Indianos lotam ruínas de forte para pedir que "gênios" realizem seus desejos

Noemí Jabois.

Nova Délhi, 2 mar (EFE).- Reza a lenda que as ruínas do forte Feroz Shah Kotla em Nova Délhi abrigam dezenas de "djinns", ou gênios bonachões da tradição islâmica que realizam os desejos dos que rezam para eles e, sobretudo, dos que escrevem seus pedidos em cartas detalhadas.

A cada quinta-feira, centenas de pessoas enchem o local com pétalas de rosa, incenso, guirlandas de flores, velas e cópias de cartas escritas à mão nas quais pedem aos gênios que curem um parente doente ou lhes ajudem a encontrar um marido para uma filha solteira.

Perto do pôr do sol, a maioria das mulheres que abarrota o lugar está coberta com véus islâmicos ou envoltas em abayas e os homens usam longas barbas e tradicionais gorros brancos de crochê, mas também se pode ver um ou outro hindu ou sikh.

No meio do recinto, em frente das mil e umas sandálias que esperam às portas da Jami Masjid, ou Mesquita dos Espíritos, dezenas de pessoas se aglomeram para acender suas velas e bastões de incenso ao pé de uma estrutura de pedra abarrotada de cartas, algumas até com foto.

"Por favor, reze a Alá por nós, reze a nossos ancestrais, místicos sagrados. Rezemos para que a magia negra de Anisa falhe...", diz uma das mensagens penduradas no muro, assinada por três muçulmanos e um hindu.

Os "djinns" são uma espécie de espíritos invisíveis da tradição islâmica que o povo acredita que podem possuir uma pessoa, sendo frequentemente a explicação popular para uma pessoa com uma doença mental ou um comportamento fora do normal. Também lhes é atribuída a autoria de problemas de todo tipo.

No templo em Nova Délhi, no entanto, muitos acreditam que este tipo de gênio pode fazer o bem.

Mohammed Raees, envolto em um traje branco típico dos muçulmanos, contou à Agência Efe como as pessoas vão a Feroz Shah Kotla para acender incenso "com reverência" e deixar seus pedidos escritos para que seus problemas sejam solucionados.

Após pendurar cópias das suas cartas, é recomendável distribuir arroz ou doces entre os fiéis. Raees não explica o porquê desta tradição, mas parece que o ato alegra aos gênios que habitam o templo.

O homem relata que, ainda que a maioria dos que se aproximem do lugar sejam da própria capital indiana, os "djinns" também atraem gente de fora da cidade.

"Este é um lugar aberto, qualquer um pode vir, seja hindu, muçulmano, sikh ou cristão", destacou.

Mas nem todos vão para deixar missivas aos "djinns"; alguns pedem desejos através de uma simples moeda.

Uma mulher com um lenço fúcsia no rosto empurrava com força uma moeda contra uma parede do forte, como tentando fazer funcionar algum tipo de cola invisível.

"Muita gente está colocando moedas ali. Se você tem fé, a moeda ficará colada, de outro modo, se não há fé, a moeda cairá e o desejo não se cumprirá", disse à Efe o artista Shazad Khan, que já havia tentado deixar ali alguns trocados que caíram e assegura que seu desejo ficou nisso, um desejo.

O jovem Shahsan, por sua parte, é dos que pensam que rezar - gesto frequentemente acompanhado de oferendas de flores - é o mais importante para que os desejos se tornem realidade.

"Acredito nas cartas, mas não é verdadeiramente importante pôr uma carta aqui, é o nosso desejo o que queremos", ressaltou.

"Não depende das cartas, você pode ver muitas cartas aqui, mas olhe as flores", disse enquanto apontava para pequeno monte de cartas ao lado de uma grande montanha de pétalas de rosa.

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