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Países africanos viram 'China da China' com mão-de-obra e energia barata

O presidente chinês, Xi Jinping (e), cumprimenta o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, na cerimônia de abertura da Cúpula de Johanerburgo - Pang Xinglei/Xinhua
O presidente chinês, Xi Jinping (e), cumprimenta o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, na cerimônia de abertura da Cúpula de Johanerburgo Imagem: Pang Xinglei/Xinhua
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

06/12/2015 14h37

O presidente chinês Xi Jinping reuniu-se na semana passada, em Johanesburgo, na África do Sul, com 40 chefes de Estado e de governo africanos no âmbito do Foro de Cooperação sino-africano. O último encontro do Foro havia ocorrido em 2006, quando a China chegava cheia de planos e de capitais nos mercados africanos. No meio tempo, mudou a China e mudaram os países africanos, alterando substancialmente as relações entre os dois blocos.

Num artigo na revista "Foreign Policy", Deborah Brautigam, especialista que ensina na Universidade Johns Hopkins, desfaz os "mitos" que envolvem os investimentos chineses na África. Como ela demonstra, a China não é apenas uma importadora de recursos naturais africanos. 

Em 2014, Beijing assinou contratos de investimento de US$ 70 bilhões em investimentos que geram infraestrutura, empregos e especialização profissional em vários países africanos.

Outro ponto equivocado diz respeito à presença de trabalhadores chineses nos canteiros de obras e fábricas chinesas implantadas na África. É verdade que há muitos chineses nas áreas de exploração de petróleo situadas na Argélia, em Angola e na África Equatorial. Mas um estudo mais amplo, cobrindo 400 empresas chinesas que operam em 40 países africanos, mostra que mais de 80% da força de trabalho é recrutada localmente.

Na realidade, a China está passando por um transição industrial que comporta uma estratégia em duas etapas.

Por um lado, as fábricas situadas na China aperfeiçoam sua a produção high tec, com produtos alto valor agregado. Por outro lado, as indústrias estendem as cadeias de valor global, deslocando setores industriais intensivos em mão-de-obra.

Como observou uma editorialista, no documento introdutório do Foro sino-africano de 2006, a palavra "indústria" só aparecia uma vez e não havia menção sobre a "industrialização" da África.

Em contraste, o texto equivalente apresentado na semana afirma: "A priorização do apoio para a industrialização da África será a área principal e o foco central da cooperação [econômica] chinesa com a África na nova era."

Em alguns países, onde a energia é relativamente barata e a mão de obra abundante, este processo já está bem avançado. Na Etiópia, onde o salário mensal industrial é 14 vezes menor que o da China, muitas indústrias de chinesas de sapatos, camisetas e bolsas estão em atividade e o país está ficando conhecido como "a China da China".

Obviamente, este processo de deslocalização industrial tem consequências mais amplas.

Na esteira da construção de indústrias, de infraestruturas e de escolas técnicas, a presença chinesa irá se expandir na África. No final, entra a cooperação militar. No horizonte se perfilha um aguçamento da rivalidade entre a China e a Índia na África Oriente e no Oceano Índico.

Mas os empresários do Brasil também devem por as barbas de molho: o aumento da produção industrial africana irá reduzir o espaço brasileiro no mercado internacional de produtos manufaturados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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