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Russos finalmente respeitam sinais de trânsito. O que provocou a mudança?

Pedestres atravessam rua em uma esquina de Moscou - Sergey Ponomarev/The New York Times
Pedestres atravessam rua em uma esquina de Moscou Imagem: Sergey Ponomarev/The New York Times

Andrew Higgins

Em Moscou (Rússia)

03/10/2016 06h00

A rua de Moscou, geralmente movimentada, estava vazia de carros e também de policiais, porque uma garoa fina se transformara em um temporal.

Mas em uma cidade onde as regras de trânsito costumavam ser consideradas totalmente opcionais, mais de dez pedestres continuavam parados na calçada, obedientemente esperando sob a chuva que o farol vermelho contasse os 160 segundos que eles teriam de aguardar para atravessar a rua.

"Eu sempre tento seguir as regras. Quero viver em um país civilizado", disse Aleksei Smirnov, um entregador de 22 anos, quando perguntado sobre por que se incomodava em esperar, se virtualmente não havia risco de ser atingido por um carro ou multado pela infração.

Para alguém que viveu em Moscou nos anos 1990, um período de desobediência e liberdade total, a reverência de Smirnov pelos rituais do bom comportamento é uma lembrança surpreendente do quanto a Rússia, ou pelo menos sua capital, mudou desde que o presidente Vladimir Putin assumiu o poder, em 1999.

Assim como grande parte do que acontece na Rússia, porém, entender o sentido dessa mudança depende do que você pensa sobre Putin: um sinistro ex-oficial da KGB decidido a arrastar o país de volta à obediência temerosa da União Soviética, ou simplesmente um policial duro, mas de mentalidade moderna, decidido a trazer um pouco de ordem ao caos?

Para autoridades do governo, o crescente e antes inimaginável respeito pelos incômodos sinais de trânsito é uma prova de que, sejam quais forem as queixas dos críticos do Kremlin sobre o avanço silencioso da ditadura, o regime de ferro de Putin e seu escolhido para a Prefeitura de Moscou, Sergei Sobyanin, trouxeram uma mudança há muito necessária na direção de uma sociedade mais educada e respeitadora da lei.

"Não é porque as pessoas têm medo, mas porque agora são ensinadas desde crianças a seguir as regras de trânsito e outras", disse Alexander Polyakov, vice-diretor do Centro de Controle de Trânsito de Moscou, sede de um elaborado sistema de controle e monitoramento que conta com 150 mil câmeras espalhadas pela cidade e um vasto local de armazenamento de dados onde ficam todos os vídeos transmitidos das ruas.

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Pedestre atravessa na faixa em Moscou
Imagem: Sergey Ponomarev/The New York Times

Assistindo às cenas de rua projetadas em um telão na sala de comando, os controladores de trânsito monitoram o fluxo de 3,5 milhões de carros e um número muito maior de pedestres que se deslocam pela cidade diariamente.

Polyakov disse que ficou desanimado com a imagem da Rússia no Ocidente como uma terra sem lei, de opressão brutal. Ele insistiu que, pelo menos em relação aos sinais de trânsito, as pessoas obedecem não por medo das multas --no máximo de 500 rublos, ou cerca de R$ 25,00--, mas porque "hoje elas respeitam a si mesmas e às outras".

Além disso, "as pessoas não querem mais correr riscos" porque entendem que todo mundo fica melhor quando as regras são respeitadas, afirmou.

É uma opinião que combina com os diversos apelos de Putin por mais disciplina e ordem. Logo depois que assumiu o poder, ele prometeu adotar uma "ditadura da lei", que seria aplicada a todos e poria fim à desordem que se seguiu ao colapso da União Soviética em 1991.

Mas muitos são altamente descrentes de que Putin tenha cumprido essa promessa --ou se interesse realmente em cumpri-la. Os órgãos de policiamento e os tribunais costumam perseguir os críticos do governo por ofensas menores ou inventadas, mas demonstram pouco interesse em punir os erros mais sérios das pessoas que têm boas conexões.

Leon Kosals, um sociólogo que é professor no departamento de direito da Escola Superior de Economia de Moscou, disse que os moscovitas "sabem que não podem ter acesso à justiça, que não é um jogo justo". Mas ele disse que cada vez mais tentam seguir as regras de trânsito e outras "porque eles querem viver em um país moderno, não porque pensem que o sistema hoje é justo".

Em vez de um apoio do Kremlin, acrescentou Kosals, tal comportamento é de certo modo uma espécie de protesto silencioso, uma demonstração desafiadora do desejo de fazer parte do Ocidente, uma zona política e cultural constantemente vilipendiada pela mídia controlada pelo Estado como um ralo de miséria decadente cheio de russófobos e homossexuais.

