Vítimas de seita de nazista pedófilo exigem reparação de Chile e Alemanha

Júlia Talarn Rabascall.

Villa Baviera (Chile), 10 jul (EFE).- Um pequeno papel enrugado chega à embaixada alemã em Santiago em 16 de agosto de 1968. Uma caligrafia desesperada denuncia que sua família está encarcerada na Colônia Dignidade; que seus filhos são agredidos diariamente; que sua mulher está isolada. "Por favor, tirem-nos daqui". O embaixador jamais fez nada.

O remetente era Natan Bohnau, um colono alemão fechado desde 1961 junto com outros 300 compatriotas em um sítio no meio de frondosas florestas no sul do Chile. Um "paraíso cristão" ao qual chegaram fugindo dos estragos da Segunda Guerra Mundial.

Mas a pervertida personalidade de seu líder, Paul Schäfer, acabou transformando o paraíso em um campo de concentração.

Antes da carta de Natan, entre 1962 e 1968, cinco jovens conseguiram escapar desse enclave situado a 400 quilômetros de Santiago. Após atravessar rios, correr através de campos e pegar caronas, chegaram à embaixada alemã, onde, após descrever os horrores que sofreram, foram devolvidos ao inferno de Schäfer.

"Nem o Estado alemão nem o chileno fizeram nada, mesmo sabendo que se cometiam atrocidades", declarou o advogado Winfried Hempel, nascido na Colônia Dignidade.

Até o ano 2005, Schäfer subjugou crianças e adultos em um lugar que funcionou como um "Estado dentro do Estado". Nenhum país se atreveu a tocá-lo. A Alemanha, para não se manchar com "uma reminiscência do nazismo". O Chile, por sua perpétua idealização do estilo germânico.

"Foram violados todos os direitos garantidos na Constituição e cometidos todos os crimes do Código Penal", denunciou o ex-colono.

Após seis anos de trabalho, Hempel está a ponto de apresentar um processo coletivo contra o Estado chileno. A denúncia, apoiada por 120 ex-colonos, exige que se repare cada vítima com US$ 1 milhão. E eles estão convencidos de que ganharão.

"Durante 50 dos 200 anos de história independente do Chile, o Estado tolerou que um grupo de estrangeiros armados criasse um enclave impenetrável onde eram cometidos todos os tipos de atrocidades. Isto é um falha extremamente grave", destacou Hempel.

A permissividade do Estado chileno causou nas vítimas irreparáveis danos físicos e mentais. As surras, as extenuantes jornadas de trabalho e os sedativos deixaram muitos com dificuldades para caminhar, falar ou se concentrar.

Com os olhos encharcados de lágrimas, Hempel descreveu seus problemas físicos por causa do trabalho infantil. "Enquanto os inspetores de trabalho estavam tomando chá, comendo kuchen e olhando a pradaria, crianças como eu arrastávamos sacos de batatas de 80 quilos".

A inação da diplomacia alemã também protegeu indiretamente a Colônia Dignidade. Em 1984 dois casais que tinham conseguido escapar do enclave denunciaram ao Parlamento alemão o que acontecia lá. Embora tenha sido iniciada uma investigação judicial contra Schäfer, jamais houve uma acusação formal.

Após a estreia de "Colônia", o filme que adentra as entranhas da seita, algumas coisas parecem estar mudando na Alemanha. O ministro das Relações Exteriores, Franck Walter Steinmeier, reconheceu em abril que o papel da embaixada foi "escandaloso" e anunciou a retirada do selo de confidencialidade de todas as atas relacionadas com a Colônia Dignidade.

Meses depois, a procuradoria alemã pediu a prisão de Harmut Hopp, um cúmplice de Schäfer que fugiu do Chile, onde era condenado por abusos sexuais.

Mas tudo isso chega tarde demais para os ex-colonos. Afogados pelas dívidas causadas pela má gestão passada, a necessidade de cuidar dos idosos e a obrigação - pela primeira vez - de pagar seus funcionários, os atuais moradores de Villa Baviera travam uma batalha cotidiana para garantir seu sustento.

"Eles precisam nos ajudar", clamou Erika Tymm, uma das moradoras. Como ela, a maioria já não quer viver mais sob a pressão econômica de uma estrutura criada por quem lhe arruinou a existência. Desejam ser donos de seu destino e ter uma casa e um terreno para viver com dignidade.

Isso porque, uma década depois da desarticulação da seita, a comunidade ainda vive do "trabalho comunitário", que só a partir de 2005 começou a ser remunerado.

Horst Schaffrick, de 58 anos, sempre viveu na Colônia, mas já não aguenta mais. Está esgotado e a ponto de se render. Toda sua vida trabalhou sem receber e agora não tem um tostão para criar seus filhos ou preparar sua velhice.

"Não me deixaram estudar e não tenho economias. Não peço tanto, só um pequeno terreno e algum dinheiro para começar de novo após tanto sofrimento. Podemos fazer isso, mas precisam nos ajudar. Nós também somos vítimas", lamentou.

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