Crescimento econômico e conflitos sociais na Índia caminham de mãos dadas

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Reprodução/Ibtimes

    Narendra Modi, o primeiro-ministro indiano

    Narendra Modi, o primeiro-ministro indiano

Vencedor das eleições parlamentares indianas de maio de 2014 na liderança do partido conservador e nacionalista hindu, o BJP (Bharatiya Janata Party), o primeiro-ministro Narendra Modi inicia seu terceiro ano de mandato em meio a dificuldades políticas e sociais.

Comparado a outros países emergentes, e em particular ao Brasil, o crescimento econômico da Índia, que registrou uma média anual de 6% entre 1951 e 2015, e deve atingir 7% em 2016, aparece numa posição invejável.

Contudo, os desafios demográficos e sociais do país também são consideráveis. Conforme as projeções da ONU, a Índia contará com mais de 1,4 bilhão de habitantes em 2022, tornando-se o país mais populoso do planeta. O aumento demográfico incorpora, todos os meses, 1 milhão de jovens indianos na população economicamente ativa.

Na prática, a população indiana com idade inferior a 25 anos é maior do que a soma da populações inteiras dos Estados Unidos e do Brasil.

Estado federal formado por 29 Estados e 7 territórios, a Índia padece de males conhecidos nas nossas paragens: corrupção e ineficiência administrativa. 

Mas as semelhanças com o Brasil param por aí. As tensões fronteiriças com o Paquistão e, em menor medida, com a China, elevam os gastos militares indianos a 2,40% do PIB, enquanto no Brasil este item corresponde a 1,47%.

Da mesma fora, ao contrário do Brasil, a Índia ainda é um país predominantemente rural, com 67% da população no campo, a despeito de possuir algumas das maiores cidades do mundo.

O crescimento econômico gerou novas clivagens sociais que se superpõem às antigas divisões religiosas. Frente à maioria hinduísta (80% da população) situa-se a forte minoria muçulmana (14,2%) e, em bem menor proporção, os cristãos e os siks.

Nas últimas semanas emergiram revoltas no seio das comunidades hindus, nas quais o sistema de castas ainda tem forte incidência. Enraizado no hinduísmo, o sistema de castas foi combatido a partir da Constituição de 1950, de duas maneiras.

Paralelamente à afirmação da laicidade, o governo central instaurou uma política de discriminação positiva. Beneficiando as castas pejorativamente chamadas de "intocáveis" (dalit), a política de cotas da vagas nas universidades e na administração pública também favorece membros das tribos indígenas do território indiano.

Em 1990, o sistema foi estendido a "outras classes desfavorecidas" situadas acima dos "dalits" e formadas por castas de lavradores, criadores e artesãos.

Nas últimas semanas, os Jats, casta intermediária contemplada pelas cotas em alguns Estados, mas sem tais privilégios noutros lugares, lançaram protestos na região do Punjab, no norte da Índia. O apoio do BJP às reinvidicações dos Jats reforçou as críticas contra o primeiro-ministro Modi, acusado de autoritarismo e de favorecimento aos fundamentalistas hindus.

Num editorial publicado na semana passada, o jornal Le Monde (para assinantes) defende a preservação do modelo democrático indiano, implantado num subcontinente povoado por um terço da humanidade, e com uma dimensão geopolítica que vai muito além das manobras do governo de Narendra Modi.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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