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Guerra da Rússia-Ucrânia

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Carta branca à espera de Trump? Como reeleição de Putin afeta o futuro da Rússia

Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin , e dos EUA, Donald Trump, se cumprimentam no G20, em 2019 Imagem: Kevin Lamarque/Reuters

20/03/2024 04h00

Não só em âmbito mundial, mas também, em parte, no próprio país, a eleição presidencial da Rússia foi encarada como mera formalidade - da mesma forma que o anúncio do "resultado recorde" que consagrou Vladimir Putin vencedor. A grande questão é: o que vem a seguir?

"Os proclamados 87% nas urnas são uma confirmação do regime e do curso cada vez mais ditatorial de Putin. O resultado não reflete a vontade do eleitorado, mas sim a do regime", analisa Regina Heller, consultora científica do Instituto de Pesquisa da Paz e Política de Segurança da Universidade de Hamburgo. No fim das contas, trata-se de "uma carta branca para o regime, para a política de Putin, e assim também para sua conduta na Ucrânia".

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O especialista no Leste Europeu Hans-Henning Schröder acredita que nos últimos tempos o regime se estabilizou, após uma crise em 2023, devido ao motim e posterior morte, numa queda de avião, do oligarca Yevgeny Prigozhin, líder do Grupo Wagner, um exército privado a serviço do Estado russo. Em resposta o Kremlin intensificou as atividades públicas do presidente, a fim de comunicar que "ele tinha as rédeas nas mãos".

Analistas atribuem o fortalecimento do regime a fatores como um contexto econômico estável e o amortecimento dos impactos negativos das sanções ocidentais, além da repressão em massa a quem se opõe à guerra contra a Ucrânia.

Tudo isso possibilita ao Kremlin continuar na mesma linha após a eleição. "O que já se pode ver desde já é que Putin seguirá no curso de prosseguir com a guerra, com brutalidade inabalada, e possivelmente até intensificada", prevê Heller.

Eleições no EUA também ditarão futuro dos russos

Há quem conte com um aumento dos impostos, até mesmo porque, falando à Assembleia Federal antes da eleição, Putin determinou que o governo elaborasse emendas à legislação tributária. A guerra tem um preço, recorda Schröder.

"O governo precisa de dinheiro, de mais arrecadação, e isso só será possível com um aumento dos impostos, o qual, é claro, fluirá sobretudo para a guerra", diz Gerhard Mangott, professor de ciências políticas da Universidade de Innsbruck, com especialização em relações internacionais e pesquisa de segurança no espaço pós-soviético.

Paralelamente, grande parte da população russa já conta com uma nova mobilização para a guerra, já que o presidente não abranda sua retórica militar, aponta Heller: "Vê-se que o apoio ocidental para a Ucrânia não é mais tão forte como talvez devesse ser." Do ponto de vista do Kremlin, esse poderia ser um bom pretexto para novamente tentar alterar as relações de força nos combates em favor da Rússia.

Por outro lado, ela lembra que uma convocação traz riscos, devido à grande fadiga de guerra entre a população russa. Por esse motivo, Mangott considera pouco provável que se realize uma nova mobilização em massa. Para Schröder, tudo depende de o que os russos esperam alcançar nos próximos meses no país invadido.

"Se eles querem uma ofensiva e realmente a subjugação da Ucrânia, vão precisar ampliar suas forças de combate consideravelmente, não só para vencer do ponto de vista militar, mas para manter o país sob controle." E complementa: "Minha impressão é que, pelo menos até as eleições [presidenciais] nos Estados Unidos, a questão é mais manter a predominância e dar a impressão de estar na rota da vitória, no país e no exterior."

Caso Joe Biden perca e Donald Trump volte a ser presidente, aí a situação se tornará muito pior para Kiev: nesse caso provavelmente seria supérflua uma nova mobilização na Rússia.

Uma nova elite de "príncipes vermelhos"

Os especialistas não contam com mudanças abrangentes dentro da própria liderança russa. "No momento não vejo nenhum grande ponto franco", comenta Schröder. Da perspectiva do Kremlin, o primeiro-ministro Mikhail Mishustin está fazendo um bom trabalho.

Após as reações da União Europeia e dos Estados Unidos à invasão da Ucrânia - que Moscou obviamente subestimara -, o Banco Central russo e os políticos de finanças conseguiram estabilizar a situação, e a inflação está sob controle, avalia o especialista em Leste Europeu. O deslocamento de transações econômicas que eram mantidas com a Europa para a Ásia também funcionou, portanto Putin não veria motivo para intervir.

Regina Heller lembra que, em seu discurso sobre a situação da nação, Putin anunciou que a Rússia precisa de uma nova elite, leal no tocante à guerra. Ele poderia estar se referindo a "príncipes vermelhos": filhos dos colaboradores do presidente, que ele conhece há muito tempo e lhe são totalmente devotos.

Para a consultora científica de Hamburgo, é provável uma reestruturação dentro da elite dominante, com consequências de longo prazo e visando preparar para a era pós-Putin a transição de poder controlada, a fim de assegurar a continuidade do sistema.

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