Vida de imigrantes ilegais nos EUA tem esconderijos, medo e viagens proibidas

Beatriz Pascual Macías.

Washington, 28 jun (EFE).- Um panorama de medo e esconderijos paira sobre a vida dos imigrantes ilegais dos Estados Unidos, que temem se movimentar sem identificação e carecem de liberdade para viajar, seja para a graduação do filho ou para se despedir de um parente falecido.

Sem viagens para acompanhar as graduações, sem despedidas dos parentes no leito de morte e sem nenhum tipo de identificação, milhões de imigrantes ilegais viram na semana passada a Suprema Corte manter bloqueadas as medidas migratórias do presidente dos EUA, Barack Obama.

Os oito juízes que compõem o tribunal empataram na hora da decisão e eliminaram qualquer possibilidade de a Casa Branca conter a deportação dos quase 5 milhões de imigrantes que teriam se beneficiado das medidas, especialmente jovens e pais de filhos com residência permanente ou com a cidadania americana.

"Foi algo muito doloroso, mas também nos dá força para seguir lutando. Isto não acaba aqui. É só uma pedra no caminho", contou à Agência Efe a mexicana Patricia Serrano, que chegou aos EUA há 23 anos e tem um filho americano que se graduou em 5 de junho em uma universidade do estado de Massachusetts.

Serrano não pôde viajar para Massachusetts para ver seu filho de 21 anos colar grau de Ciências Econômicas.

O medo da polícia aterrorizou Serrano, que tem que se esconder em sua própria cidade, que tem o sugestivo nome de Escondido (no estado da Califórnia), uma das mais hostis aos imigrantes e onde a Prefeitura e o Escritório de Imigração e Alfândegas (ICE) tiveram até 2006 uma incomum parceria que favoreceu as deportações.

Entre as controversas medidas adotadas por Escondido e que foram denunciadas por organizações como a União Americana de Liberdades Civis (ACLU), destaca-se a instalação de postos de controle nas estradas para interceptar motoristas sem licença, normalmente imigrantes ilegais.

"A sensação de viver em Escondido é de viver sempre com medo", conta Serrano, que agora pode dirigir porque em janeiro de 2015 a Califórnia aprovou licenças para os imigrantes ilegais.

O medo é sentido também por María Abade, que há 25 anos saiu do México e chegou caminhando até San Ysidro, uma cidade da Califórnia logo ao norte da fronteira mexicana.

"Retornei ao México uma vez, mas só uma vez", contou à Efe Abade, que agora vive na Flórida e não tem possibilidade de voltar ao país de origem porque seria delatada como indocumentada e, então, teria que esperar de três a dez anos para voltar aos EUA.

O pai de Abade morreu há um mês. Há 18 anos ela não o via, e também não pôde viajar ao México para se despedir.

"As medidas de Obama davam esperança, agora nem isso. Não nos resta outra coisa do que esperar", disse Abade, mãe de quatro filhos e que tem a esperança de obter a residência em outubro de 2017, quando um de seus filhos completar 21 anos.

Pouco depois das eleições que venceu pela primeira vez para a presidência, em 2008, Obama se comprometeu pela primeira vez a mudar o sistema migratório e, em 2010, apoiou o "Dream Act", uma proposta de lei destinada a regularizar a situação de jovens imigrantes ilegais e que travou no Senado, onde os democratas então tinham maioria.

Como o "Dream Act" fracassou, Obama proclamou em 2012 o programa de Ação Diferida (Daca), do qual se beneficiaram 700 mil jovens imigrantes ilegais que chegaram aos EUA crianças.

Um ano depois, o Senado aprovou uma proposta de lei bipartidária para uma reforma migratória, mas a Câmara dos Representantes não chegou a um acordo e, em 2014, Obama proclamou ações executivas que depois foram bloqueadas pela via judicial por uma coalizão de 26 estados liderados pelo Texas.

Na semana passada, a Suprema Corte enterrou essas medidas e deixou nas mãos do próximo presidente as mudanças em política migratória.

"Todos os presidentes dizem que sim, que aprovarão uma reforma migratória, e depois nada. Ninguém faz nada nos primeiros anos", lamentou Abade em sua casa na Flórida.

Os imigrantes em situação irregular não recebem um "alívio migratório" desde 1986, quando o presidente Ronald Reagan regularizou três milhões de imigrantes ilegais.

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