ESTREIA-Adaptação de "O Filho Eterno" opta por um tom mais emocional

SÃO PAULO (Reuters) - Lançado em 2007, “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza, é um livro que colheu prêmios (Jabuti, Portugal Telecom, APCA, entre outros) e elogios. Uma das características que mais se destacam nele é sua recusa em se enquadrar num único gênero. Em suas pouco mais de 200 páginas, o autor transita entre a ficção, o livro de memórias, o jornalismo e o ensaio. A beleza está em sua fluidez narrativa e na destreza do escritor em não cair em subterfúgios rasos para emocionar. Ele sabe que sua trama tem uma alta carga emotiva, por isso deixa que ela fale por si.

Ao adaptar o livro para o cinema, o diretor Paulo Machline (“Trinta”) e o roteirista Leonardo Levis (“O Concurso”) tinham esse desafio pela frente. Manter-se fiéis à proposta formal do livro poderia significar um filme mais hermético e, como se sabe, para um público mais restrito. Não há nada de errado, a rigor, na escolha da dupla: um filme mais acessível que dialogue com a plateia, mas que, ao mesmo tempo, está interessado apenas em pressionar o botão emocional, buscando facilitadores para essa dinâmica.

A trama tem como protagonista um escritor, Roberto (Marcos Veras), que está prestes a ter seu primeiro filho. O garoto nasce na Copa de 1982, no dia em que o Brasil perde para Itália e é eliminado. As competições a cada quatro anos, então, serão uma espécie de marcador do tempo da relação sempre complicada entre pai e filho, porque o protagonista é incapaz de lidar com o fato de o garoto ser portador de síndrome de Down.

De cara, Roberto não consegue aceitar o diagnóstico, nega que esteja acontecendo isso com ele e sua mulher, Cláudia (Débora Falabella). Eles moram em Curitiba e, convenientemente, ele arruma um trabalho de professor universitário em Florianópolis, o que o obriga a passar bastante tempo longe da família, delegando toda a criação e cuidados à sua companheira.

Num registro longe do cômico, Veras se esforça para trabalhar um papel sem nuances, compondo um sujeito desagradável que pede nossa cumplicidade – o que, convenhamos, não é fácil de conceder, embora a culpa nem seja do ator.

Débora, por sua vez, tem uma tarefa mais ingrata ainda, dada a posição em que o filme coloca Cláudia, sempre cobrando atitudes do marido, incapaz de cumprir sua função e ajudar na criação do filho. Vemos muito pouco dela – uma personagem que praticamente não existe no livro. E todo o filme se concentra na experiência de Roberto tentando lidar com o filho Fabrício (Pedro Vinícius), um garoto inteligente e carismático – algo que apenas o pai não consegue notar.

Ao colocar Roberto como o foco narrativo do longa, Machline e Levis fazem uma escolha um tanto arriscada e que se torna o maior problema da adaptação de “O Filho Eterno”. O personagem é arrogante, mimado e intragável (um tanto diferente do livro, no qual ele é mais confuso do que qualquer outra coisa, diga-se), e incapaz de lidar com seus próprios problemas, que são sempre resolvidos por outras pessoas – como sua mulher e seu pai (Zeca Cenovicz).

O filme pede para que tomemos seu partido e, dessa forma, vilaniza a personagem feminina, dando a ela a chance de se redimir num monólogo totalmente deslocado do tom das outras cenas, lá pela metade do filme. Ainda assim, ela se torna a personagem mais humana de todo o longa, ao lado do menino Fabrício.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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