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CPI revela que doleiro brasileiro teve apoio político no Paraguai

20/12/2018 18h52

Assunção, 20 dez (EFE).- A comissão do Congresso do Paraguai que investiga as atividades do doleiro Dario Messer, procurado por lavagem de dinheiro, apresentou nesta quinta-feira um relatório com as conclusões preliminares das audiências e afirmou que existiu apoio político para cobrir as operações do brasileiro no país.

Os integrantes da comissão - três senadores e três deputados de diferentes partidos - afirmaram que várias pessoas agiram dentro de instituições públicas e de instituições financeiras privadas para encobrir as atividades ilegais de Messer no Paraguai.

O relatório ainda destacou a "extrema vulnerabilidade" do sistema financeiro paraguaio, incapaz, segundo os integrantes da comissão, de detectar a movimentação ilícita de Messer no país desde 2011.

Há sete anos, Messer pediu a abertura de uma conta em uma filial do Banco Nacional de Fomento (BNF), em Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil. Isso, na avaliação da comissão, o tornava uma pessoa de "alto risco", que deveria ser vigiada pelas autoridades.

Messer já era investigado no Brasil e no Uruguai por lavagem de dinheiro, o que não o impediu de realizar atividades comerciais e financeiras no Paraguai normalmente, afirmaram os parlamentares no relatório. Eles se basearam nas declarações das pessoas que foram ouvidas pela comissão e nos documentos apresentados por elas.

Os depoimentos, segundo o relatório, revelaram "fragilidades que se mostraram persistentes com o tempo" e que também teriam contado com a inação dos órgãos de controle para continuarem existindo.

"Ele conseguiu passar pelo conjunto de instituições encarregadas de monitorar e proteger nosso sistema financeiro sem acessar nenhum dos múltiplos alarmes determinados nesses casos", afirmou o relatório.

O documento também cita uma "mão invisível", responsável por desativar esses alarmes de forma "premeditada e organizada". A comissão parlamentar aponta que se trata de uma "cobertura" feita pelo "pelo poder político.

O senador Jorge Querey, que explicou no plenário do Senado as conclusões preliminares do relatório, afirmou que ficou "muito claro" que existe uma rede internacional de lavagem de dinheiro. Messer aparece, segundo ele, citado como "relevante" dentro desse esquema em diferentes investigações internacionais.

"Ocorreram movimentos financeiros de grandes montantes de dinheiro de paraísos fiscais para as contas do doleiro e suas empresas", ressaltou o senador, que considerou a não detecção da movimentação como um fracasso dos protocolos de prevenção de lavagem de dinheiro das instituições públicas e privadas.

A comissão destacou a demora dos órgãos públicos para elaborar os chamados Relatórios de Operações Suspeitas (ROS) sobre as contas de Messer. O doleiro atuava na fronteira, recebia dinheiro de paraísos fiscais, atuava na produção de gado e também na bolsa de valores.

Um relatório da Secretaria de Prevenção de Lavagem de Bens ou Dinheiro (Seprelad) chamou a atenção dos parlamentares que investigam o doleiro brasileiro. O documento só foi apresentado ao Ministério Público do Paraguai em 2018, apesar de indicar a existência de "vínculos comerciais" entre Messer e o ex-presidente Horacio Cartes, que deixou o poder neste ano.

No entanto, o documento da Seprelad teria sido alterado, segundo os depoimentos ouvidos pelos políticos da comissão, já que as referências à relação entre os dois foi retirada.

Amigo pessoal de Messer, Cartes foi convocado a depor na comissão na última sexta-feira, mas não compareceu e pediu para enviar um depoimento por escrito.

A solicitação foi negada pelos integrantes do grupo, que recorreram à Justiça para ouvir o ex-presidente e conseguiram uma autorização concedida pelo juiz Alcides Coberta.

O senador Jorge Querey considerou como "preocupante" que o doleiro brasileiro tenha conseguido aliados para utilizar o sistema público para conseguir movimentar o dinheiro dentro do Paraguai.

Além disso, Querey antecipou que a comissão vai recomendar acusações criminais para alguns dos envolvidos no escândalo no relatório final, que deve ser apresentado em março.

A Justiça terá que determinar, segundo o senador, se ocorreu "omissão grave" do Estado, um "fracasso institucional" ou "cumplicidade" com o doleiro brasileiro. EFE