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Passado colonialista da França: Macron reconhece massacre de argelinos em 1961

Presidente da França, Emmanuel Macron - Ludovic Marin/AFP
Presidente da França, Emmanuel Macron Imagem: Ludovic Marin/AFP

16/10/2021 13h09

O presidente francês Emmanuel Macron tenta apaziguar mais uma ferida histórica do passado colonialista francês: ele reconheceu neste sábado (16) o que classificou como "crimes indesculpáveis da República Francesa" durante a cerimônia oficial do 60° aniversário do massacre dos argelinos do 17 de outubro de 1961 em Paris.

O presidente francês Emmanuel Macron tenta apaziguar mais uma ferida histórica do passado colonialista francês: ele reconheceu neste sábado (16) o que classificou como "crimes indesculpáveis da República Francesa" durante a cerimônia oficial do 60° aniversário do massacre dos argelinos do 17 de outubro de 1961 em Paris.

O gesto traz forte conotação simbólica e é a primeira vez que o Palácio do Eliseu reconhece a gravidade do episódio, muito além da "repressão sangrenta" admitida pelo ex-presidente francês François Hollande, em 2012.

O chefe de Estado francês depositou uma coroa de flores no meio da tarde deste sábado (16) nas margens do rio Sena, perto da Pont de Bezons, nos subúrbios parisienses, tomada há 60 anos pelos manifestantes argelinos que chegavam do subúrbio vizinho de Nanterre. "Tiros reais foram disparados neste local e muitos corpos foram recuperados no Sena", lembrou o Palácio do Eliseu em nota oficial, para explicar a escolha do local para a cerimônia.

Emmanuel Macron, o primeiro presidente francês nascido depois do fim da Guerra da Argélia em 1962, tornou-se também neste sábado "o primeiro chefe de Estado da 5ª República francesa a comparecer a este tipo de celebração", ainda segundo a presidência francesa.

Parentes das vítimas em lágrimas

Diante das parentes de vítimas em lágrimas, Macron participou deste gesto sem precedentes para um presidente francês. "Naquela noite, uma ofensiva brutal, violenta e sangrenta", nas palavras do Palácio do Eliseu - atacou os manifestantes que protestavam contra a proibição dos argelinos deixarem suas casas após as 20h30.

"Quase 12.000 argelinos foram presos e transferidos para centros de triagem no estádio Coubertin, no Palácio dos Esportes e em outros lugares. Além de muitos feridos, várias dezenas foram mortos, seus corpos jogados no Sena. Muitas famílias nunca encontraram os restos mortais de seus parentes ", lembrou a presidência francesa.

O número de mortes causadas pelo massacre é estimado pelos historiadores em pelo menos várias dezenas, mas o número oficial contabiliza apenas "três".

O chefe de Estado francês "reconheceu os fatos: os crimes cometidos naquela noite sob a autoridade de Maurice Papon são indesculpáveis ??para a República", indicou um comunicado de imprensa do Palácio do Eliseu divulgado logo depois do minuto de silêncio e da colocação de uma coroa de flores. Papon era na época a principal autoridade de polícia de Paris.

"A França olha para toda a sua história com lucidez e reconhece as responsabilidades claramente estabelecidas. Deve isso antes de mais nada a si mesma, e a todos aqueles a quem a guerra na Argélia e sua esteira de crimes cometidos por todos os lados feriram em sua carne e alma," diz ainda a declaração oficial divulgada pelo Eliseu.

A cerimônia acontece num contexto tenso entre Paris e Argel, após comentários de Macron relatados pelo Le Monde onde acusava o sistema "político-militar" argelino de alimentar uma "renda memorial", disponibilizando a seu povo uma "história oficial" que "não se baseia em verdades".

Já o Palácio do Eliseu garante que o presidente francês deseja acima de tudo "olhar a história de frente", como fez em Ruanda, ao reconhecer as "responsabilidades" da França no genocídio dos tutsis de 1994.

Com informações da AFP