Tradição familiar em Acapulco, salto de penhasco alimenta sensação de "voar"

Cidade do México, 10 jul (EFE).- Quando era mais nova, Jimena via seu pai e seu irmão saltando de La Quebrada, o emblemático penhasco de Acapulco, e se perguntava o que sentiam. Agora, ela sabe que esses segundos que se passam após os pés deixarem a rocha e antes de chegar à água dão a sensação de "estar voando".

Jimena Álvarez, de 13 anos, pertence à terceira geração de 'clavadistas' (termo usado no México para os saltadores de penhasco) da família. Como ela, várias crianças e adolescentes de Acapulco, no mexicano estado de Guerrero, perpetuam uma tradição de mais de 80 anos, um dos atrativos turísticos dessa cidade da costa do Pacífico.

A primeira vez que Jimena se lançou à água foi aproveitando um descuido do irmão mais velho, que a proibia de saltar porque poderia se machucar. Já com 10 anos, ela começou a ir aos finais de semana às práticas nas quais dois treinadores ajudam as crianças.

No penhasco, elas são ensinadas a perceber qual é o momento certo para o salto - quando a onda passa pelo lugar onde se quer aterrissar -, a não cair, a entrar na água de forma suave e a desfrutar da execução dos movimentos.

"Quando você faz o que gosta, sente como se estivesse voando, é uma bonita experiência", relata Jimena à Agência Efe.

Por enquanto, a altura máxima da qual ela pula é de 10 metros. Mas, depois de acumular experiência, ela espera saltar do ponto mais alto de La Quebrada, que tem 35 metros.

Jimena domina dois saltos, o "mortal", tanto para a frente como para atrás, e o "avião", também chamado "voo do cisne". Este último é um dos primeiros ensinados aos aprendizes, e consiste em se lançar com os braços estendidos, como um pássaro.

Para Jimena, os saltos são um "hobby", mas ela não pretende se limitar à atividade dessa forma. "Agora o turismo não está bom, e com tanta violência que se vive no porto (de Acapulco), não acredito que seja possível me manter com isso. Me preparei e estudei para ter uma carreira", comentou.

Eligio Álvarez, pai de Jimena, lembrou que quando era criança e o levavam à La Quebrada ficava fascinado pelo bom ambiente do local e pela admiração que os saltadores despertavam no público durante os espetáculos de saltos.

"Você se emociona ao ouvir os aplausos e ver que todo mundo te elogia; é uma parte essencial, nos motiva", afirmou à Agência Efe o pai, de 44 anos.

Ele saltou da parte mais alta pela primeira vez na adolescência, e lembra o fato como um momento no qual foi tomado pelo medo, o que - garantiu - é bom, porque "alerta o sistema nervoso e te faz tomar mais cuidado, e ter mais habilidade" mental e corporal.

Tanto Jimena como seus outros dois filhos, um jovem de 20 anos e uma menina de 8, mostraram interesse pelos saltos. O pai reconhece que, em algumas ocasiões, não é fácil ver o seu filho mais velho se jogando das alturas.

"Às vezes fico tomado pelo medo e prefiro estar cobrando ingressos e não vê-lo", comentou, com bom-humor.

Um grupo de 56 saltadores organiza os cinco espetáculos diários de salto que acontecem em La Quebrada.

Entrar no grupo não é tão simples como antes, já que agora existe "um processo" que requer disciplina e estudo, explicou Eligio.

Continuar com os estudos foi o requisito imposto aos filhos para continuar praticando os saltos.

Ele frisou que se há um sentimento que não o abandona ao longo do dia é o orgulho que sente dos filhos: "Que os filhos façam bem o que gostam de fazer, seja o que for, é a maior satisfação de qualquer pai", disse o saltador.

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