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Produtores brasileiros marcam presença em Cannes e mostram que cinema nacional resiste

27/05/2022 13h04

Esta matéria poderia se chamar "a vida quase invisível do Brasil no Festival de Cannes". Três anos depois da participação recorde do país no evento em 2019, o cinema brasileiro foi representado na seleção oficial desta 75? edição apenas com a exibição do clássico "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha. No entanto, o Brasil está presente na competição pela Palma de Ouro com o produtor Rodrigo Teixeira, e no importante Mercado do Filme de Cannes.

Esta matéria poderia se chamar "a vida quase invisível do Brasil no Festival de Cannes". Três anos depois da participação recorde do país no evento em 2019, o cinema brasileiro foi representado na seleção oficial desta 75? edição apenas com a exibição do clássico "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha. No entanto, o Brasil está presente na competição pela Palma de Ouro com o produtor Rodrigo Teixeira, e no importante Mercado do Filme de Cannes.

Adriana Brandão, enviada especial ao Festival de Cannes

O cineasta, jornalista e crítico Eduardo Valente, que cobre o Festival de Cannes há 20 anos, lembra que há 21 anos o cinema brasileiro contemporâneo não ficava de fora da seleção. "Para a gente que vem do Brasil é sempre uma situação que preferimos não passar. É triste, mas tem muitos motivos e sentidos para se entender como se chegou aqui. A gente espera que seja uma situação que não se repita", diz Valente.

A pandemia dificultou, mas não justifica por si só essa situação. "A pandemia aconteceu no mundo inteiro e aqui tem vários países representados", ressalta o cineasta e crítico. Há três anos a Ancine não lança um edital federal, pondera.

Para Rodrigo Teixeira, que assina a produção de "Armaggedon Time", longa autobiográfico do cineasta americano James Gray, a explicação para esta não seleção de filmes contemporâneos brasileiros em Cannes é simples: o país vive um hiato de produção. "É um efeito da pandemia e do governo. A gente não tem filme porque a gente não filmou, porque a gente não teve dinheiro !", explica o produtor de "A vida Invisível", de Karim Aïnouz, vencedor da mostra Um Certo Olhar de Cannes, em 2019.

Novos filmes de Juliana Rojas e Kleber Mendonça Filho

Uma prova de que o cinema de autor no Brasil vive uma entressafra é o recente projeto da veterana produtora Sara Silveira, que tem 40 anos de profissão. Ela produz o último filme de Juliana Rojas, "Cidade Campo", rodado antes da pandemia e que teve sua finalização interrompida durante a crise sanitária. Ela veio a Cannes num ato de resistência e de luta pela cultura e o cinema nacional.

"Vir a Cannes não é um privilégio de estrelas. A gente vem a trabalho. A gente está aqui resistindo. Nós mulheres brasileiras, brancas, pretas, de todas as cores e raças, precisamos nos unir para tentar resgatar as histórias de nosso país que agora estão suspensas por questões ideológicas bobas e, diria, sem sentido", afirma.

Sara Silveira lembra que o cinema é um setor "que carrega um país, que representa um país, que dá trabalho. É um setor que tem o seu próprio dinheiro, não é dinheiro do governo. O governo nos avaliza a usar o dinheiro do nosso setor. Que isso fique isso muito claro", esclarece.

A produtora garante que nada vai detê-la e que Cannes a fortaleceu. O filme de Juliana Rojas foi bem apreciado e Sara Silveira espera que ele irá representar o Brasil na Riviera Francesa no ano que vem. "Isso é um alento. Nós estávamos em cima antes da pandemia e desse governo. Agora, está na hora de retomar. O Brasil tem condições, competência, tem qualidade técnica, tem tudo que a gente precisa para continuar criando e fazer um cinema de chegada nos grandes festivais", acredita.

Outro grande nome do cinema nacional que prepara um filme é Kleber Mendonça Filho, vencedor do prêmio do Júri com "Bacurau" em 2019. O cineasta pernambucano desembarcou em Cannes na segunda semana do festival para fechar o financiamento, 100% internacional, de seu próximo longa-metragem.

Mais importante mercado do setor cinematográfico do mundo

Mas se, além de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber, não teve filme de autor selecionado em nenhuma das mostras de Cannes, longas brasileiros foram exibidos no Marché du Film (Mercado do Filme), em busca de parcerias e distribuidores internacionais. O estande Cinema do Brasil, gerido pelo Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo (SIAESP), voltou a ser montado no evento depois de dois anos de ausência, com uma delegação de 32 empresas e propondo um catálogo de 30 filmes e 28 projetos.

Adriane Freitag, gerente executiva do Cinema Brasil, comemora que esta participação presencial depois de dois anos no mais importante mercado para o setor começou com "a boa notícia de recursos da Ancine sendo liberados, inclusive para coproduções". Ela espera que "bons negócios sejam gerados e que em breve tenhamos muitas seleções oficiais para celebrar".

No Mercado do Filme tem também uma disputa oficial. O Brasil concorreu na mostra de filmes em realidade virtual no projeto Cannes XR. O curta de animação "LaVRynthos" da dupla Fabito Rychter e Amir Admoni, era o único latino-americano da competição. Não venceu, mas foi "um orgulho muito grande representar nosso continente", indicou Fabito Rychter.

Fernanda Lomba, cofundadora da Nicho 54, que está em Cannes liderando uma comitiva de sete produtoras negras de cinema diz que a ausência de filmes brasileiros na seleção do Festival é um grande impacto, mas ela tem o que comemorar.

"A minha perspectiva racializada me faz comemorar que este ano é a primeira vez que a gente tem uma pessoa preta brasileira no Festival. Ao invés de lidar com a ausência do cinema brasileiro neste momento, eu lidaria, com toda sinceridade e alegria, com a presença de uma comitiva de mulheres negras. Não sendo essa iniciativa, nós não teríamos nenhuma mulher preta no Marché", pontua Fernanda Lomba.