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Conflito no Iêmen evidencia velha inimizade entre sunitas e xiitas

29/03/2015 05h23

Álvaro Mellizo.

Teerã, 29 mar (EFE).- A ofensiva dos países árabes no Iêmen contra a milícia dos houthis Ansar Allah, "agressão imoral", segundo uns, ou ação para "combater aos rebeldes e resgatar ao país", segundo outros, voltou a pôr em evidência a velha inimizade entre sunitas e xiitas que está presente em cada conflito no Oriente Médio.

O cisma entre os dois principais ramos do islã em 680 no deserto de Mesopotâmia por causa de uma diferente interpretação sobre quem era o legítimo sucessor do profeta Maomé, ainda continuar a marcar as crises regionais, que ainda foram se somando aos problemas geoestratégicos, econômicos e políticos.

Estes apenas jogaram combustível em um conflito muito mais antigo do que os Estados que agora estão envolvidos nele.

O atual conflito no Iêmen coloca desta vez a Arábia Saudita e o Irã como os mais poderosos representantes dos dois ramos do islã, os primeiros como os ricos defensores de uma das visões sunitas mais ortodoxas e conservadoras, e os segundos como o maior país no qual o xiismo é o credo oficial e seus praticantes a arrasadora maioria.

Os dois países, envolvidos em uma luta mais ou menos implícita sobre a hegemonia regional, estão recrudescendo seus conflitos toda vez que o Irã, em pleno processo de degelo e se aproximando de forma inusitada o Ocidente pelas negociações nucleares, mantém ou aumenta sua influência em territórios que foram controlados por árabes sunitas, como o Iraque, ou onde eles têm domínio, como a Síria ou o Líbano.

No Iêmen, onde a população é majoritariamente sunita, mas que conta com uma importante minoria xiita de entre 20% e 45% da população, dependendo das fontes utilizadas, os visões e a linguagem que eles pregam sobre o conflito não poderiam ser mais opostas.

Assim, para os países da coalizão que iniciou a ofensiva aérea na quinta-feira (Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Egito, Jordânia, Marrocos e Sudão, além da Arábia Saudita) o argumento é apoiar o governo de Abdo Rabbo Mansour Hadi, presidente iemenita, sunita, obrigado a renunciar mês passado de janeiro após uma revolta popular liderada por xiitas.

Hadi pediu ajuda militar para voltar ao poder e eliminar os rebeldes, que segundo ele teriam sido instigados e apoiados com dinheiro e armas pelo Irã, com o objetivo de se instalarem no "pátio traseiro" dos árabes, e isso que obteve.

Já o Irã argumenta que Hadi renunciou e que, em todo caso, nunca foi eleito de forma muito legítima já que foi o único candidato nas eleições que o levaram ao poder em 2012.

Além de negar qualquer apoio a Ansar Allah além do "moral e político", os iranianos lembram que o antecessor de Hadi, Ali Abdullah Saleh, xiita e hoje aliado dos houthis junto com parte do exército iemenita, também foi derrubado por um movimento popular que nenhum país da região tentou impedir.

O apoio americano à intervenção também é motivo de crítica para os xiitas, que acusam os árabes de serem 'títeres' de Washington e certamente de Israel, que segundo eles está participando dos bombardeios sobre as cidades iemenitas.

O Irã e com ele outros países ou grupos xiitas não fazem mais que advertir sobre a "imoralidade" do ataque e ressaltar que a ofensiva fracassará, da mesma forma que qualquer outra tentativa de intervir nos assuntos internos do Iêmen.

Analistas iranianos afirmam que estas ações, longe de pretender pôr Hadi de novo no poder, buscam em primeiro lugar desestabilizar as negociações nucleares do Irã com os países do Grupo 5+1, exatamente no momento em que ambas as partes parecem estar próximas de um acordo.

Além disso, a Arábia Saudita pretendia no Iêmen o fracasso de suas políticas de apoio a grupos "terroristas" como o Estado Islâmico e a Al Qaeda na Síria e Iraque, aos que o Irã estaria combatendo e derrotando no terreno, em outro exemplo claro desta fratura entre os dois principais ramos do islã.