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Análise: estratégia da Coreia do Norte visa eleição nos EUA após romper com Seul

Regime norte-coreano literalmente explodiu o Gabinete de Ligação Kaesong - Getty Images/iStockphoto
Regime norte-coreano literalmente explodiu o Gabinete de Ligação Kaesong Imagem: Getty Images/iStockphoto

Por Jelena Tomic

17/06/2020 13h08

A tensão aumentou consideravelmente na península coreana. Após vários dias de incansáveis ataques verbais do norte contra o sul e o corte de todas as pontes de comunicação política e militar com Seul, o regime norte-coreano literalmente explodiu o Gabinete de Ligação Kaesong, localizado em uma área industrial perto da fronteira, na terça-feira (16).

Além do símbolo, a destruição faz parte de um contexto de dificuldades econômicas para a Coreia do Norte e paralisa as negociações com Washington.

A RFI entrevistou Olivier Guillard*, pesquisador do CERIAS (Universidade de Quebec, em Montreal), para analisar esse momento de transição na península coreana.

RFI: Por que o regime norte-coreano atacou o escritório de ligação intercoreano, e por que agora?

Olivier Guillard: Pela primeira vez, a Coreia do Norte deu o tom no curto prazo. No fim de semana passado, a número 2 do regime, Kim Yo-jong, a irmã de Kim Jong-un, havia sugerido uma tensão, e chegou a dizer que a partir de agora considerava o sul como um inimigo e não como um parceiro. Que eles poderiam ser vítimas da ira do norte em direção ao sul. Foi precisamente esse escritório de ligação que funcionou durante os últimos dois anos foi como o único local em que os dois países (tecnicamente ainda em guerra) se encontravam, mais ou menos regularmente, com o objetivo de dialogar sobre um futuro mais pacífico.

RFI: O que Pyongyang está procurando? Por que a mudança repentina no seu vizinho do sul?

OG: Com essa ação, a Coreia do Norte expressa sua decepção pelos vários projetos intercoreanos. Pyongyang e Seul tentaram por dois anos reavivar um ciclo de intercâmbios mais relaxado. Foi bastante interessante no começo, mas as coisas estão estagnadas há um ano.

A Coreia do Norte anunciou no fim de semana passado que irá remanejar tropas para a zona desmilitarizada. Isso certamente levará à discussão e negociação entre o Norte e o Sul, mas especialmente entre o Norte e Washington.

Durante a "primavera intercoreana", Pyongyang estava apostando fortemente no alívio das sanções contra o regime, especialmente as econômicas. Antes desse período de relaxamento com o Sul, testemunhamos dois anos extremamente balísticos e nucleares complicados, pois a Coreia do Norte embarcou em 2016 e 2017 em um ciclo permanente de lançamento de mísseis e testes nucleares que levaram a sanções internacionais significativas, incluindo sanções econômicas.

Agora, essas sanções pesam bastante na economia da Coreia do Norte, que está esgotada e também sofreu duras consequências da pandemia de coronavírus em seu comércio exterior. Um comércio já enfraquecido, essencialmente vinculado à China.

E, provavelmente, olhando para o futuro, a Coreia do Norte acha que, ao apertar seu controle sobre o Sul, há alguma chance de enviar uma mensagem um pouco mais a Washington, dizendo: "Mesmo que você tenha outras prioridades de política doméstica e internacional, lembre-se de que somos um questão a ser levada em conta."

No final, o tempo que a Coreia do Norte passou tentando acabar com esse impasse está se esgotando. E para tentar relançar o debate ou, de qualquer forma, se posicionar após as eleições presidenciais dos EUA no final do ano, Pyongyang, como sempre, pressiona novamente fortemente Seul, provocando ansiedade e incerteza de que os sul-coreanos com certeza irão comunicar ao aliado estratégico norte-americano.

Além disso, a Coreia do Norte não interrompeu nenhum de seus desenvolvimentos de mísseis balísticos, muito menos seu programa nuclear, embora tenha prometido fazê-lo. Portanto, sem dúvida, o fortalecimento e a diversificação de seus arsenais balísticos e nucleares continuaram e agora está em uma posição ainda mais "confortável" em suas negociações assimétricas com o Sul e os Estados Unidos. No final, sua corrida nuclear e balística de maneira alguma se interrompeu e seu arsenal infelizmente aumentou.

RFI: O líder norte-coreano Kim Jong-un coloca sua irmã no centro das atenções e do tabuleiro político. Qual é o verdadeiro papel e capacidade de ação de Kim Yo-jong?

OG: Hoje, na família Kim, há um irmão mais velho, Kim Jong-un, o rosto "simbólico" da Coreia do Norte há pouco mais de uma década, e há sua irmã, que está vários degraus abaixo e obviamente não tem nem a mesma autoridade, nem o mesmo crédito.

Por outro lado, Kim Yo-jong está cada vez mais presente e parece estar muito alinhado com as posições de seu irmão. Acima de tudo, ela é uma das poucas, se não a única, porta-voz Kim Jong-un. Vimos isso quando se tratou da participação nos Jogos Olímpicos de Inverno, quando Kim Jong-un enviou uma delegação norte-coreana para Seul, com sua irmã portadora da bandeira norte-coreana.

Ela também está cada vez mais sendo porta-voz do regime, às vezes com raiva, como fez no fim de semana passado, reproduzindo as palavras de ordem do poder em Pyongyang, e ela também é firme e cruel.

Certamente, também é uma mensagem enviada aos Estados Unidos e à Coreia do Sul: se, por razões mais ou menos obscuras, o líder supremo Kim Jong-un desaparecer, eles devem saber que a número 2 também está na família. Kim Yo-jong está ganhando cada vez mais peso, pelo menos em termos de espaço e crédito entre as pessoas.

Nesse conjunto, temos, de certa forma, um chefe de Estado e uma primeira-ministra que pode se tornar cada vez mais a interlocutora, em tempos difíceis

*Olivier Guillard é pesquisador da CERIAS (Universidade de Quebec em Montreal) e chefe de informações da Crisis24 (GardaWorld).

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