PUBLICIDADE
Topo

Zelensky não tinha nada para se tornar herói, diz autor de biografia do presidente ucraniano

26/05/2022 16h46

Desde o início da ofensiva russa na Ucrânia não se passa um dia sem que a imprensa internacional cite o nome do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Dois jornalistas franceses acabam de publicar uma biografia do chefe de Estado, contestado por alguns e considerado um herói por outros.

Desde o início da ofensiva russa na Ucrânia não se passa um dia sem que a imprensa internacional cite o nome do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Dois jornalistas franceses acabam de publicar uma biografia do chefe de Estado, contestado por alguns e considerado um herói por outros.

No livro Volodymyr Zelensky, dans la tête d'un héros (Volodymyr Zelensky, na mente de um herói, em tradução livre), publicado pela editora francesa Robert Laffont, os jornalistas da RFI Sthéphane Siohan e Régis Genté tentaram entender o fascínio despertado pelo presidente, que começou sua carreira como comediante antes de dirigir o país. Ambos autores conhecem bem o contexto geopolítico local e as especificidades da Ucrânia e da região, pois Siohan é correspondente em Kiev e Genté em Tbilisi, na Geórgia, ex-república soviética que também foi alvo de uma ofensiva militar lançada por Moscou, em 2008.   

Siohan, que se encontrou com Zelensky algumas vezes, conta no livro a transformação do atual presidente, que durante muito tempo não foi levado à sério. "Quando ele foi eleito, havia muitas dúvidas na opinião pública ucraniana sobre a sua capacidade de assumir grandes responsabilidades. Antes do conflito, o índice de popularidade dele estava entre 20% e 25%", relembra.

Mas tudo mudou em 24 de fevereiro, quando a Rússia lançou sua ofensiva militar no leste ucraniano. "Em 48 horas a popularidade dele passou de 25% para 90%", se recorda Sthéphane Siohan.

Um dos momentos mais simbólicos dessa transformação, afirmam os autores da biografia, foi a aparição de Zelensky nas ruas de Kiev, nos primeiros dias do conflito, quando todos pensavam que ele iria tentar preservar sua integridade física, se escondendo em algum bunker. Para Régis Genté, essa foi uma das imagens mais fortes do começo da guerra, pois o chefe de Estado correu um verdadeira risco naquele momento. "Ficamos sabendo depois que havia ameaças reais e que houve tentativas de assassinato contra ele. Grupos russos estavam em Kiev para tentar matá-lo ou sequestrá-lo", conta o jornalista.

Esse foi, aliás, um dos trunfos do chefe de Estado desde o começo da crise: nunca se esconder e, pelo contrário, se mostrar o máximo possível. "O que impressiona desde o início da guerra é a maneira como Zelensky utiliza e domina todos os códigos da comunicação", avalia Siohan. "É importante lembrar que ele foi ator, humorista, mas também diretor e produtor. E mesmo se os filmes que fazia não eram de grande qualidade [cinematográfica], ele conhecia muito bem a parte técnica. Sabe qual tipo de imagem deve criar para produzir um efeito no público e faz isso como ninguém."

Para Genté, o presidente ucraniano representa hoje o oposto do líder russo, tanto na forma de ver o mundo como na concepção do poder, que passa principalmente pela imagem e uma certa autenticidade. "Enquanto Vladimir Putin fala com seus conselheiros mantendo uma distância de 10 a 15 metros, em uma sala repleta de colunas imponentes e ornamentos dourados, Zelensky é capaz de dar uma entrevista sentado no chão, sem problemas. É um contraste natural, mais que ele também instrumentaliza, isso é evidente", analisa o correspondente de Tbilisi.

Respostas incompreensíveis

No entanto, o presidente ucraniano tem seus pontos fracos. O correspondente em Kiev notou que ele nem sempre domina os temas sobre os quais fala e, durante entrevistas, seu raciocínio pode ser meio aproximativo. "A última vez que eu tive uma entrevista com ele foi em agosto passado e ele ainda tinha uma certa dificuldade com os jornalistas quando as questões não eram informadas com antecedência e às vezes dava respostas muito longas, quase incompreensíveis"

"No começo ele contava apenas com seu carisma", analisa Siohan. "Mas depois se deu conta que teria que estudar os assuntos delicados. Só para ter uma ideia, antes de ser eleito, ele dizia que seu talento de artista e seu magnetismo seriam suficientes para resolver o conflito na região do Donbass [que Moscou tenta controlar há anos]".

Quando foi eleito, "Zelensky não tinha nada para seu um herói", lança o correspondente de Kiev. "Boa parte dos artistas e intelectuais de Kiev não se conformavam com a vitória de um candidato que não falava ucraniano direito, que era bastante vulgar e que construiu sua carreira fazendo piados de mau gosto. Mas hoje até seus piores inimigos pararam de criticá-lo. Pelo menos durante a guerra".

No entanto, Genté insiste que essa 'transformação' do ator em chefe de Estado já vinha acontecendo muito antes da guerra. Ele se recorda de uma reunião em Paris, em 2019, quando o presidente ucraniano esteve de diante de Putin e não abaixou a cabeça em nenhum momento. "Ele enfrentou o presidente russo até o fim", se lembra o jornalista. "O Zelensky que vemos agora já estava presente naquele momento".