uma vitória de Bolsonaro.

O que está, então, acontecendo no Brasil? É realmente preciso duvidar da "maturidade democrática" da maior parte da população, como se lê nos jornais alemães? A verdade é certamente mais complexa: após anos da recessão mais dura de todos os tempos e de colossais escândalos de corrupção, elegeu-se o homem que não estava envolvido em nada disso.

Pois isso também faz parte do quadro político completo: Bolsonaro ocupa há anos um cargo no Congresso, mas – apesar de buscas intensivas – não foi possível encontrar qualquer conexão entre ele e os megaescândalos de corrupção da Operação Lava Jato.

Esse não é o caso da esmagadora maioria da classe política do país, afundada até o pescoço no pântano de corrupção revelado pela Operação Lava Jato. Esta iniciou no Sul do Brasil, mas logo se revelaram incríveis ramificações pela política adentro e por grandes empresas nacionais, como a gigante multinacional da construção Odebrecht ou a petrolífera semiestatal Petrobras.

Nesse ponto é surpreendente que a Justiça brasileira estivesse disposta e em condições de realizar uma revisão tão consequente desse nó de corrupção. Há muito as ramificações alcançaram também os vizinhos latino-americanos, causando até mesmo a queda de um presidente no Peru.

A vitória eleitoral de Bolsonaro deve, assim, ser vista menos como concordância com suas em parte escandalosas opiniões políticas e sociopolíticas, mas sobretudo como uma advertência, nascida do protesto, às elites políticas e à classe econômica entrelaçada com elas.

E, claro, essa vitória é também e talvez acima de tudo um acerto de contas com o PT. O medo do PT foi maior do que o medo de um populista de extrema direita. O estado catastrófico na vizinha Venezuela também não deixa de ter seu efeito: todo brasileiro pode ver aonde levam experimentos socialistas.

Por isso certamente não foi boa prática o candidato petista, Fernando Haddad, criticar só tardiamente as condições venezuelanas e, mesmo assim, com hesitação. Isso despertou, em muitos brasileiros, duvidosas lembranças do flerte político que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre cultivou com o regime de Caracas.

Por último, mas não menos importante, uma parte dos brasileiros mais velhos não tem só lembranças negativas do governo militar de 1964 a 1985. O então praticado modelo econômico brasileiro de desenvolvimento, direcionado e fomentado pelo Estado, trouxe ao país muitos anos de rápido crescimento. Foram também tempos de mais segurança. A máfia das drogas ainda não tinha influência nas favelas, e os bairros pobres ainda não eram áreas aonde não se podia ir.

Isso leva a uma última explicação para a vitória eleitoral de Bolsonaro: a criminalidade transbordante e a influência crescente dos cartéis criminosos internacionais no Brasil. Bolsonaro pretende investir duro nesse ponto: isso é bem recebido num país com uma taxa de homicídios superior até à do México.

A jornalista Hildegard Stausberg é especialista em América Latina do jornal alemão Die Welt e foi chefe do então Programa Ibero-Latino-Americano da DW de 1993 a 1999.

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