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Bolsonaro em Davos: uma vitrine desperdiçada

Jean-Philip Struck

25/01/2019 18h21

Era alta a expectativa sobre a estreia internacional do presidente no Fórum Econômico Mundial. Mas, para especialistas, participação evidenciou inexperiência e emitiu sinais preocupantes para o exterior.A expectativa sobre a estreia de Jair Bolsonaro em palcos internacionais era enorme. Após anos de perda de protagonismo do Brasil no exterior, caberia a um mandatário do país fazer o discurso de abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, que reúne não apenas líderes mundiais, mas alguns dos principais nomes da indústria e das finanças do planeta.

Além disso, diante da ausência já anunciada de líderes como Donald Trump, Xi Jinping e Emmanuel Macron, esperava-se que o recém-empossado Bolsonaro seria a grande estrela do encontro. Também era uma oportunidade para que o mandatário detalhasse sua agenda e reformas e acalmasse qualquer receio no exterior sobre seu desempenho.

Bolsonaro permaneceu em Davos por mais tempo que qualquer outro de seus antecessores na Presidência. Foram quatro dias no total.

No entanto, a participação do presidente, segundo especialistas, acabou sendo uma oportunidade desperdiçada, seja para dissipar a desconfiança de parte da comunidade internacional e dos investidores, seja para detalhar suas reformas econômicas. Para piorar, a viagem ainda foi marcada por notícias negativas envolvendo um de seus filhos e pela disposição do presidente em antagonizar com a imprensa.

O discurso vago e curto

Para o cientista político Maurício Santoro, professor de relações internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), um dos pontos mais críticos da participação de Bolsonaro foi seu discurso na abertura do encontro. Foi um pronunciamento relâmpago, de cerca de seis minutos, sendo que os organizadores do fórum haviam reservado 45 minutos para o discurso e para uma rodada de perguntas.

Bolsonaro usou a oportunidade para repetir alguns temas que já haviam sido explorados nas suas falas durante a posse, como as afirmações de que seu governo "não terá viés ideológico" e "defenderá a família". Também explorou de maneira vaga alguns dos pontos que mais interessavam os participantes, como a preservação do meio ambiente e uma maior abertura comercial. Temas como déficit público e reforma da Previdência ficaram de fora.

"Ele poderia ter detalhado sua agenda de reformas. Seu discurso acabou sendo muito vago e repleto de jargões da sua campanha eleitoral. Algumas coisas podem até ter gerado boa repercussão, como a abordagem do meio ambiente e da abertura comercial, mas ao mesmo tempo não foi suficiente para eliminar as dúvidas que cercam Bolsonaro", avalia Santoro, apontando que as falas sobre esses dois temas careceram de detalhamento.

Um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que integrou a comitiva, afirmou que a Previdência não foi abordada porque isso interessa "muito mais ao público brasileiro". Mas, segundo Santoro, o tema está justamente inserido na questão do déficit, que interessa investidores internacionais.

Preferência pelos "antiglobalistas"

O discurso acabou sendo mal avaliado pela imprensa internacional. Houve ainda dúvidas sobre quem teria sido o autor do discurso relâmpago. A revista Época afirmou que o redator foi o jovem assessor internacional de Bolsonaro, Filipe G. Martins, um pupilo do filósofo ultraconservador e antiglobalista Olavo de Carvalho. Pelo Twitter, Martins tentou minimizar a questão da autoria e afirmou que Bolsonaro "tem escrito seus próprios discursos" e que em "Davos não foi diferente".

Para o cientista político Oliver Stuenkel, da FGV-SP, o discurso ficou "aquém das expectativas", e o comportamento do presidente ao longo da viagem demonstrou a sua falta de experiência. "Ele tinha uma oportunidade única para detalhar quais são seu planos, mas observadores ficaram perplexos com a fala. Chegaram a achar que era uma espécie de introdução que iria preceder o que realmente interessava. Mas aquele acabou sendo o discurso todo."

Stuenkel também aponta que o teor do discurso e sua autoria demonstraram um "sinal preocupante" de que o presidente deu preferência aos "antiglobalistas" do seu governo durante a viagem, justamente em um evento como o Fórum de Davos.