As autoridades de Moscou, disse Kosals, merecem crédito por conter a antes corrupta polícia de trânsito e investir alto no embelezamento da cidade. Mas um fator mais importante para mudar os hábitos dos pedestres, segundo ele, é o desejo de muitos moscovitas de levar uma vida diferente, mais civilizada.

O resultado, disse Kosals, é "uma história de sucesso infelizmente rara na Rússia". "Nesta área há um esforço conjunto entre o governo e a sociedade", disse ele.

Moscou ainda tem enormes engarrafamentos de trânsito na hora de pico e, segundo a TomTom, uma empresa holandesa que realiza uma pesquisa anual de condições de trânsito globais, hoje é a quinta cidade mais congestionada do mundo.

Mas esse é um grande avanço em relação a apenas dois anos atrás, quando Moscou venceu a Cidade do México, Bancoc e outras cidades notoriamente congestionadas pelo título de pior trânsito do mundo.

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Esse progresso, segundo Polyakov, do Centro de Controle de Trânsito da cidade, é devido a novas ruas, um novo sistema automatizado de multar os motoristas e o melhor comportamento de motoristas e pedestres, que, graças à adoção de novos sinais de trânsito, hoje sabem exatamente quantos segundos terão de esperar para atravessar.

"Eles podem ver que não terão de esperar para sempre, que há esperança de chegar ao outro lado", disse Polyakov.

Aonde a Rússia espera chegar exatamente e quanto tempo isso vai demorar, porém, são incógnitas. Enquanto o Kremlin denuncia os EUA e a Europa como uma ameaça hostil à Rússia, a cidade de Moscou ao mesmo tempo se tornou mais europeia em seus gostos, hábitos e aspirações.

Cortesias básicas como segurar a porta na entrada do metrô para que não bata na cara da próxima pessoa estão ganhando terreno, especialmente entre jovens profissionais urbanos.

"É um fenômeno fantástico --isso é uma revolução urbana", disse Sergei Nikitin, um ativista de preservação e especialista em planejamento urbano. "Nunca pensei que as pessoas em Moscou seriam tão atenciosas com sua cidade e com os outros."

Moscou, segundo ele, está passando por "uma verdadeira gentrificação, no sentido de que está se tornando mais gentil".

Na vanguarda disto estão os moscovitas mais jovens como Smirnov, que não se lembram da União Soviética e que viajaram bastante fora da Rússia. Mas hoje os mais velhos, na maioria, também esperam nos cruzamentos.

Tatiana Markovsova, mulher de um diplomata da era soviética que estava baseado em Londres, esperava ao lado de Smirnov sob a chuva recentemente, mas disse que o respeito aos sinais de trânsito não representa tanto a adoção de modos europeus, mas um retorno saudável à disciplina da era soviética.

"Sob Yeltsin, tudo era um caos", disse ela. "Ele estava bêbado o tempo todo e ninguém seguia as regras. Hoje as coisas estão voltando a ser o que eram."

Ela acrescentou que pensa que os pedestres esperam a mudança do farol principalmente por medo de serem multados ou atropelados.

Para Nikitin, o especialista em planejamento urbano, a crescente disposição de muitos moscovitas a respeitar os sinais "é o oposto das atitudes soviéticas" de paciência fatalista gerada pela necessidade e o medo da punição.

"Muitos fatores culturais são muito importantes aqui, não apenas as multas", disse ele. "Trata-se de ser civilizado, não de disciplina."

Nikitin aplaudiu as autoridades de Moscou por implementarem vários programas para reformar prédios dilapidados, repavimentar ruas, alargar calçadas e criar ciclovias.

Muitos intelectuais liberais, especialmente os que atuam na oposição política, resmungam sobre os esforços de embelezamento, que começaram de fato depois de protestos maciços contra Putin em Moscou em 2011. As mudanças físicas na cidade conseguiram acalmar, ou pelo menos diluir, o descontentamento da população de classe média, ao tornar Moscou mais amistosa com os ciclistas, pedestres e jovens pais que empurram carrinhos de bebê -- exatamente as pessoas com mobilidade ascendente que fizeram os protestos em 2011.

Nikitin disse que modificar a aparência da cidade não irá resolver os muitos problemas do país, mas incentiva novos códigos de comportamento mais civilizados entre os moradores.

"O embelezamento é real, não se pode negar", disse ele. "Isso muda o modo das pessoas pensarem e se comportarem."