Os filhos que os Estados Unidos devolveram ao Camboja

Ricardo Pérez-Solero

Em Phnom Penh

  • Heng Sinith/AP

    11.fev.2015 - O Sol se põe acima de uma casa no centro de Phnom Penh, no Camboja

    11.fev.2015 - O Sol se põe acima de uma casa no centro de Phnom Penh, no Camboja

Centenas de cambojanos criados nos Estados Unidos enfrentam a deportação como último castigo pelos crimes cometidos em um país que os acolheu como refugiados quando crianças e os expulsa como criminosos agora que são adultos.

Khom Soeun parece, à primeira vista, mais um mendigo entre os muitos que frequentam os arredores do templo Watt Lanka, em Phnom Penh, mas seu inglês fluente e seu forte sotaque americano revelam sua condição de deportado.

Soeun foi levado aos EUA quando tinha 12 anos por meio dos Serviços Sociais Católicos, uma das organizações que realocaram cerca de 120 mil refugiados após a guerra civil e o regime do Khmer Vermelho, que assolaram o país na década de 1970.

O agora indigente faz parte do "povo dos 80", o grupo mais numeroso e o que sofreu as cicatrizes da utopia agrária comunista que provocou a morte de um quarto da população do Camboja entre 1975 e 1979.

"Tinha 12 ou 13 anos (quando viajou aos EUA), toda minha família morreu durante o Khmer Vermelho, exceto uma irmã que não sei onde está" contou Soeun, que vive da esmola de turistas há três anos.

Os refugiados que sofreram o terror do Khmer Vermelho como Khom Soeun se integraram com mais dificuldade, já que a organização comunista buscou o extermínio de qualquer um que tivesse educação ou que fizesse parte da classe urbana.

"Com 14 anos já era membro de uma gangue, na Filadélfia, Pensilvânia. Fui acusado por portar uma arma sem licença e passei nove meses na prisão", relatou o sem-teto.

Sete anos depois, Khom Soeun assaltou um banco em Los Angeles e começou uma fuga que acabaria em um tiroteio no qual morreram vários policiais, segundo sua versão dos fatos.

"Fui condenado por assassinato à prisão perpétua sem fiança e, após 20 anos, cheguei aqui, ao Camboja", afirmou, enquanto mostrava as cicatrizes de três projéteis que atingiram em seu colete à prova de balas.

Desde 2002, 506 cambojanos foram expulsos dos EUA, segundo a ONG Centro de Apoio à Integração dos Retornados (RISC, na sigla em inglês), que fornece alojamento temporário e subvenciona parte da documentação e formação dos recém-chegados.

Além disso, o Escritório de Detenção e Deportação dos EUA indicou em julho do ano passado que 1.464 ex-detentos cambojanos esperam para serem deportados.

"Há casos muito difíceis. Um doente mental morreu há dois anos", declarou o codiretor do RISC, Kem Villa, que vivenciou três suicídios desde que ocupa o cargo.

No entanto, Villa salientou que muitas das histórias dos deportados falam de superação e redenção.

Tuy Sobil, conhecido como KK, fundou em 2005 uma ONG para ensinar break dance para crianças, e Kosal Khiev se consagrou como poeta no Camboja e foi convidado para representar seu país nas Olimpíadas de Londres, entre outros exemplos.

"Muitos não estiveram no Camboja, quase nem falam o idioma, a situação é diferente (de outros deportados). Como refugiados, crescemos nos EUA e não sabíamos nada do Camboja", disse Sophea Phea, que nasceu em um campo de refugiados na Tailândia.

Sophea foi sentenciada em 2005 a dois anos de prisão nos EUA, ficando passível de ser expulsa do país e se separar de seu filho, já que sua condenação superou o mínimo de 365 dias estabelecido pela lei.

A organização "1 Love", da qual Sophea é integrante, defende a revisão do acordo de repatriação entre EUA e Camboja.

A ONG argumenta que, ao contrário do documento assinado entre EUA e Vietnã em 2008, o pacto com o Camboja não contempla o retorno dos deportados aos EUA em caso de erro no processo ou por razões humanitárias.

Vozes conservadoras em matéria de imigração nos EUA consideram a lei atual de deportação permissiva demais e não consideram prioritário revisar o acordo.

Por sua vez, a diretora de políticas do Centro de Estudos de Imigração de Washington DC, Jessica Vaughan, disse que os ativistas deveriam se concentrar na "educação dos cidadãos cambojanos em relação às leis dos EUA" e nos "benefícios de obter a nacionalidade americana".m qualquer caso, o porta-voz do departamento de Imigração do Ministério do Interior do Camboja, Keo Vanthorn, comentou que o acordo não será revisado "por enquanto".

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