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Europa Central se aproxima do populismo anti-imigração

19/12/2017 21h21

Antonio Sánchez Solís

Viena, 19 dez (EFE).- A formação na Áustria de um governo entre democratas-cristãos e extremistas de direita, a nomeação como primeiro-ministro tcheco de um magnata populista investigado por corrupção, e os constantes atritos entre a União Europeia (UE) e a Hungria confirmam a mudança de tendência da Europa Central para posturas de afastamento do bloco.

A origem desta mudança para a direita populista e crítica em relação à UE foi a crise migratória ocorrida entre 2015 e 2016, quando centenas de milhares de pessoas chegaram à Europa Central cruzando os Balcãs Ocidentais fugindo das guerras e da miséria no Oriente Médio e na Ásia Central.

As chegadas e os desafios relacionados com a integração se transformaram no principal tema para as forças políticas conservadoras e populistas da região.

Enquanto a Áustria acolheu cerca de 150 mil imigrantes, outros países como Hungria, República Tcheca, Polônia e Eslováquia se negaram a fazer parte da repartição comunitária de refugiados e ao acolhimento, alegando razões de soberania nacional.

No entanto, com o triunfo eleitoral em outubro do Partido Popular da Áustria (ÖVP) com um discurso centrado na imigração e seu pacto de Governo com o xenofóbico partido FPÖ, estes quatro países parecem contar agora com um novo aliado a nível europeu.

Sebastian Kurz, o polêmico chanceler austríaco, não hesitou em criticar o sistema de repartição de refugiados e anunciar que lutará para "mudar essa equivocada política".

Mas a Comissão Europeia abriu um procedimento jurídico de infração contra a República Tcheca, a Hungria e a Polônia por não participar do sistema de repartição de refugiados.

Embora o FPÖ tenha ficado com o Ministério de Relações Exteriores e Integração, Kurz deixou sob seu controle a agenda europeia, em uma aparente "medida de segurança" para que os seus parceiros eurocéticos não encontrem problemas durante a presidência de turno da UE que a Áustria assume em julho de 2018.

"Estando ao lado do ÖVP, o FPÖ não poderá causar danos na política europeia, embora seja evidente que se orienta para os Estados e os líderes políticos que com mais autoritarismo governam na Europa", disse à Agência Efe Hans-Henning Strache, jornalista e autor de vários livros sobre a extrema direita na Áustria.

De fato, a entrada do FPÖ no Governo foi aplaudida com entusiasmo por líderes ultras de toda Europa, desde a chefe da Frente Nacional francês, Marine Le Pen, a Geert Wilders, do Partido da Liberdade holandês.

O certo é que depois que estes dois políticos não conseguiram ganhar as eleições em seus respectivos países, a vitória do FPÖ foi o grande triunfo do movimento eurocético na Europa.

Isso sim, o ÖVP conseguiu na negociação para formar Governo que os seus parcerios desistissem da possibilidade de um referendo sobre a saída do país da UE.

No entanto, combinaram lutar a favor de que a UE evolua para um modelo de subsidiariedade, ou seja, que tenha menos competências, mas aja com mais eficiência.

Também na República Tcheca foram realizadas eleições em outubro, vencidas pelo multimilionário Andrej Babis e sua Aliança dos Cidadãos Descontentes (ANO).

Babis, investigado por suposta fraude com fundos comunitários, promete lutar contra a corrupção, rejeita o euro, as quotas de refugiados e se apresenta como um político "antissistema".

Em sua primeira intervenção como primeiro-ministro tcheco, Babis insistiu em rejeitar o sistema de repartição solidária de refugiados na UE, apesar de seu país apenas ver chegar imigrantes.

O sistema de quotas ordenou à República Tcheca 2.291 dos 160 mil refugiados a situar desde a Grécia e a Itália. Praga somente aceitou até agora 12 pessoas.

Apesar da imigração não ser um problema real na República Tcheca, o tema foi um dos eixos centrais da campanha, até o ponto de que o partido xenófobo SPD conseguiu ser a quarta força política com o seu slogan "Stop Islã. Stop terrorismo".

A Hungria realiza suas próximas eleições em abril, o primeiro-ministro conservador nacionalista Viktor Orbán está há meses alarmando a população de uma suposta ameaça de "invasão de refugiados".

Tudo isso, segundo Orbán, organizado pelo magnata milionário húngaro-americano George Soros e tolerada pela UE.

"Assim, a UE foi marcada como o inimigo que supõe um perigo para a soberania das nações que a integram", explicou à Agência Efe Edit Zgut, analista do Instituto Political Capital em Budapeste.

Com esta estratégia, disse a analista, de ter um inimigo constante, Orbán tem mais possibilidade de fazer os eleitores acreditarem que os conflitos são uma "conspiração contra a Hungria".

A tática parece funcionar e as pesquisas preveem para Orbán e o seu partido Fidesz uma cômoda vitória com 40% dos votos.

No entanto, isso estaria abaixo dos 44,5% de 2014 e, ainda mais, da enroladora vitória de 2010, quando com 52,7% atingiu uma maioria constitucional de dois terços no Parlamento.