"O governo tem diferentes alas, como a antiglobalista, a militar e a dos economistas. Bolsonaro falou pela primeira", afirma Stuenkel. "Para acalmar e incentivar os investidores, era melhor que o discurso tivesse sido escrito pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Do jeito que foi, colocou em dúvida a capacidade de Guedes de se impor. Se ele não tem o poder nem de influenciar um discurso, como vai convencer Bolsonaro a tomar as decisões mais difíceis na economia?"

Já Santoro, da Uerj, aponta que a questão da autoria demonstra uma desconfiança de Bolsonaro em relação à burocracia especializada do governo. "Esse tipo de discurso poderia ter sido feito pelo Itamaraty, que teria inserido dados que interessam o público do fórum. Bolsonaro nunca esteve em um evento assim. Ele precisa de auxílio nisso."

Agendas

Além de Guedes, Bolsonaro também levou a Davos os ministros Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores). Cada um deles participou de debates e encontros paralelos com líderes empresariais ou de países. Moro, por exemplo, aproveitou a ocasião para defender um pacto empresarial no Brasil contra a corrupção. Já Guedes teve uma maratona de reuniões com executivos e investidores. Segundo Stuenkel, a atuação de Guedes ao longo do fórum "consertou em parte o estrago feito pelo presidente".

Bolsonaro, por sua vez, teve encontros bilaterais com líderes de outros países. A agenda foi dominada por reuniões com chefes de Estado e de governo conservadores ou nacionalistas, entre eles líderes da Polônia, República Tcheca, Itália e Suíça.

Caso Flávio na bagagem

A viagem também foi sacudida por novas encrencas de um dos filhos do presidente, o deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Poucos dias antes da viagem, Flávio já havia atraído repercussão negativa após ter recorrido ao foro privilegiado para suspender uma investigação que envolve um de seus ex-assessores, que movimentou de maneira suspeita 7 milhões de reais entre 2014 e 2017.

Enquanto Bolsonaro estava em Davos, foi a vez de Flávio ser envolvido em uma operação policial contra milicianos e um grupo de extermínio do Rio de Janeiro. Na última terça-feira (22/01), o jornal O Globo revelou que Flávio empregou por anos a mulher e a mãe de um dos alvos principais da operação. O caso também resgatou homenagens oficiais do deputado a milicianos e uma série de antigas declarações inquietantes do senador eleito – e do próprio presidente – em defesa da milícia.

Em meio aos novos fatos negativos, a equipe de Bolsonaro decidiu cancelar em cima da hora uma entrevista coletiva no centro de imprensa do fórum. Além de Bolsonaro, eram esperados os ministros Sérgio Moro, Ernesto Araújo e Paulo Guedes. O cancelamento pegou de surpresa jornalistas brasileiros e internacionais. Sites e jornais reproduziram imagens das cadeiras vazias que haviam sido reservadas para Bolsonaro e seus ministros. "Ele passou a impressão de que queria evitar perguntas sobre Flávio. Passou uma imagem ruim", afirma Santoro.

Inicialmente, um assessor da Presidência afirmou que o cancelamento foi motivado pela "abordagem antiprofissional da imprensa". Mais tarde, foi a vez de o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, afirmar que a coletiva não ocorreu porque o presidente estava cansado. Depois, o próprio Bolsonaro reforçou a questão do cansaço e mencionou seu estado de saúde, mas também disse que "não tinha nenhuma novidade para apresentar à imprensa". Após o cancelamento, no entanto, ele concedeu uma entrevista exclusiva à TV Record, aliada do seu governo.

Ao final da viagem, Bolsonaro deu ainda uma entrevista ao jornal americano Washington Post. Ele disse que as suspeitas sobre Flávio são uma tentativa de atingir o seu governo. Quando perguntado sobre a relação de Flávio "com membros de gangues", Bolsonaro disse que o assunto não era "da conta" da repórter.

Para Stuenkel, a atitude do presidente em relação à imprensa, especialmente a internacional, em Davos também demonstrou falta de experiência. "Ao agir assim, Bolsonaro perdeu a oportunidade de tentar moldar a narrativa a seu favor. Ele poderia simplesmente ter dito que o fórum não era o melhor lugar para discutir o caso Flávio e, a seguir, falar de seus planos para a economia."

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