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"Esmagar insetos": a moral dos drones

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

Colunista do UOL

13/11/2013 06h00

O uso sistemático dos veículos aéreos não tripulados (Vant) --também chamados drones--, como armas de espionagem e de guerra muda o quadro militar, geopolítico e jurídico dos conflitos internacionais.

No plano militar o avanço deste tipo de armas é avassalador . Dentro de dez anos, um terço das missões da força aérea americana será executado pelos drones. Atualmente, a Força Aérea dos Estados Unidos tem 2.300 aviões, mas o Pentágono (ministério da Defesa) dispõe de 10 mil drones equipados para fotografar, filmar e matar. Milhares de outros drones são utilizados pela CIA (sigla em inglês para Agência Central de Inteligência) e outras forças de segurança americanas.

Além de ser mais baratos que os aviões de caça, os drones são operacionalizados mais rapidamente. Enquanto um piloto de caça leva dois anos para ser formado, um operador de drone habilita-se com um ano de treinamento.  Da mesma forma, um caça só voa durante duas horas. Mas um drone de ataque, como o Predator, armado de mísseis, pode voar 14 horas. Global Hawk, o drone de espionagem celebrizado na caça a Bin Laden, voa até 36 horas seguidas. Um especialista citado no documentário "Rise of the Drones" (2013), do norte-americano Peter Yost, pondera que o uso militar dos drones está só no início, mais ou menos no ponto em que estavam os teco-tecos no final da Primeira Guerra Mundial.  

Muitos outros países possuem drones de ataque. Outros, como o Brasil, têm drones de filmagem para o controle de fronteiras e de trânsito. Sem contar as duas centenas de drones privados (monitoramento de lavouras, obras de engenharia, projetos imobiliários) que, segundo o site G1, voam sem autorização nos céus brasileiros, visto que é proibido o vôo comercial e em zonas urbanos.

Muito mais graves são os problemas jurídicos ligados ao uso militar dos drones. Oficialmente, os Estados Unidos só lançam ataques de drones no Afeganistão, onde as operações militares foram autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU.

Na prática, a CIA também faz reides mortais no Paquistão, no Iêmen e na Somália.  Como declarou um especialista, atacar mais de 300 vezes um país com os drones configura um ato de guerra que teria de ser autorizado pelo Congresso americano, o que não é o caso.

Paralelamente, o número crescente vítimas civis, atingidas pelos mísseis dos drones em operações sem nenhum enquadramento legal, suscitas críticas cada mais duras dentro e fora dos Estados Unidos.  Quanto às questões éticas referentes à matéria, basta lembrar o significado subjacente ao nome que certas autoridades americanas dão aos ataques de drones na Ásia Central e na Península Arábica.

Sempre controlados e analisados de muito longe, das salas operacionais confortavelmente situadas em vários pontos dos Estados Unidos, esses ataques são chamados de “bugsplat”, em bom português, "esmagar insetos".

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