Animais silvestres são vendidos facilmente pela internet a clientes europeus

Basta uma rápida pesquisa pelas redes sociais ou sites de comércio online para encontrar ofertas de papagaios exóticos, tapete de pele de tigre ou um crocodilo empalhado.

Em apenas quatro países europeus e no período de seis semanas, quase 6 mil anúncios relativos a animais protegidos foram identificados em 106 sites e quatro redes sociais na Alemanha, na França, no Reino Unido e na Rússia. Em 80% dos casos, os animais à venda estão vivos, em um comércio quase sempre ilegal por envolver espécies inscritas nos anexos 1 e 2 da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies de Fauna e Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (Cites). A comercialização dos bichos citados nas listas é estritamente regulamentada.

"Nós recolhemos 5831 anúncios propondo espécies vivas ou partes do corpo dos animais, como o marfim dos elefantes, por exemplo. No total, são 11.772 espécies à venda", detalha é a porta-voz da organização na França, Julie Matondo. "Fazemos essa pesquisa regularmente e nos tornamos especialistas no tráfico de animais selvagens pela internet. As espécies mais vulneráveis são os répteis, os pássaros e os elefantes, pelo marfim."

Para estimação ou decoração

Tartarugas marinhas e diversos tipos de pássaros e peixes raros são os preferidos para ser adotados como animais domésticos num lar europeu, principalmente na Alemanha. Tapetes de tigre, onça ou leopardo, assim como carcaças empalhadas, seduzem os clientes interessados em um objeto raro de decoração na sala.

A variedade de opções espanta e está disponível em sites comuns de compra e venda de produtos na Europa. Embora representem o menor número de ofertas online, as vendas para os russos são as mais ousadas e incluem jaguares e águias vivas, entre várias outras espécies exóticas.

"Podemos encontrar iaques, orangotangos e muitos pássaros, principalmente papagaios exóticos, e peixes, como espécies de cavalos-marinhos. É uma lista longa e, muitas vezes, surpreendente", afirma Matondo.

Fiscalização difícil da internet

Apesar do cerco contra os anunciantes, feito em parceria com os sites, na prática a fiscalização desse tipo de venda é pouco eficaz – ao ponto que não existem dados oficiais sobre o quanto esse comércio movimenta no mundo inteiro. Além dos clientes europeus, os americanos e chineses são os outros maiores compradores de animais silvestres, vindos ilegalmente da África, da América do Sul e da Ásia.

"A internet é uma loja aberta 24 horas por dia, todos os dias, e permite colocar em contato compradores e vendedores do mundo todo. Ao mesmo tempo, os traficantes conseguem manter o anonimato na rede, e na maior parte dos casos, escapam facilmente de qualquer tipo de investigação ou processo", constata a porta-voz da organização. "A regulação da internet é muito difícil. Faz anos que temos parcerias com sites de venda online e as redes sociais para que eles imponham regras severas, que nós lhes ajudamos a aplicar."

Apesar de massacres na África, marfim é disputado

Em 19% dos anúncios, a maior parte na França, o produto a ser comercializado é o marfim, apesar da sensibilização mundial à exterminação de elefantes na África, para a extração dos seus valiosos chifres. A entidade pede a proibição completa da entrada do marfim na União Europeia.

"Hoje, não existe legislação comum entre os países europeus sobre o comércio de marfim. Países como a França proibiram o comércio de marfim bruto, mas o marfim trabalhado pode ser vendido, mediante algumas condições", observa Matondo. "Já o Reino Unido anunciou, para os próximos meses, a proibição completa do comércio de marfim, no que será a legislação mais rígida do mundo sobre o assunto."

No total, os anúncios identificados pela IFAW envolviam a cifra de US$ 3,9 milhões – um valor irrisório perto do que esse comércio representa na esfera global. Para combater o problema, gigantes internacionais da internet, com Facebook, Google, eBay e Alibaba, se comprometeram em uma iniciativa não-governamental para reduzir 80% do comércio ilegal de animais protegidos nas suas plataformas, até 2020. O objetivo ainda parece distante.  

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